8-1-2002

 

GIUSEPPE VERDI

(1813 - 1901)

 

 

 

Em Portugal, no sec. XIX, ópera e Verdi eram praticamente sinónimos, tal a fidelidade que havia às obras do compositor italiano. Não admira por isso que a Biblioteca Nacional se tivesse associado às comemorações do centenário da sua morte, através de uma exposição com o título Verdi em Portugal.

Também já vi um apreciável número de óperas dele: no Coliseu, a Aida (1981), o Rigoletto (1979) e La forza del destino (1980). No Teatro Nacional de S. Carlos, também a Aida (1989), La Traviata (1982), Falstaff (1986) e Nabucco (1995). Por coincidência, vi também uma representação do Rigoletto em Berlim, em 1979. Mais uma Aida, menor, em Bruxelas, em 1997.

 

 

 

 

 

La forza del destino

O tu che in seno agli angeli

Eternamente pura, 
Salisti bella, incolume 
Dalla mortal jattura, 
Non iscordar di volgere 
Lo sguardo a me tapino, 
Che senza nome ed esule, 
In odio del destino, 
Chiedo anelando, 
Ahi misero, 
La morte d'incontrar. 
Leonora mia, soccorrimi, 
Pietà del mio penar! 

Pietà di me! 

 

 

 

 

Teatro alla Scala, Milano

 

 

FALSTAFF

          Tutto nel mondo é burla.
          L'uom é nato burlone,
          La fede in cor gli ciurla,
          Gli ciurla la ragione.
          Tutti gabbati! Irride
          L'un l'altro ogni mortal.
          Ma ride ben chi ride
          La risata final.

 

 

 

         

FALSTAFF

          Dal labbro il canto estasiato vola
          Pe' silenzi notturni e va lontano
          E alfin ritrova un altro labbro umano
          Che gli risponde colla sua parola.
          Allor la notte che non é più sola
          Vibra di gioia in un accordo arcano
          Come altra voce al suo fonte rivola.
          Quivi ripiglia suon, ma la sua cura
          Tende sempre ad unir chi lo disuna.
          Così baciai la disiata bocca!
          Bocca baciata non perde ventura.

          Anzi rinnova come fa la luna.

 

 

 

   

Giuseppina Strepponi

 

 

 

RIGOLETTO

 

La donna è mobile

Qual piuma al vento,

Muta d’accento

E di pensiero.

Sempre un amabile

Leggiadro viso,

In pianto o in riso,

E’ mensognero.

E’ sempre misero

Chi a lei s’affida,

Chi le confida,

Mal cauto il core!

Pur mai non sentesi

Felice appieno

Chi su quel seno,

non liba amore! 

 

 

 

 

 

Nabucco

Va', pensiero, sull'ali dorate.
Va', ti posa sui clivi, sui coll,
ove olezzano tepide e molli
l'aure dolci del suolo natal!
Del Giordano le rive saluta,
di Sionne le torri atterrate.


O mia Patria, sì
bella e perduta!
O membranza sì
cara e fatal!
Arpa d'or dei fatidici vati,
perché
muta dal salice pendi?
Le memorie del petto riaccendi,
ci favella del tempo che fu!


O simile di Solima ai fati,
traggi un suono di crudo lamento;
o t'ispiri il Signore un concento
che ne infonda al patire virtù
che ne infonda al patire virtù
al patire virtù!

 

 

 

 

 

I Lombardi alla prima crociata

 

Oh Signore, dal tetto natìo,

ci chiamasti con santa promessa;

noi siam corsi all'invito di un pio

giubilando per, l'aspro sentier.

  

Ma la fronte avvilita e dimessa

hanno i servi già baldi e valenti

deh! non far che ludibrio alle genti

siano Cristo, i tuoi figli guerrieri

  

Oh fresche aure. volanti sui vaghi

ruscelletti dei prati lombardi !

Fonti eterne ! Purissimi laghi! 

Oh vigneti indorati di sole

  

Dono infausto, crudele è la mente

che vi pinge sì veri agli sguardi

ed al labbro più dura e cocente

fa la sabbia di un arido suol!

  

Fa la sabbia - fa la sabbia di un arido suol!

D'un arido suol - d'un arido suol!

 

 

 

 

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Verdi e o Risorgimento

A unificação de Itália


Verdi tornou-se um símbolo do Risorgimento, primeiro pelo ênfase patriótico que dava em vários libretos e também pela sua reputação de liberal.

O Risorgimento (ressurreição) foi o movimento italiano de tomada de consciência nacional contra a dominação estrangeira e a favor da unificação política, que culminou na fundação do estado de Italia em 1861. Este movimento ideológico e literário ajudou a despertar a consciência nacional do povo italiano, e levou a uma série de acontecimentos políticos que libertaram os estados italianos que estavam sob domínio estrangeiro e anexaram os que eram autónomos.

Embora o Risorgimento tivesse alcançado o estatuto de mito nacional, o seu significado essencial continua a seu uma questão controversa. A interpretação clássica (expressa nos textos filosóficos de Benedetto Croce) vê o Risorgimento como o triunfo do liberalismo, mas visões mais recentes criticam-no como uma revolução aristocrática e burguesa que falhou em incluir as massas.
O principal impulso para o Risorgimento veio das reformas introduzidas pelos franceses quando dominavam a Italia durante o período da Revolução Francesa e das guerras napoleónicas (1796-1815). Alguns estados italianos foram brevemente consolidados, primeiro como repúblicas e depois como estados-satélite do imperio francês. Outro factor importante foi o crescimento da classe média italiana e o seu acesso ao novo poder.
Depois da derrota de Napoleão em 1815, os estados italianos foram devolvidos aos seus antigos governantes. Sob a tutela da Áustria, estes estados assumiram um carácter conservador. Sociedades secretas, como a Carbonaria, opunham-se ao desenvolvimento das décadas 1820 e 30. O primeiro grupo manifestamente republiano e nacional foi a Jovem Itália, fundada por Giuseppe Mazzini em 1831. Esta sociedade, que representava o aspecto democrático do Risorgimento, esperava educar o povo italiano para um sentido de nacionalidade e encorajar as massas para se revoltarem contra os regimes reacionários existentes.
Após o insucesso das revoluções liberal e republicanas em 1848, a liderança passa para Piemonte. Com a ajuda francesa Piemonte derrotou os austríacos em 1859 e
uniu a maioria da Itália sob sua administração em 1861.
"A Itália está feita, o que agora é preciso é fazer os italianos", disse na altura o nacionalista Massimo D'Azeglio. Nesse mesmo ano Victor Emmanuel II é proclamado rei de Itália. A coincidência de as iniciais de "Victor Emmanuel Re D'Italia" formarem a palavra VERDI, torna o grito "VIVA VERDI" comum na boca dos populares e nos "grafitti" que enchem as paredes.
A anexação da Venécia em 1866 e de Roma em 1870 marcou o final da unificação de Itália e, por este motivo, o fim do Risorgimento. Verdi ficou conhecido como simbolo nacional, que unificava o povo através da música.

 

 

 

Verdi e a criação de Itália

1820 - Insurreições liberais em Nápoles e no Piemonte, sob direcção da Carbonaria.
1831- Insurreições liberais na Romanha, em Parma e Modena, violentamente reprimidas pela Áustria. Começa o Risorgimento (ressurreição) nacional.
1833 - Mazzini funda o movimento nacionalista Jovem Itália
1842- 43 - Os coros de "Nabucco" e de "Os Lombardos" começam a ser cantados nas ruas como hinos patrióticos.
1848 - Levantamentos por toda a Itália. Carlos Alberto, rei do Piemonte, cria o exército da independência e começa a tentativa de unificação italiana. É derrotado pelos austríacos em Custozza (1848) e Novara (1849).
1849 - Mazzini e Garibaldi proclamam uma efémera república em Roma.
1859 - Carlos Alberto, com ajuda francesa, expulsa os austríacos da Lombardia.
1860 - Garibaldi anexa o reino de Nápoles e desembarca na Sicília.
1861 - Victor Emmanuel II é coroado rei da Itália, em Turim. Reina sobre um território que agrupa 21 dos 25 milhões de italianos. Verdi é eleito deputado, por Borgo San Donino, ao primeiro parlamento italiano.
1866 - Guerra com a Áustria. Entretanto derrotados pelos alemães, os austríacos cedem a Venécia à Itália.
1870 - O exército italiano ocupa Roma, proclamada capital em 1871. A unificação está concluída.

 

 

 

 

Recordando Callas e Kraus em São Carlos

 

Por SIDÓNIO DE FREITAS BRANCO PAES
PUBLICO Sábado, 27 de Janeiro de 2001


Aquela noite de 25 de Março de 1958 (se bem me lembro) foi uma noite mágica. Por felicidade são muitas as noites de glória que posso recordar em São Carlos. Mas aquela noite de Primavera tinha um gosto especial, porque era a Callas que cantava, pela primeira vez em Lisboa. O resto do elenco era duvidoso: o tenor era um tal Alfredo Kraus, um jovem espanhol desconhecido, o Pai Germont era o nosso já conhecido Mário Sereni, de modestos talentos, e o maestro Franco Ghioni, competente sem dúvida também não trazia a fama de vedeta. Mas Maria Callas essa sim. Os jornais davam-lhe superlativos mas não escondiam anedotas de súbitos furores, de espectáculos cancelados, da cura de emagrecimento que afectara a voz, de cabalas e ferozes recontros entre os seus "tifosi" e os da Tebaldi.

Para mim, que já a ouvira na rádio era já um ídolo. Mesmo através dos maus altifalantes da minha telefonia, passava um temperamento de grande actriz, um domínio da voz ao serviço não só do canto como da representação de personagem vivas pela música. Mas nada dessas emoções substituía a de vê-la naquele palco de tantas passadas delícias e na "Traviata", um dos papéis em que a supunha insuperável. Com todas estas esperanças e emoções lá estava cedo na sexta ou sétima fila da plateia, do lado direito, encantado com uma sala que se enchia, a transbordar na parte detrás da plateia e em muitas senhas de camarotes. O ambiente era de festa e grande expectativa: será que a Callas vem mesmo? E estará bem de voz?

Não havendo aviso em contrário, Ghione atacou o sublime Prelúdio, e aberto o pano, a festa começou no "salon" de Violetta Valéry. Mas a verdadeira festa começou quando ela apareceu em cena, e bastou a maneira como aquele corpo esguio se mexia para nascer a tal magia. As primeiras notas foram correctas: "Flora, amici, la notte che resta d'altre gioie qui fate brilar." E que alegrias, que brilhos nos esperavam... Entretanto entra Alfredo (Kraus) na sua elegante sobrecasaca romântica e foi muito agradável de maneiras: ao menos, fisicamente estavam um para o outro. E chega o momento tão esperado dos brindes: Alfredo abre a boca - "libiamo, ne' lieti calici che la belezza inflora, e la fuggevol ora s'inebri a vollutá". Como as palavras dizem, foi um inebriamento, uma volúpia musicais. Eu já ouvira grandes tenores, o Schipa, o Gigli, o Alcaide: e esta voz, esta representação não ficavam atrás de nenhum deles! Que par então, que Alfredo para uma tal Violeta!

A confirmação veio no dueto de amor seguinte, no "Un dì felice", dele, e logo na "Ah, si ció é fuggitemi," dela e foi um delírio na sala. Na grande ária, "È strano! "a Callas foi de facto inexcedível, no canto e no gesto que o sublinhava com aquela arte que tinha de os conjugar emocional e dramaticamente. Mesmo uma ligeira imperfeição na nota final, não impediu que a casa viesse abaixo.

Mas veio também abaixo, se é possível ainda mais, no 2.º acto, quando o Kraus cantou o belo recitativo e "cavatina", "Lunge da lei/De' miei bollenti spiriti". A ovação foi tal que até se podia temer que a Callas tivesse ciúmes...

Não vou continuar a recordar "pari passu" essa noite a dois títulos mágica. Mas direi que esse 2.º acto, no que seguiu foi todo da Callas. No dueto com Germont, a forma como compôs os diverso "affetti" por que essa conversa horrível nas intenções dele a faz passar foram de fazer chorar uma pedra e ferver de furor mesmo inerte. E quanto ao Sereni, até se transcendeu. O acto, é claro, culminou em glória com a explosão romântica de Violetta, "Amami, Alfredo, quant'io t'amo", mas também com o grande brado de desespero de Alfredo.

Nos intervalos era penoso falar sobre estas experiências inefáveis. E havia sempre uns "entendidos" que tinham achado isto e aquilo. Mas o espanto das pessoas sensíveis não era só para a Callas mas para o Kraus. O último acto foi a expansão das emoções extremas de alegria, de esperança e de aniquilamento a que Verdi deu expressão nunca superada. A leitura da carta e a exclamação: "È tardi!" foram aterradores, e o dueto dos amantes agora reunidos, uma antevisão do paraíso, agora possível.

Perdoem-me os superlativos, mas há momentos (poucos) em que até são incapazes de dar ideia da realidade. Em suma, aquela noite de ópera lisboeta, não foi só a da "Traviata" da Callas, mas de um ser hermafrodita: Callas+Kraus. E a estreia deste em Portugal, que lhe abriu uma gloriosa carreira internacional (em que muitas vezes cá voltou) não é menor evento que o da primeira vez (e única) que a Callas cantou em Portugal.