2-11-2007

Página anterior            

 

 

VIAGEM do CONGO

do Missionário Fr. Raphael de Castello de Vide,

Hoje Bispo de S. Tomé (cont.)

 

 

 

/ p. 229/ Continua-se a relação dos trabalhos, fadigas e serviços da missão em o Reino do Congo, de Fr. Rafael de Castello de Vide, filho da Santa Província da Piedade, Missionário Apostólico, e Vigário Geral do mesmo Reino.

  

Débeis serviços de inútil servo, indignos de se narrarem, e muito menos pela minha própria mão, motivo por que tenho demorado há três anos esta relação, ou também por me parecer não ter mais que dizer, que o que está dito nas relações antecedentes; mas a obediência me obriga, e me constrange com um rigoroso preceito, a que não resisto, mas, com amargura e temor, refiro o que tenho passado, que é mais miséria que serviço; e praza a Deus que ao menos sejam trabalhos e fadigas de quem Lhe deseja agradar com esperança só na sua misericórdia, do que no meu merecimento, para aumento / p. 230 / e glória de seu Santíssimo Nome, que só procuro e desejo, e a que refiro o sacrifício do meu coração, assim como o da minha saúde, descanso e vida.

Parece-me que no ano de 1783 ou em 84, dei fim à última relação, não sei se tenho falado na missão, que fiz para as partes de Entalla, Pessumgo, e outras, que ficam para a Província ou Reino de Lima para onde tenho falado ter vontade de viajar, mas sempre se me tem impedido esta viagem; e agora nesta missão, estando quase de caminho mais para dentro do sertão, tive carta do Rei do Congo D. Afonso V para não passar adiante, por alguns motivos de temor de me suceder mal entre aquela gente, de que não temia ainda não obstante a vontade do Rei, eu estava determinado a ir, mas os Intérpretes e os mesmos escravos da Igreja, pelo temor do Rei, nenhum queria, e até o Senhor da Banza onde estava mo impedia, e já me tinha determinado a pegar no meu bordão e ir quase só, mas até isto se não pôde efectuar; pelo que me submeti ao destino da Providência, e voltei para trás, satisfazendo-me com alguns serviços, que tinha feito nas duas Banzas de Entalla, e Pessumgo, seus contornos, partes daquela Província, que se tem separado do Reino, e antigamente lá fizeram o seu Rei, no tempo / p. 231 / de várias revoluções do Congo, o qual Rei ainda fingem que vive e dá os seus títulos de Marqueses, etc. Terra, dizem, de muitos feiticeiros e superstições, e diabólicas invenções , das quais eu principiei a queimar muitas de alguns já crescidos, que vinham pedir o baptismo, e a confissão em a Banza de Pessumgo, aonde tenho falado, em cujo terreiro, aonde estava uma Cruz, era a praça onde se abrasavam quase todos os dias inumeráveis trastes do diabo, sendo então brinco e divertimento dos rapazes em zombarem, e queimarem sem medo, o que outros antes traziam com muita superstição, e confiança de que dava graças ao Senhor por abrir os olhos àquela gente, e lhe dizia o pouco que lhe aproveitava aquilo, com que o demónio os enganava.

Ali administrei o Matrimónio a muitos que o pediam, preguei, etc. e como não pude ir adiante, voltei para a Província de Gandu por onde já havia viajado pelo chamamento de um Infante grande, que me chamava para o confessar na sua doença, de que morreu, o que fiz com consolação sua, e minha, e fiz alguns serviços, pois já havia tempo, que por ali havia passado. Dali voltei pela Quioba , e Ensico, administrando os Sacramentos aos Cristãos já instruídos, principalmen/ p. 232 / te o Matrimónio a outro Infante, que me chamava na sua doença  para o confessar, ao que não quis ir sem primeiro me mandar palavra de casar, pois sabia estava amancebado, o que prometeu: fui, e o casei, e baptizei muitos párvulos, e administrei aos adultos a penitência; e, na volta para casa, fiz outros casamentos, e me recolhi mais depressa por causa de um próprio que vinha de Luanda com cartas sobre o serviço do Estado.

No caminho seguinte, fui a Bamba para dali ir a gente da Igreja a Luanda buscar o necessário, e viajei bastantes léguas, e muitas a pé, e quase até ao Rio Loge, que fica mais perto de Luanda, que do Congo, sempre bem ocupado no meu ministério: ali tive notícia de haver chegado novo Governo, o Ex.mo Senhor Barão de Mossâmedes, José de Almeida e Vasconcellos, e o Ex.mo e Rev.mo Senhor D. Fr. Alexandre da Sagrada Família, para governar estes Bispados; prelado digníssimo, Religioso de N. P. S. Francisco, Missionário Apostólico, que havia sido do Seminário de Brancanes e bem conhecido de toda a nossa Província, e em quem tenho experimentado mais o amor, e familiaridade de Irmão, que a autoridade de Prelado, e o mais que direi adiante.

Estes dois Ex.mos Senhores do Go/ p. 233 / verno espiritual e temporal me escreveram logo cartas cheias de amor, e o Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo me rogava, podendo me mandar, que eu fosse a Luanda para acompanhar dois Religiosos Missionários que haviam de vir para este Reino, por eu ser já conhecido nos caminhos, e poder consolar os novatos em tal viagem, a que logo procurei obedecer, ainda que bem quebrado de forças para uma tal jornada, e duplicada, e recebendo a carta nos fins de Março de 85, logo a 15 de Abril parti, ainda que o tempo era impróprio pelos muitos calores, trovões e chuvas e Rios, que costuma haver neste tempo; parecia-me que podia ir devagar com a lembrança de poder chegar a Luanda nos princípios de Junho, tempo mais apto para virem os Padres novos, e eu como mais acostumado poderia sofrer a ida intempestiva, para tornarem os novatos em melhor estação; mas o Senhor mo impediu, porque logo na primeira jornada me veio um fluxo de sangue pela boca, que me pôs, além da fraqueza, em grande receio de não poder continuar a jornada, e não só isto, de não prestar para mais nada, e não era só este o sangue, que eu queria derramar por meu Senhor, mas todo, e mais puro de minhas veias; pelo que, por aviso do companheiro que havia ficado e conselho de todos me / p. 234 / tornei para a Corte, que, como o mesmo Rei estava assustado com a minha doença, e me visitaram o Rei com a Rainha em nossa casa, e com algum remédio que me ensinaram, parou o sangue, e me determinei de novo a empreender a jornada.

No dia 23 do seguinte Maio, tornei a sair desta Corte em direitura a Luanda, por me parecer que tendo alguma melhora, devia cumprir com a obediência e por julgar que a minha ida seria útil a esta Igreja; e, por não terem ainda de todo acabado as chuvas, e os Rios ainda cheios, dos quais passei alguns com perigo, me demorei alguns dias na Província de Micondo, ocupado sempre no meu Ministério, e só no dia 6 de Junho pude passar o Rio Mbrize,  o maior que fica no caminho; e por algum trabalho maior que tive nesse dia no caminho, na noite seguinte me repetiu o sangue pela boca mas, como estava já distante de casa, descansando um dia, continuei a minha jornada com mais cautela; e nunca mais experimentei aquele efeito, e, atravessando toda a Bamba, vim à Banza maior dela, aonde ainda não tínhamos chegado, e aonde morava o intitulado Duque de Bamba que antes nos havia chamado, mas por dúvidas que havia naquele Ducado sobre o maior dele, não tínhamos ido por não / p. 235 / nos embaraçarmos com as suas dissensões, e agora o fiz por me segurarem, que aquele estava assentado, e conhecido por verdadeiro Duque, mas ainda me não faltou que sofrer da parte de outros pretendentes, que levaram a mal a minha ida, como se a mim pertencesse dar Ducados;  e me ameaçavam; a que eu respondi com resolução e Santa Liberdade de Ministro de Deus, que se não embaraça com temporalidades, e não deve fazer excepção de pessoas, e acudir a todos sem parcialidade, cuja justiça eles conhecem, ainda que por outra parte, o sentia; e estas coisas não são pequeno trabalho para um Missionário, como temos referido nas outras relações, sobre casos semelhantes.

Nesta Banza do tal Duque me demorei por oito dias, pelos muitos baptismos, e confissões , que vinham de longe e me compadecia daquela pobre gente  havia tanto tempo, que estava desamparada, e vinham de bastantes distâncias buscar o bem da sua alma, e em tanta quantidade, que era preciso estar ocupado desde manhã cedo, até muito de noite, já catequizando os adultos, confessando, etc., já pregando, e ensinando aos já baptizados, que todo um dia não era bastante para isso, ficando muita gente esperando para o seguinte, dormindo no campo e logo ao cantar do galo me cercavam / p. 236 / a porta, e ainda que o corpo o sentia, me consolava o espírito, e também me desconsolava por não poder acudir a todos, principalmente a uns Infantes, que me chamavam para receberem o Matrimónio, a que então não pude satisfazer, diferindo aquela jornada para outro tempo.

Por estes, e outros serviços nesta Banza, e por sentir o corpo bem cansado, e ainda não tinha chegado ao meio do caminho, estive quase determinado a mandar dali a gente a Luanda, e eu ficar ocupado com aqueles trabalhos, mas representando-se-me que seria melhor o ir eu, parti dali no dia 24 de Junho, e corri algumas Banzas e cada uma me queria demorar, e a todas satisfiz, o que pude, e com mais aceleração fui a passar o Rio Loge e todo o distrito de Bamba e Mossul até o Libongo, primeira terra do distrito de Luanda, e por este caminho não me faltou trabalho só no meu ministério, que de todos fui recebido com amor, e agrado, além do descanso indispensável em tal viagem, que leva muitas vezes pelo meu pé, e assim passando do Libongo ao Dande, daqui ao Bengo, uma jornada antes de Luanda aonde ao passar o Rio, encontrei um Tenente de Cavalos com alguns soldados, que, por ordem do Ex.mo Senhor General, me vinham encontrar, por eu ter antes avisado / p. 237 / ao sobredito Senhor, de que vinha na minha companhia um Embaixador do Rei do Congo com carta para Sua Ex.ª: por ordem sua fomos hospedados muito bem na Banza do Bengo, dando-se um refresco ao Embaixador, e a toda a gente que me acompanhava; e no dia seguinte empreendemos a última jornada até à cidade de Luanda, acompanhado do mesmo Tenente, e seus soldados e seria meio dia de 11 de Julho de 1785, chegámos à Cidade, e enquanto o Tenente se adiantava a dar parte ao Ex.mo Senhor General, a gente com o Embaixador ficaram junto à Fortaleza de S. Pedro do Penedo em uma casa, e eu fui hospedado na casa do Comandante da mesma Fortaleza, em quem experimentei, além da devoção, o bom tratamento, como já antes havia experimentado em a gente do nosso distrito; é conhecido que, por muita devoção que haja no Congo, sempre é sacrifício viver entre esta gente agreste, que, se uma vez fazem bem, de outra nos afligem.

Entrámos naquela Cidade com grande alvoroço dela, acompanhados dos mesmos soldados, que nos haviam vindo esperar ao caminho, com o seu oficial como fica dito, e indo tomar a bênção ao Senhor Sacramentado em a freguesia / p. 238 / de Nossa Senhora dos Remédios, nos encaminhámos ao Palácio do Ex.mo Governador que nos esperava na Sala do Docel, junto com o Ex.mo Senhor Bispo, e todos os oficiais do Regimento, e me recebeu com grandes demonstrações de agrado, especialmente o Senhor Bispo, que me abraçou mais com amor de Irmão, do que ainda agrado de Prelado. O Embaixador entregou a carta do seu Rei, que o Ex.mo Senhor General aceitou com grande benevolência, e o fez hospedar em uma casa do Rei defronte do seu Palácio, encomendando-me que o avisasse do modo que ele queria ser tratado, para não desconfiar entre tantos brancos, e dar boa fama no seu Reino, o que eu cuidava também. Ao sair da casa, ou Palácio, lhe mandou o Ex.mo Senhor dar três descargas pela sua Guarda, que antes, e depois estava armada, assim como também tinha mandado içar as bandeiras da Fortaleza de S. Miguel e da do Penedo, que deram salva Real à nossa entrada na Cidade, obséquio que mandava dar o mesmo Senhor ao Embaixador pelo respeito de seu Rei, e de tudo eu inteirava ao dito, além de outros bons tratamentos que lhe fizeram, convites, vestidos, etc. e a toda a sua gente e minha.

/ p. 239 / Oito dias me demorei naquela cidade, com bem pouco descanso, pelos muitos consertos que era preciso fazerem-se a respeito deste Reino no temporal, e espiritual, e não posso explicar quantos favores, e agrados experimentei naqueles Senhores, principalmente em o Senhor Bispo, que não quis que me hospedasse em outra casa, se não em a sua, que não me parecia que era outra casa, senão um convento da Província. Recebi muitas coisas para o ornato da Igreja do Congo, e para a sua fábrica com mãos largos de ambos os Senhores, e dizendo o Rei na sua carta, que fossem os brancos fazer negócio à sua Corte, como era costume antigo, o Senhor General se determinou mandar comigo um nobre militar com o negócio a experimentar, se se poderia conseguir o que o Rei dizia, o que eu não desaprovava, por ver se [por] este caminho se podia lançar fora desta Corte um péssimo negócio, que saía das praias do Sonho e vinham comprar escravos Cristãos, e os vendiam aos Holandeses, Ingleses, e outros hereges, que ali vinham, o que eu tinha já abominado, e repreendido, e me diziam que não tinham a quem vender os seus escravos, nem aonde comprar os seus / p. 240 / panos para vestirem; e vindo os Portugueses seria menos mal, porque eram Cristãos; julgava poder fazer algum serviço ao Estado, e tirar a ocasião sobredita que sabia ser condenada pela Igreja nestes Reinos.

Com efeito, preparou-se a condução do negócio para vir o militar sobredito na minha companhia por ser mais conveniente, por eu ser já conhecido neste Reino, e poder mais seguro nos caminhos, e o Senhor General mandou também com ele três soldados, um carpinteiro para trabalhar na Igreja, e dois Ilhéus para cultivarem a terra para os Padres, e excitarem os moradores ao trabalho.

Dois Padres que estavam também destinados a Eremitas de S. Agostinho, por outro nome conhecidos, Gracianos, o Padre Fr. José do Sacramento, e o P.e Fr. José de Torres, sujeitos bem escolhidos pelos mesmos Ex.mos Senhores e dignos de tão apostólicas fadigas, eram os principais que estavam para vir: naquele tempo, apareceu também em Luanda o nosso companheiro e Irmão, Fr. Rafael de Monte Mor, com o destino de se retirar para o Reino: eu o persuadi a que me quisesse acompanhar para o Congo, pela consolação de / p. 241 / ter comigo um Irmão, que tinha vindo na mesma empresa, ele assentiu ao meu desejo, e os Ex.mos Senhores anuíram e louvaram; mas, adoecendo na véspera da jornada, ficou para tomar algum remédio e logo seguir-me; mas nunca mais o vi e julgo houve outra determinação.

Os mencionados Padres comigo, partimos  no dia 19 de Julho do ano de 85, como fica dito, e embarcámos em Luanda até ao Rio Dande, acompanhando-nos o Ex.mo Sr. Bispo até ao barco, e no dia seguinte aportámos no Dande, aonde achámos tudo pronto com gente e refrescos por ordem do Senhor General para nos transportarem até o Libongo, última terra da nossa jurisdição; e ali se veio ajuntar o Militar com os seus soldados, e o seu negócio para entrarmos todos por terra adentro, e já ali nos esperava o Embaixador do Congo, que se havia adiantado, e no dia 24, passámos ao Indui, e daí ao Itabe, primeira terra do Mossul, Marquesado do Congo: não falo do bem que fomos recebidos, e os brancos, ainda que para eles é gente nova nestes caminhos mas pelo respeito de Luanda, que como vizinhos temem, e pela reverência dos Padres, e por saberem que o militar, que era um Tenente de Infantaria, / p. 242 / vinha como Embaixador para o seu Rei, nos fizeram muitos presentes, e o mesmo Marquês veio da sua Banza a visitar-nos, por ver também assim se obtinha a graça do Ex.mo Senhor General, cujo enfado tinham experimentado, e ainda os tinha privado de entrarem em Luanda, o que eles muito sentiam; pelo que em todo este Marquesado fomos bem recebidos; mas a gente que nos tinha até ali trazido, que eram da nossa jurisdição, tinham fugido quase todos e foi trabalho ajuntar gente de Banza a Banza para levarem as coisas dos Padres, e as da Igreja, e as do negócio, porque eu tinha gente que tinha vindo comigo, desde o Congo, pelo que me era muito trabalho enviar primeiro tudo, como mais veterano, e ir atrás de todos, os mais das vezes pelo rigor do Sol, e só com dois carregadores, indo o mais do caminho a pé, por poder mandar com mais comodidade os novos Padres.

Assim passámos a Banza de Muala, Banza Ancongo até o Bumbe, além dos trabalhos do nosso ministério. Nesta Banza do Bumbe, principiaram a adoecer os Padres novos, e o Tenente e dois dos soldados; e ainda dali passámos ao porto de Loge, cuidan/ p. 243 / do que a doença seria leve: eu fui o último que ali cheguei e encontrei os doentes piores.

O Padre Fr. José de Torres, que tinha chegado primeiro prostrado em uma cama; o Tenente da mesma sorte, alguns brancos estirados pelo chão, porque não havia acomodação para todos: ali estivemos alguns dias, sem remédio; o Senhor daquele Porto nos visitou e nos prometeu gente para nos conduzir para diante, mas depois de beber muito bem de aguardente, que nos pediu por paga, ou cortesia, a sua mesma gente, que ajudava a passar o Rio, levando as cargas para o Rio, as voltavam para o mato, e as roubavam. Eu era só neste tempo: corria ao Rio a acudir ao extermínio, nas minhas costas faziam outros roubos, e, aflito, não sabia o que fizesse, via a fazenda alheia roubada, e eu metido entre pretos agrestes, e ladrões; por outra parte, o dono da fazenda, os Padres e mais brancos a morrer, que paciência me era precisa! Que golpes! Que aflições, sem carregadores nem esperança de os ter: eu para mim tinha a minha gente, mas / p. 244 / havia de desamparar os mais? Dizia: aqui morremos todos, tudo aqui ficará: o que mais me afligia era um Padre moribundo, Fr. José do Sacramento: entre tantas aflições, tive o acordo de mandar um próprio ao Senhor General dizendo-lhe o estado, em que estávamos e pedindo-lhe socorro de gente, ou que nos voltasse para Luanda, ou que nos levasse para o Congo, para onde ainda era maior dificuldade, porque passado o Loge, para diante, havia um sertão de dois ou três dias, por onde ninguém havia de nos querer levar: escrevi outra carta para Bamba para um Capitão da Igreja nos vir ali buscar; e entretanto a doença do Padre Sacramento se aumentava, cuidei em lhe administrar os Sacramentos vigiando-o só toda a noite, e nos meus braços, no dia 13 de Agosto, deu a alma a Deus. Que aflição! Ainda Deus Nosso Senhor me tinha guardado para estes duplicados golpes: da primeira vinda para este Reino, já tenho referido os trabalhos, mortes e doenças que padecemos, nesta segunda vinda o mesmo, a mais e mais cedo: o Tenente / p. 245 / nesse dia, estava tão mortal que de nada soube; e o Padre companheiro que restava, quase nos mesmos termos: os mais brancos, estirados, só eu doente da alma e ferido o coração, pude enterrar ali mesmo o defunto Padre, e apenas o companheiro bem prostrado arrimado a dois pretos me acompanhou; eu ainda lhe disse a missa do corpo presente, e ofício que mais foi chorado, que entoado; e naquela Banza do Porto de Loge, ficou enterrado com sinal, e espera a Ressurreição Geral.

Neste mesmo dia, como já tinham passado algumas cargas para a outra parte do Rio, aonde tinha mandado fazer numa barraca de palha, por ficarmos mais desembaraçados, ainda que no campo, e não metidos entre ladrões, fiz passar os doentes e eu depois, e nos acampámos e recolhemos na cabana, em cujo arraial encontrei moribundo um soldado, que havia passado primeiro para guardar as cargas do seu oficial, e apenas o pude ungir, e ali mesmo morreu: e um Ilhéu, e os mais brancos doentes, mas o Padre Fr. José de Torres se ia restituindo: o Tenente sempre com sintomas / p. 246 / de morrer, assistindo-lhe de noite, e de dia, e lhe administrei os Sacramentos, mas ainda o Senhor lhe concedia a vida: aí estivemos, como se pode julgar, em descampado, com muitas faltas do necessário, e até a minha gente do Congo ia adoecendo, e cada dia me rogava que nos fôssemos dali. Os poucos Ambundos, que tinham ficado, cada dia queriam fugir, pedindo sempre de comer, e disto às vezes nem vendido havia, e muito menos dado: vejam os meus Irmãos que seria de mim entre tantos conflitos, eu que nunca saí da minha Pátria, e bem criança vim para a Santa Província, e agora entre tanto tumultos; mas o Senhor me dava fortaleza, não desmaiava com isto, e ainda que não deixei de ter alguma moléstia, contudo podia, e não podia atribuir a outra coisa a minha fortaleza, se não à Providência de Deus, e sua bondade, o que os mesmos da comitiva conheciam.

Nestes tempos, chegaram ali uns Infantes de Bamba, com alguma gente para nos levarem, e nos diziam que o Capitão da Igreja a quem tinha escrito, estava no caminho esperando-/ p. 247 / nos; pelo que mandei para diante algumas cargas, para que o Capitão da Igreja as levasse para sua casa, e eu ficava com as do Tenente, porque não sabia o que sucederia. Tornou o dito a chamar-me, que nos tirássemos daquele lugar, porque era mau sítio, e má gente, não nos fizesse algum mal, pelo que foi preciso ajuntar daquela mesma gente, e pagar-lhe bem para levarem as cargas até ao meio do caminho, e levantarmos todos com os doentes, para ir procurar Banza maior, e mais segura, o que fizemos com doze dias de jornada, sempre pagando-se aos carregadores, e ainda ao mesmo Capitão, que estava no caminho, porque esta gente do Congo não faz alguma coisa sem paga, e não tem outra devoção; e se a têm, também o Padre há-de pagar. Chegámos à Banza do dito Capitão a 24 de Agosto, tendo estado no mato alguns nove dias fora dos que estivemos da outra parte do Rio Loge; e nesta Banza com mais comodidade, e segurança ficámos esperando o socorro que mandei pedir ao Ex.mo Senhor General, que esperávamos certamente pela piedade que tínhamos experimentado naquele Senhor.

/ p. 248 / Com efeito, no dia 28 de mesmo mês, chegou ali um Capitão Cabo do Libongo, chamado António João, que era o mesmo condutor que tinha vindo connosco na primeira vez, que viemos para este Reino, e trazia cento e tantos homens com alguns socorros para continuarmos a nossa jornada, e ao Militar, o Tenente Vicente José Ferreira lhe permitia licença para voltar a Luanda, vista a sua doença; mas o mesmo, com o desejo de agradar ao Ex.mo Senhor e cumprir o que ele lhe mandava, ainda que pouco bom, mas com alguma pouca melhora, se determinava ir até ao Congo, o que fizemos todos com mais comodidade, posto que ainda houve alguns furtos, e ainda foi preciso ir pagando a alguns carregadores, até ao Congo, porque as cargas eram muitas, tanto dos Padres, como dele Tenente, e outras pesadas, porque vinham algumas Imagens e Sino, além de ferragens.

Dali passámos a Quinla, Luzaire, Gome, Tinda, Bumba, com mais aceleração, e sempre ocupado em o nosso ministério, e não faltaram trabalhos por outra parte, porque não faltavam novidades, pelo caminho, de que havia ladrões, que nos queriam roubar, pelo que alguns Infantes amigos nos acompanharam, com a sua / p. 249 / gente: era preciso ter um coração grande para ouvir tantas novidades de emboscadas, que atemorizavam os pretos, que nos levavam, e alguma vez me foi preciso pôr-me diante de todos, para os animar com mais armas de defesa, que o meu Santo Cristo: fui também chamado de algum Infante, que, por ficar fora do caminho, foi preciso mandar a gente toda adiante, ou ir com a minha satisfazer aquele Infante por alguns serviços de Deus, que tinha na sua Banza, e logo me vim ajuntar com a comitiva em a Banza de Quingoque, daqui passámos a Quimaende e dali ao Rio Mbrize, o qual passámos depois de estar na Banza do Senhor daquele Porto, já nosso amigo. Na passagem do Rio, o maior trabalho foi meu, aturando o Sol um dia inteiro, por fazer passar tudo primeiro, por saber que nestas passagens, há seus furtos pelos Barqueiros; e só sobre a noite fechada me foi possível ir-me ajuntar com os companheiros na Banza Dutila e dali passámos a Mateca, e ali se vieram encontrar uns escravos da Igreja, que mandava o Padre Dr. André, que havia ficado na Corte, por carta que lhe tinha escrito de Bamba, e ao Rei, de que eu ia no caminho. Desta Banza passámos à do Quilala, chamada também Bumba; dali a Cozo, uma jornada antes da Corte; / p. 250 / e logo no dia seguinte empreendemos chegar a ela, e dar fim a tão penosa jornada.

Chegando ao Rio Loge, que corre abaixo do monte da Corte do Congo, e esperando a comitiva por todos, principalmente por mim, que sempre vinha atrás, assim por mandar tudo adiante, como por ficar de ordinário ocupado atrás com  baptismos, confissões, e casamentos, que havia, encontrámos no porto daquele Rio um Príncipe do Congo, mandado pelo Rei para nos receber, principalmente o Embaixador, que vinha de Luanda, que assim tratavam o Tenente já mencionado, que já vinha melhor. Ali lhe fizeram os primeiros cumprimentos da parte do Rei, com muitos sagamentos, e salvas de espingardas; porque diziam eles que não tinham peças de artilharia, mas tinham muitas espingardas, e pólvora para salvarem o Embaixador de Portugal. Ali mesmo nos veio receber o nosso Companheiro, o Padre Dr. André, e todos os Mestres, e Fidalgos do Congo, todos com grandes alvoroços de alegria, e clamores que cada vez crescia mais o concurso até à Corte, que será quase uma légua desde o Rio. O Embaixador, que vinha connosco, e tinha ido do Congo, a chamar, e contar aos seus nacionais o bem, e a honra que lhe haviam feito, à sua comitiva, e à minha, saltava de alegria por se ver na sua terra; / p. 251 / a mim me chegavam as lágrimas aos olhos por ver tudo isto, e a sua devoção, e mitigavam de alguma sorte os trabalhos passados, cercando-me todos, homens e mulheres, e meninos, saltando de alegria por tornar outra vez, pois me tinham por morto, e outros que, ainda que vivo, não tornava.

Com todo este acompanhamento, alvoroço, salvas, gritarias de gosto segundo o costume dos pretos, entrámos em esta Corte no dia 21 de Setembro do mesmo ano acima, e logo nos encaminhámos todos à Sé a dar graças a Deus, aonde cresceu o concurso, e se cantaram alguns louvores de Deus, e de Sua SS.ma Mãe, e ali se ajuntou o Mordomo Mor do Rei com os Conselheiros, que nos vinham a receber da parte do Rei, e o mesmo nos mandou logo de novo visitar em nossa casa por outros seus Fidalgos: o Tenente com toda a sua comitiva, se hospedou connosco, até lhe mandarmos fazer casas fora do muro, mais aptas para o seu negócio, o que logo principiou com agrado, e beneplácito do Rei, mas não muito à satisfação e esperança dos brancos, pelo que hoje se tem acabado, como direi adiante.

Todos os que chegámos de Luanda principiámos logo a adoecer bem gravemente, e eu que todo o caminho tinha passado bem, por grande providência / p. 252 / e misericórdia de Deus, porque, se adoecesse como os mais, seria maior o desarranjo, tanto que cheguei, logo principiei  a sentir os efeitos de tais viagens, trabalhos e calores que havia passado no caminho, afligindo-me por três meses uma terrível diarreia de sangue, que me pôs em perigo de vida, pois aqui é doença perigosa; aos mais sucedeu o mesmo, principalmente o Padre companheiro e todos os brancos sempre padeceram; e parece que esta terra é só para os nacionais; e os Padres por misericórdia do Senhor, vamos passando, e nunca falta que padecer.

Eu, depois daquela moléstia, apenas tenho deixado quase sempre de padecer; e assim mesmo em o Fevereiro seguinte, fui ao sítio ou Província de Mapinda para fazer missão, e juntamente procurar conduzir alguma madeira, que já estava cortada, para se continuar a fábrica da Igreja; e ali me mandou rogar um grande Infante da província de Quende,  para ir às suas terras fazer missão, porque havia muita necessidade, e em muitos anos não tinha ali ido algum Padre, e só um Preto que se fingia sacerdote os havia enganado, administrando-lhe os Sacramentos fingidamente. Fui, e ainda que sabia que eram terras de Infantes de outra parcialidade e de que os Mestres do Congo tinham medo de / p. 253 / ir, pelo que um, que ia comigo me deixou, mas eu que me não embaraço com isso, fui ainda que com trabalho pelos muitos montes, que tinha que passar; parece-me que fiz alguns serviços a Deus, só em três Banzas aonde estive, administrando a  muitos o Matrimónio, e os mais Sacramentos, catequizando, etc. , e ainda que para mais longe me chamavam, por ser perto da Semana Santa, e me achar doente, me recolhi por outro caminho para a Corte, e por outras Banzas, por onde passei, não faltou que fazer em o Santo Ministério.

Em a Semana Santa se ajuntou também na Corte o nosso companheiro Padre Dr. André, vindo da sua missão e celebrámos os mistérios daquele tempo do modo possível, e descansámos os meses de Abril e Maio, que são de muitas chuvas, e no caminho em Junho tornou o Padre André para fora, por outro serviço da Igreja, e por acudir a algumas cargas que vinham de Luanda para os brancos, de negócio, que lhas queriam roubar, não porque nós tivéssemos alguma parte, mas porque assim o pedia a Caridade e estavam debaixo da nossa protecção e devíamos acudir pelos nossos: e chegaram, ainda que muito diminuídas pelos ladrões em Bamba; pelo que o Tenente Vicente José se desgostou, e por ver junta/ p. 254 / mente se não podia continuar o negócio a que tinha vindo experimentar, e para o que trazia grandes recomendações para o Rei, para o que lhe falou muitas vezes, mas sem efeito no que pretendia, que era não admitir o negócio da fazendas estrangeiras, porque estas lhas davam em mais conta, ainda que o negócio não recusava, mas era muito diminuto a respeito daquele, e nós mesmos vimos frustrados os nossos intentos, que eram ver se podíamos atalhar aquela venda dos Cristãos para os hereges, porque, visto eles se venderem uns aos outros, fossem ao menos os escravos para terras de Católicos, já que não podíamos de todo atalhar, e em secundário seria algum bem ao Estado, e se poderiam continuar estas Missões, e serem os Padres mais bem assistidos pela maior comunicação entre as duas potências, e franqueza dos caminhos, mas tudo tem sucedido pelo contrário, e a iníqua venda para os hereges persiste, e o negócio dos brancos acabou. Deus parece que permite pelos pecados do povo este mal que até aos mesmo Mexicongos é gravoso: estão vendo ir os seus filhos para os hereges; os mesmos que vão vendidos para eles choram, gritam, temem, queriam antes ir para os Católicos, e o mal não se remedeia, cada vez cresce mais; os Padres clamam, não são ouvidos, nunca lhe dissemos / p. 255 / que os vendessem aos nossos ainda quando aqui estavam, para eles não cuidarem, que era amor da Nação, e não das suas almas, mas hoje se desenganam; que não há negócio dos Portugueses, e nós não cessamos de clamar, como direi adiante.

Por estes motivos, o Tenente Embaixador ao Rei do Congo, sem concluir o que desejava, se retirou, ficando outros brancos em seu lugar até acabar algum pouco, que ficava; e o P.e Dr. o foi acompanhar até Bamba pelo livrar de algum insulto;  e eu no mesmo tempo parti para a missão para as partes do Quitando, para onde não iam Padres havia muitos anos, e era do contrário partido do Rei. Passei por Gando, Comma e outras terras  sempre ocupado no meu ministério; e na Banza de Quitando me demorei por quinze dias, ensinando, baptizando, etc. a muitos que vinham de outras terras, sempre ocupado; e dali passámos segunda vez para o Monte Quibango, e no caminho fiz o mesmo, e naquela Banza me detive, seria o mesmo tempo, enquanto fazia os serviços que havia, porque era já missão antiga para mim. Fui a outra chamada Fuengue, que fica naquelas montanhas,  a ensinar aquelas gentes, sem falar em as que ficavam / p. 256 / no caminho todo agreste, e parte do qual já havia corrido em outro tempo, e agora os tornava a visitar e a administrar-lhe os Sacramentos: e em todos estes caminhos, e Banzas, ir e vir, e demoras necessárias, gastei mais de três meses, e perto de quatro, sempre ocupado no santo ministério e estabelecer aquela Cristandade, e não por correr muitas terras, mas para excitá-los a viver bem, ensinando-lhe a doutrina, e pregando-lhe, etc., e Deus sabe se se faz fruto, mas da nossa parte conhecemos que é utilíssimo o Padre correr aquelas terras, que, se o não fizesse, entraria de todo o Reino do pecado, como eles mesmos confessam, e muitos são do lodo dos seus vícios, ainda que muitos não receberam a Santa doutrina; mas a diligência se lhe faz e a devoção dos Povos consola, e ver correr às chusmas ao baptismo , à confissão, à pregação, à missa, doutrina, e outros exercícios de piedade, que se fazem nas missões. Ainda que eu seja indigno Ministro, a palavra de Deus é forte, e atractiva dos corações, com que lhe tiro muitos dos seus abusos, superstições, e outras invenções diabólicas; declamo contra os seus costumes, que por experiência já sei em que pecam, enfim, vamos plantando e rogando, de Deus só é que esperamos o aumento e na verdade mais me consola o tempo / p. 257 / da missão, do que o estar de descanso na Corte, aonde mesmo se exercita o mesmo, e se declama fortemente contra os vícios, sem temor, já rogando, já admoestando, arguindo, etc.

Pelas vésperas do N. P. S. Francisco me recolhi, e o P.e Dr. pouco depois veio da sua jornada, e passámos o tempo das chuvas em casa, que são as primeiras em Novembro e Dezembro, e ainda neste tempo saí outra vez, pela ocasião de me chamar um Infante daqui três jornadas, para o confessar na sua enfermidade, de que ao depois morreu, e na ida e vinda gastei doze dias, e aproveitei a outros no caminho; e quase sempre a minha saúde pouco boa, mas umas moléstias que levo de ordinário, de pé.

Por estes mesmos tempos, se moveram outros trabalhos do nosso ministério e exercício da nossa paciência, porque, não cessando jamais de clamar, além de outras  repreensões, contra os vícios reinantes, sobre a iníqua venda de Cristãos para os hereges, assim pelo nosso zelo, como também instigados e movidos de muitos mandamentos do Ex.mo Sr. Bispo sobre isto, cujas cartas cheias de tanta erudição, piedade e pastoral cuidado, e ainda de ameaças contra o iníquo negócio, e sobre outros pontos concernentes à Religião / p. 258 / bem fundada, e permanente desta Cristandade, em que me parecia um Paulo escrevendo às Igrejas, ensinando-nos o verdadeiro pasto, com que devíamos nutrir estas ovelhas do seu vasto rebanho, a que não podíamos resistir, e nos dava novas forças contra os abusos: eu continuamente trabalhava, já falando ao Rei, sobre o que ele podia impedir, já pregando na Igreja, e até escrevendo a uns Príncipes, que ficavam para as partes do caminho donde saía aquele negócio, que repreendíamos; e não só isto, declamando contra outros vícios como mancebias, etc., até lhe negar os Sacramentos, que eles, ou por isto, ou pelos seus costumes, diziam que o Padre de S. Francisco não era bom para Vigário Geral, porque era apertado; suponho queriam que eu conviesse com os seus vícios; e ainda que me sofriam, não queriam confessar-me ou reconhecer-me Vigário Geral por uma segunda Provisão, que tinha deste  Ex.mo Senhor Bispo, D. Fr. Alexandre, além da primeira, que tinha do Ex.mo Sr. D. Fr. Luis; e, na resposta daquela carta, que disse tinha escrito aos Príncipes, acima ditos, me diziam que não podiam impedir aquele negócio;  e sem eu falar em tal na carta, que lhe escrevi, acrescentavam na resposta, que se eu queria ser seu Vigário Geral, tirasse o hábi/ p. 259 / to de S. Francisco, e vestisse o de S. Pedro, etc. Quanto a não me terem por Vigário Geral, ainda que era só de boca, que no mais recorriam a mim, no que pertencia àquele cargo, disto não se me dava, antes o agradecia, pois sabe o Senhor quantas vezes o tenho recusado;  mas o dizerem-me que tirasse o hábito de N.P. S. Francisco me escandalizou tanto, pela estimação com que o trago sempre vestido, ainda que indigno dele, e o mais vil filho, que logo me quis retirar desta Corte, e ir viver daqui oito ou dez léguas, em um Hospício, que era dos Padres Barbadinhos Italianos; mas o Rei, tanto que o soube, veio logo a nossa casa com todos os seus Conselheiros, e grande e inumerável Povo e os mesmos dois Príncipes que tinham escrito a carta com muitas rogativas e humildade, rogando-me que não os deixasse, e dando-me satisfações, etc.  a que eu respondi sem fazer mais caso de nada, que me sentia de me mandarem despir o meu santo hábito, ao mesmo tempo beijando-o  como quem o estimava sobre tudo, e que não queria outra satisfação que lançarem fora o iníquo negócio de se venderem os Cristãos aos hereges, e que eles cuidassem em observar a lei de Deus. Tudo prometeram satisfazer; mas debalde, e pouco tempo depois, o Rei / p. 260 / que [é] Dom Afonso quinto, e o segundo que temos conhecido, irmão de D. José I, que achámos, morreu de repente, sem dar resposta do que havia prometido.

Pela morte deste Rei Dom Afonso, cresceram os trabalhos, porque a sua parenteira que correu logo das suas terras, além de afligirem os moradores da Corte, e roubarem com grande ira, queimarem todos os muros e casas do Rei, depois de o enterrarem, até a nós nos afligirem,  até quererem queimar as casas dos escravos da Igreja, e roubarem-nos e dizerem que haviam de levar os Padres para as suas terras, porque eram seus, porque os Reis seus parentes nos tinham mandado chamar, dando muitas dádivas; mentiras deles, e por bons modos éramos comprados seus escravos; mas os Infantes destas partes nos têm mandado dar satisfação, e pediram perdão; porque aquelas palavras, que ouvíamos, eles não as disseram, mas alguns moços doidos, etc.

Pelos mesmos tempos, nos vinha de Luanda o provimento, e em Bamba nos roubaram tudo, até as hóstias, cera e vinho para as Missas, e o mais é até uma Imagem de Nosso Senhor na pa/ p. 261 / ciência muito grande, que havia mandado pedir para a Igreja; mas a Santa Imagem, o Rei que ainda estava vivo a mandou buscar, o mais lá ficou. Na mesma Bamba, logo depois,  também se roubou ainda alguma coisa, que não era pouco, que vinha para o negócio dos brancos, que disse haviam ficado, e chegaram aqui trinta homens, que vinham carregados, e um só ou dois lhe tinha ficado a carga, as dos mais lá ficou, e por estes continuados roubos dos caminhos, e pelos motivos acima, se acabou o negócio,  porque os brancos que haviam ficado  com a mesma gente se determinaram logo a retirar-se de todo, e levar o resto, que havia, acabadas as esperanças de todo, de se continuar o negócio de Luanda; mas aqui era a maior dificuldade, de como haviam de voltar em tempos tão calamitosos, que era o mesmo da morte do Rei, e não podiam ir sós, e o caminho era pelas terras dos parentes do defunto Rei, que estavam irados, e como loucos, até atribuíram aos pobres Ambundos a causa da morte do Rei, e lhes pediam por isto pagas, e os ameaçavam, e brancos na passagem; porque esta gente sempre / p. 262 / atribuem as mortes, principalmente dos grandes, aos feiticeiros, que os matam e em cada morte destes há muitos distúrbios, e mortes de outros, mocanos ou crimes, etc., de que às vezes perdem famílias inteiras, uns matando, outros vendendo; e por mais que se lhe grite contra isto, ninguém os tira da sua maldade.

No meio destas desordens, nós estávamos pensativos, ficarem, não tinham negócio, e alguns escravos que tinham comprado, e poucas fazendas que restavam, tudo corria perigo nas revoluções, e nova eleição de Rei, para o que já havia quatro pretendentes; tomar o caminho de Micondo e de Bamba era perigoso, porque estavam os parentes do defunto Rei e em Bamba muitos ladrões; não podiam ir sem algum Padre; o Dr. André já tinha tido em outro ano o trabalho de acompanhar o Tenente; o P.e Fr. José era novato, e não se podia entender com esta gente, veio a cair sobre mim o trabalho da jornada; mas por onde? Pelo caminho antigo, tinha as dificuldades ditas, assim foi preci/ p. 263 / so sair logo e tomar outro caminho novo por partes donde eu tinha alguns amigos, que podiam encaminhar-nos, e esta é outra viagem, e trabalho, que eu também converti em missão, que vou a referir.

No dia 3 de Janeiro de 1787, saí desta Corte de S. Salvador pelo caminho de Quende até ir buscar a Bamba baixa, chamada Libota, que outra parte de Bamba para a parte do mar, por onde ainda não tínhamos viajado, terras do outro partido, que estes chamam de inimigos, por onde havia muito tempo não passava algum Padre, circunstâncias todas de temor para muitos, não para mim, que confiava em Deus, que olharia à minha caridade que tinha para o próximo, para os defender corporalmente aos que guiava, e acudir no espiritual àquelas almas desamparadas; porque os brancos sós não poderiam viajar por estas terras de pretos, sem um grande perigo, que o Padre os poderia guardar pelo respeito, que nos têm, e Deus mesmo assim o permitiria para acudir àqueles Cristãos, como fiz / p. 264 / ainda que ao princípio, e ainda até o fim, com muitos trabalhos.

Passei a Banza Lafuege que ainda pertence a este partido do Congo; e passando o Rio Luanda, fui a Quende, onde morava o Infante, que havia de guiar-nos no caminho novo, e aqui principiei a sentir grave moléstia, que logo me principiou ao sair da Corte, e me detive naquela Banza oito dias, fazendo alguns remédios; e dali escrevi ao companheiro Padre André, que fosse para acompanhar os brancos para me eu tornar para casa por causa da doença, mas os do Congo me escreveram, que me tornasse eu com toda a gente: novas dificuldades, de que se seguiam muitos detrimentos aos brancos, e toda a sua comitiva, o que eu não ignorava em tais tempos; nem eles o queriam, nem ir para diante sós podiam; os mesmos escravos da Igreja, que me acompanhavam por medo de algum insulto, que receavam, e já ouviam algumas notícias da qualidade da gente daquele novo caminho, me fugiram, e ficaram poucos, o que tudo me afligia; e até o mesmo Infante, que nos havia de guiar, depois de receber a sua paga, não se lhe dava que me tornasse; mas eu, confiado em Deus, e por motivo da caridade dos brancos, e mais dos escravos, que levavam comprados, que já iam morrendo, pelo motivo de alguns terem estado em cadeias cinco, e seis meses, e de novo torná-los para o Congo seria último estrago, a não se roubar tudo aos brancos nas revoluções que lá haviam pela nova eleição do Rei; parti dali seguindo a minha derrota ainda que pouco são e valendo-me dos Ambundos que iam, por falta da minha gente fugitiva e com uma jornada de um dia inteiro, sobre a noite, chegámos à primeira Banza do novo caminho: ali bom recebimento da parte do Infante, e Senhor dela, ainda que por outra parte novos receios, mas não havia remédio se não continuar a jornada; e o mais era ter que passar um sertão despovoado de gente, e só de feras, que mediava até o Rio Mbrize; caminhámos até sobre a tarde, e nos acampámos no meio daquele sertão, mas a comitiva grande que ia, e o mais os / p. 266 / louvores que fazia cantar de Maria Santíssima fazia mais suave o horror da noite, no meio das feras. No dia seguinte, ainda não pudemos chegar a Povoado, e ficámos no mato. No terceiro dia, chegámos a passar o Rio Mbrize em uma jangada, que eu receei ao principio, porque o Rio ali é larguíssimo, mas que remédio, se não havia outro recurso; da parte de cá fica a primeira Banza da Bamba baixa, e gente desconhecida para mim, e todos de que se receava, mas Cristãos, ainda que havia muito tempo não viam algum Padre, e só um preto malvado que havia vindo da escravidão de Portugal, por ali se havia introduzido, enganando aquela gente, fingindo-se sacerdote, e lhe administrava fingidos sacramentos. O Senhor daquela Banza, tanto que teve notícia que eu estava no Rio, logo mandou a sua gente para me levarem para sua casa, com todo o amor, e dando favor aos brancos com a sua gente, e chegando eu logo, principiei a experimentar bom agasalho, e a toda a comitiva, e o mesmo daqui / p. 267 / por diante aos brancos com as suas fazendas, e escravos pelo respeito do Padre, que a não ir ali com eles, tudo lhe roubavam, se não fizesse mais alguma coisa, pois toda esta gente é ambiciosa do alheio; mas Deus, em quem esperava, lhe deu bom coração, ainda que não me faltou que padecer, como direi, principalmente indo sempre doente, e bem aflito de dor de ouvidos, de cursos e outros padecimentos, mas tudo levava de pé, porque não havia tempo de descansar, pelos muitos serviços do nosso ministério, e era preciso acudir a todos, e contentá-los por não fazerem mal aos brancos, e mais pelo bem das suas almas, administrando o baptismo, confissão e matrimónio, pregando, catequizando, etc., e era preciso , para que aquela gente conhecesse, que não era da nossa parte aquele negócio, que viam passar, mas só da nossa caridade amparar pela palavra de Deus, como eles diziam, os brancos, que lhe não seria fácil passarem pelas suas terras em salvo, se não fosse o Padre.

Nesta Banza do Porto de Mbrize, me mandou no seguinte dia / p. 268 / buscar outro Infante maior,  que se denominava Duque de Bamba, por recomendação, que tinha de um seu Irmão, que morava para as partes do Congo. Chegámos à sua Banza e fomos recebidos com amor, e ali me detive alguns dias por acudir a algumas necessidades das almas, e enquanto se refazia a gente, e se determinava a jornada, que o mesmo Duque havia de guiar; o que fizemos até outra Banza, onde experimentámos o mesmo agasalho, mas ali não faltou que padecer, além da minha doença, que cada vez se aumentava pelos muitos calores, que nestes tempos de Janeiro e Fevereiro costuma haver, e mais nestas terras mais próximas ao mar, como são as desta segunda Bamba; mas, estando na sobredita Banza, se atemorizaram os brancos e a minha gente, com a notícia que ali correu que o dito preto fingido Sacerdote, que morava por aquelas partes, queria sair ao caminho para roubar, matar, etc., para o que já tinha convidado alguns Infantes, oferecendo muitas dádivas para se ajuntarem com ele, com gente armada, o que me certificava o Infante da Banza aonde estava, e que ele também tinha sido convidado; mas que não havia que temer, que todos estavam já certos do seu fingimento, e que ele com a / p. 269 / sua gente me havia de acompanhar, e defender, o que fez, mas sempre queria que lhe desse a sua paga por esta fineza, e, que remédio, para salvar os pobres brancos, que eu da minha parte não se me dava, pois confiava em Deus, que atenderia à nossa inocência, e caridade, e olharia pela sua causa, pela qual só me expunha a tantos trabalhos.

Com efeito, saímos daquela Banza todos, acompanhados dos Infantes dela, e de toda a sua gente armada, e sem novidade passámos, e só encontrámos outra gente que vinha para nos acompanhar pela sobredita notícia; e ao caminho me mandou buscar outro Infante para ir à sua Banza, por alguns serviços de Deus, que tinha, e bastantes baptismos, e confissões, a que satisfiz, indo com toda a gente, e me demorei no seguinte com bastante trabalho do nosso Ministério. Dali passei à Banza chamada Quilolo, aonde fazia tenção de descansar, e mandar a gente para Luanda.

Nesta Banza fui bem recebido, e com bastante sustento para toda a gente continuar a sua jornada, que sentiriam mais não indo eu, porque na companhia do Padre há muita bênção de Deus, pelo mais sustento, e carinho, que para todos mostrava, prin/ p. 270 / cipalmente para os escravos dos brancos, por quem olhava com bastante compaixão, e os favorecia quanto podia, e aos Ambundos, que eram a gente da nossa jurisdição de Luanda, e tinha vindo com as cargas dos brancos, e agora tornavam também ocupados, além da minha gente, que havia [de] dali mandar a Luanda buscar o necessário, enquanto eu ali os esperava, por não ser já muito longe, ainda que, pouco menos de metade do caminho, e tendo gasto até ali desde o Congo, por causa das demoras todo o Janeiro, e no dia três de Fevereiro os enviei, e eu fiquei bastantemente ocupado no Santo Ministério, e sem tempo, nem ainda de cuidar da minha saúde, até que, depois de três dias, já bem necessitado, me fechei na pobre casa, ou cabana, em que me hospedaram, e tomei um vomitório, por me dizerem ser remédio para os cursos,  e com efeito fiquei algum tempo melhor, e apenas só pude estar recolhido um dia, porque no outro não houve remédio se não levantar para acudir a muitos que vinham de longe receber os Santos Sacramentos.

Dali por diante, por benefício do Senhor, principiei a sair, sentindo alívio; e depois de me demorar os dias necessários, saí daquela Banza para / p. 271 / ir a outras, donde me chamavam, no que não faltou trabalho, e amofinações, pois cada um queria que fosse à sua primeiro, alegando cada um que era dos Grandes e Maiores daquela terra, pelo que o Padre os havia de distinguir, mas eu sempre fui obrando com liberdade santa, o que me parecia, e ainda alguns não satisfiz, por não poder ser, e deferi para outro tempo, nem era possível correr muitas terras, sem o perigo de perder o proveito de todos: nas que corri, administrei inumeráveis baptismos, e confissões, matrimónios, e parece-me que, com o seu auxílio, fiz algum serviço a Deus, ainda que não me deixava de afligir, vendo alguns vícios reinantes naquelas terras, além dos comuns daquele Reino, que trabalhei bem por arrancar; mas que há-de ser no sono, ou ausência dos servos do grande Pai de Famílias, o inimigo dos homens teve tempo de misturar a sua cizânia, e bem se verifica a queixa do Evangelho: messis quidem multa operarii autem pauci, pois via que a falta de Padres, e Padres zelosos, é a causa de tal ruína, pois os Pais, e filhos, Príncipes, Fidalgos e todo o Povo tem grande apego à Cristandade, e havendo quem os ensinasse seriam outra coisa, mas passando vinte e quarenta anos sem haver quem lhe diga uma palavra de salvação, que se podia esperar? / p. 272 / Eu mesmo, que não sou daqueles Padres e ministros zeloso, que eu aqui desejava, se pudera, me faria em pedaços, e me multiplicaria, a benefício destas almas, redimidas com o mesmo sangue precioso de um Deus Homem, mas eu, homem pobre e miserável, sem espírito e já quebrado de forças, que hei-de fazer se não pedir ao Senhor da seara lhe mande operários. Diga-se o que se disser destes miseráveis pretos, que são maus, que são feiticeiros, que são concubinários, que são tudo, o certo é, porque não há quem lhes acuda. A sua vontade de serem Cristãos, a sua humildade aos Padres, o seu apego à Religião, etc. nos dão indício que podiam ser bons, mas falta quem queira padecer, arruinar a sua saúde, e morrer por eles. Basta, para se conhecer o seu desejo, vir um demónio ou homem malvado, só por se aproveitar do que lhe dão, fingir-se Sacerdote para o seguirem, vivendo o mesmo fingido desordenadamente metido em vícios, como aquele de quem falei acima, e outros mais, que também por estas terras andou e estes são os operários que tem tido, e os que têm posto as coisas em pior estado com os seus exemplos péssimos, com que matavam e não vivificavam o Cristianismo; e o mais é, que um, que ainda ali vive, não se pode apanhar, nem eles en/ p. 273 / tregá-lo por suas razões de se fazerem parentes, ainda que agora se desmaginaram do seu engano; e praza ao Senhor, que o meu ministério lhe fosse ali agradável, e não ache ainda nele muita gravidade.

Depois de missionar algumas Banzas, sempre bem ocupado; ensinando eu mesmo a doutrina Cristã, que já sei em a língua, fazendo outros exercícios do nosso Ministério, e dando um pequeno sopro em aquele fogo debaixo de montões de cinza, tendo-se chegado o tempo de poderem voltar de Luanda os nossos Moleques que haviam de trazer o necessário, por alguma notícia, que não faltava quem lhe quisesse apanhar o pouco que traziam, os vim esperar mais perto do Rio Loge, por cujo caminho não deixei de aproveitar a outros, e no dia 24 de Fevereiro se veio ajuntar a nossa gente que vinha de Luanda em a Banza aonde os esperava.

Mas, como quando os despachei, me achava bem doente, dando disto parte ao Ex.mo Senhor General, com o Ex.mo Senhor Bispo, estes Senhores compadecidos me mandaram ali gente do Libongo para me levarem para Luanda, no caso que a minha doença continuasse; além disso, tendo eu escrito ao Ex.mo Senhor Bispo o desgosto com que já vivia neste Reino, não só pelas minhas / p. 274 / moléstias, mas por me parecer não aproveitava nada, e que desejava recolher-me, mas por não me enganar a carne, e sangue, queria que Sua Ex.ª me mandasse por obediência, ou pela mesma que ficasse, pois não desejo obrar nada se não debaixo deste santo jugo, o Ex.mo Senhor como tão piedoso Prelado, não me negava o despacho da minha súplica, e como Pastor tão vigilante deste vasto rebanho, fazendo de mim súbdito um conceito mais do que eu mereço, me propunha grandes motivos de utilidade da minha assistência na guarda destas suas ovelhas, no caso de ter alguma saúde, e como Deus então mandava, encolhi os ombros, firmando-me não no que me louvava, mas no báculo da obediência, e me pareceu tornar para o Congo, e dizer com aquele Santo Bispo Martinho, ainda bem inferior ao seu merecimento: Domine, si adhuc populo tuo sum necessarius, non recuso laborem fiat voluntas tua; ainda que sabia que vinha padecer, e que no mesmo caminho me não faltaria, sem gente, que me transportasse por sertões, e com muitas novidades más de roubos, o que também me obrigou para guardar a pobre gente com o pouco sustento para os companheiros, que lá haviam ficado, e guisamento para as Missas, o que tudo corria perigo principalmente / p. 275 / na ausência do Padre, além de outros trabalhos, que padeci neste meu regresso, como direi.

Tomando a resolução de voltar para a Corte do Congo, mandei a gente que me tinha vindo buscar, agradecendo àqueles Senhores a sua piedade, e eu lançando-me nos braços da Providência do grande Deus, voltei com resolução ao monte dos trabalhos, e voltando as costas ao descanso, que podia receber em casa do Ex.mo Senhor Bispo, que com tanto amor ma oferecia para me curar, e descansar.

Tornei pelo mesmo caminho, fazendo só uma pequena digressão, e não indo a outras partes, onde me chamavam, por estarem chegadas as chuvas, e o caminho comprido, vim outra vez até à Banza do sobredito Duque, que fica mais próxima ao Rio Mbrize, antes duas, ou três léguas, sendo até ali dar alguma coisa que tinha, a quem me levasse o necessário, porque a gente que me ficou era pouca; mas a maior dificuldade era nesta Banza, pois tinha que passar o Rio, e além dele um sertão de dois dias, e era dificultoso achar gente que me conduzisse; mas, sim, houve, pagando-se-lhe muito bem; porque esta gente, por mais devoção que mostre, querem que o Padre lhe dê tudo, principalmente vendo que tinha mandado a Luanda tudo quanto / p. 276 / vem para a nossa necessidade querem, como fez outro Infante, que era Senhor do Porto de Mbrize, quando agora ali cheguei e a sua gente, por paga de passar na terrível jangada, que eram três madeiros amarrados com cordas de mato, e ali se havia de vadear o Rio, molhando-se a gente e com perigo de submersão, e dos jacarés que andavam nadando pelo meio do Rio, mas passámos todos com o favor de Deus sem perigo, fazendo a gente de uma e outra parte a costumada devoção de cantarem a Ave Maria, enquanto o Padre passa, para que o Senhor o livre de perigo.

Já aqui, principiei a ouvir novidades de me quererem roubar em o caminho, e afligir a todos, porque diziam que um dos Infantes, que pretendia ser Rei e morava no caminho por onde havia de passar antes de chegar ao Congo, e tinha sido despedido dos eleitores sem lhe darem o Reino, enfadado dizia que se havia de vingar no Padre, e apanhar-lhe a gente,  e tudo o que levava, e a tanto como isto está sujeito um Missionário neste Reino; mas eu sempre cuidava que isto não seria assim, porque o tal Infante se dava por meu amigo, ainda que não duvidava de nada mau em esta gente, e muito mais a gente que levava, que mais os conhecem, mas confiado em Deus, seguia minha jornada, e tendo saído naquele / p. 277 / dia de manhã cedo da Banza  do tal Duque, e passado o Rio na distância dita, com as demoras da passagem, era já sobre a tarde quando partimos das margens do Rio, para ir pernoitar, não em povoado, porque só no terceiro dia podíamos encontrar, mas no mato entre as feras, que já neste tempo mais apareciam, por ser tempo de chuvas, tempo em que elas mais frequentam estes sertões, como eu mesmo as vi, andar pastando os Elefantes, mas destes e outras, não há susto, e só sim de Leões, que aqui os há, e de quem tinha ouvido em outro tempo, algum desastre; e ainda que não deixava de temer, confiava em Deus nos guardaria. Sobre a noite fechada e alguma coisa molhados, chegámos ao primeiro alojamento aonde havíamos de dormir, que não tinha outro abrigo, que ser um pequeno bosque, e aonde já tinha dormido, vindo para baixo. Cada um procurou o seu alojamento, e eu metido no meio dos pretos, sem mais cobertura que o céu,  e alguma pouca de palha em cima dos ramos das árvores; e o mais é sem haver que sustentar a pobre gente, e foi preciso ir comendo algum pouco de arroz e peixe que vinha de Luanda, por mais não haver, porque, como eu vinha de volta, não haviam baptismos, que trouxessem as suas frutas de esmola para sustento / p. 278 / da gente, porque, se não é por este fim, os pretos nada dão. Passámos a noite debaixo da protecção do Senhor, e eu vigiando quase toda a noite sem deixar de ter algum horror natural, mas a minha gente de nada se lhe dava, e dormiram a sono solto.

No seguinte dia, a bom andar, ainda não pudemos chegar ao povoado e ficámos no mato com os mesmos incómodos, e por alguma fadiga do caminho, que levava grande parte a pé por falta de gente, e pouco alinho do sertão, me sobreveio a minha doença antiga, com a qual, já muito aflito, continuámos no terceiro dia a jornada, e sobre a tarde pudemos chegar à próxima Banza desta parte do Congo, e tão esfaimados chegaram os pobres pretos, que me acompanhavam, que se pegavam às frutas do mato, e comiam nelas muito bem; e eu também, e foi o sustento que pude ter, que não houve quem me desse alguma coisa, sendo que tinha bem necessidade de comida de doente; apenas tive algum bocado de biscoito que vinha de Luanda, que me serviu de refeição, e mais da terra não havia, nem que a gente o pudesse trocar por qualquer coisa, que se lhe oferecia.

Isto não foi o mais; mas logo se principiaram as novidades, já ouvidas de roubos no caminho que se seguia, / p. 279 / com tanta certeza, que atemorizou a todos, e o afirmavam de certo os daquela Banza, e nos despersuadiam do caminho comum, e diziam ser preciso rodear por outros caminhos, e que era preciso sair logo, antes que chegasse a minha notícia ao sobredito Infante, porque então tomaria todos os caminhos, além de uma emboscada que no caminho direito me esperava, e até havia receio de vir espia na mesma comitiva.

Meu Deus, quanto custa isto à carne e sangue de um vosso Ministro, não por mim, só meus irmãos, porque eu mesmo iria entregar-me nas suas mãos, mas os pobres escravos da Igreja mais o temiam, porque apanhando-os, logo os vendiam, que era o que eles temiam, e por mais que os persuadisse a não temerem, quem os havia mover a tomar o caminho de ameaças; e foi preciso logo no dia seguinte muito cedo fazer jornada bem torcida.

Neste dia, que era o do meu Senhor S. José, disse Missa cedo, que até esta diziam que não dissesse, por não perder tempo, mas por tanto não estive, e quando eu queria, e tinha necessidade de descanso, neste dia, pela fadiga de um sertão antecedente, bem quebrantado me pus a caminho, sendo preciso buscar-se outra gente daquela Banza, para nos transportar e ensinar o caminho, e só pagando-se-lhe muito bem, porque a gente / p. 280 / que tinha vindo de Bamba ajustada até mais adiante, pelos sobreditos temores logo me deixaram.

Nós rodeámos bastantes léguas por caminhos pouco trilhados, montes, Rios, matos, e como fugitivos; a gente sempre receosa, e eu pouco são, andando muita parte a pé, tropeçando a cada passo, ferindo os pés, escorrendo sangue, gemendo, de sorte que os mesmos escravos se compadeciam, e me obrigavam a ir na rede, sem sustento, sofrendo o maior rigor do Sol, de todo um dia sem descanso por não ficar no mato, até ameaçados de uma grande trovoada; e até a mesma gente nova, que me vinha a conduzir, enfadados me queriam deixar no sertão, pedindo-me mais paga, se não que se retiravam, pondo as coisas no chão; rogar-lhe, pedir-lhe, acariciá-los, nada aproveita; prometer-lhe não aceitam, há-de dar-se-lhe, e já; dão-lhe os nossos escravos penhor da sua paga, não querem, dou-lhe eu o Santo Cristo em sinal, que os não podia enganar, há-de-se parar, deter-nos, abrir uma caixa fechada, tirar o que eles querem; e que remédio; e isto depois de já bem pagos na sua Banza com panos, e outras coisas, que vinham de Luanda.

Finalmente com todos estes trabalhos, chega-se à noite, é preciso pas/ p. 281 / sar um bosque espesso, por entre montes, talvez de meia légua, ou mais de comprido, cheios de paus atravessados no caminho; a noite fechada; e o pior caminho não dá lugar a ir na rede; a trovoada já eminente, os relâmpagos, e que mostram com uma luz terrível, e transeunte o caminho, cada um faz por fugir e chegar mais depressa ao povoado, eu fico quase só, as ânsias, e os gemidos, Deus os ouvia, a água que me molhava parece não era tanta, como a que suava, principalmente na subida de um monte, aonde acabava o bosque, cheio de convulsões, e gemendo sem poder conter-me, chego ao povoado. É quase preciso me levem pela mão a uma Igreja de palha, e rota aonde esperasse pelo Senhor daquela  Banza, e descansasse algum pouco; mas em todo este caminho o Senhor me deu paciência, e me consolava na minha fugida, lembrando-me do meu Santo e Senhor S. José, que também havia sofrido os trabalhos da fugida com os grandes personagens, que guiava, ainda levantava o coração a Deus, pedindo a sua misericórdia a favor daqueles que me causavam aqueles trabalhos. Mas este Infante, de que se falava querer fazer-me mal, quando eu me / p. 282 / recolhi para a Corte, sabendo o que eu tinha passado, pelas notícias que me deram dele, mandou um seu filho dar escusa, do que eu tinha ouvido, com muitos juramentos, etc.. Permita o Senhor que assim fosse, e que ele não fosse culpado na Sua presença, e fosse estratagema do demónio para me afligir, mas eu sempre espero em Deus a sua misericórdia, e lhe ofereço estas fadigas por meus pecados.

Nesta Banza fui bem recebido do Infante dela, e aquela noite ainda tive quem me desse algum sustento, que mais serviu para repartir com uns pretinhos pequenos da Igreja, que me acompanhavam, que eu mais necessitava de descanso, do que de comer, e disto nem por isso foi muita abundância em três dias que ali estive, porque os pretos são escassos em dar, e tudo querem que lhe dêem e eles nada dão, e se dão, é com a lembrança de que lhe hão-de dar mais de retorno, e ainda nas suas esmolas do baptismo, não têm boa vontade, se podem nos enganam, e sempre vêm pedir; e aqui nesta Banza, quase todos fiz de graça, e alguns matrimónios, que administrei, alegavam a sua pobreza: eu / p. 283 / pelos não deixar assim os favorecia, esperando em Deus me sustentaria, e a gente que ia comigo, e não morremos de fome, e bem lhe mostrámos que não somos ambiciosos do seu, mas das suas almas.

Desta Banza ainda trouxemos o caminho pelo receio sobredito, e viemos buscar o sítio de Mapinda, terras que eu já tinha viajado mais vezes, e os Infantes delas meus amigos, e de geração do novo Rei, aonde já não havia que temer, e só aqui é que os escravos da Igreja principiaram a respirar, e a cantar, porque antes vinham muito sisudos,  e medrosos: e atravessando todas aquelas terras, vim pernoitar numa Banza mais vizinha da Corte, a que no seguinte dia desejava chegar, já enfadado de tal jornada.

Enfim a 24 de Março, cheguei a esta Corte com toda a gente, e tudo em salvo, depois de tantos trabalhos, e só eu cheguei com a minha doença mais aumentada, e fui recebido de todos com alegria, porque estavam atemorizados também com algumas notícias más, que também aqui tinham corrido, e diziam que estavam prontos com o Rei para irem / p. 284 / pugnar pelo Padre; muito mais dos Padres companheiros, que tive gosto de os ver já descansados com a eleição do novo Rei; que era um Rei muito velho, e tanto que já se não pode ter em pé; e o fizeram os seus parentes eleger por força, ficando outros preteridos ao governo que desejavam; mas o Rei novo ao princípio, os parentes Infantes grandes lhe assistiam para pôr o Reino em sossego, mas agora já o têm deixado, e está o pobre velho só, e desconsolado, e não faltam desordens, que algumas ainda vêm pegar connosco, mas pela morte dele se prognosticam outras maiores; e a tudo estão sujeitos uns pobre Missionários; o que sofreríamos se ao menos víssemos fazíamos algum fruto, no que pretendemos sobre a observância da Lei de Deus, e da Igreja, e em pugnar por isto não têm faltado trabalhos, o que referirei, não para desanimar a alguém, e só para narrar. Não falo na minha moléstia do corpo, que sempre vou padecendo, porque não pesa tanto, como a da alma, mas dos trabalhos preciosos de um Missionário, que deseja zelar a honra / p. 285 / de Deus, pela qual padece, se assim se pode dizer; pois é próprio do nosso Ministério, que não se desanima, nem deve afrouxar a quem tiver espírito de vir experimentar outro tanto, e fazer ainda mais esforços, do que um miserável como eu..

Os meses de Abril e Maio, que não é tempo de missionar por fora, por causa das muitas chuvas, os empregámos nesta Corte em os exercícios da Quaresma e Semana Santa, quanto era possível, e pedia a Santidade daqueles dias, não deixando de fazer conhecer ao povo os mistérios da nossa Redenção, da Lei de Deus, e da Santa Igreja, apertando-o muito pelo ponto mencionado de lançar fora o iníquo negócio de se venderem os escravos cristãos para o gentio, para este os vender nas praias aos hereges, até fazer um Edital por ordem do Senhor Bispo, pregado nas portas da Igreja, com declaração de excomungados todos os que concorriam para esta iníqua venda; e apertando mais aos que tinham o negócio em seus quilombos; e / p. 286 / clamando contra outros vícios reinantes; porque suposta a minha saúde era pouca, quase sempre a levo de pé, e principalmente nos Domingos, e dias santos vou à Igreja além dos outros dias, naqueles apenas lhes falta o pasto da divina palavra, e ensino da doutrina, e outros exercícios.

Mas, vendo o pouco proveito e a minha pouca saúde, parecendo-me que nem para Deus, nem para mim mais prestava, me determinei pela faculdade que tinha do Senhor Bispo, aproveitar-me da ocasião de ir para Luanda, acompanhado do nosso companheiro Padre Dr. André, que, nos princípios de Junho ia acompanhar a gente, que havia de ir buscar o necessário; mas tanto que a gente da Corte conheceu a minha determinação, logo me quiseram impedir, vindo primeiro o Rei, trazido pelos seus Grandes, e muito povo a nossa casa rogar-nos pela demora, porque ele ainda não estava coroado e que a tudo se havia de dar remédio. Esperámos alguns dias, entretanto os maiores Marqueses, com o de Vunda, Ololo e Embo, que são os maiores que governam / p. 287 / o Reino como Conselheiros, Fidalgos e mais Povo, fizeram seu ajuntamento e Conselho, e assentaram não lhes ser conveniente deixar-me ir, e me vieram todos rogar com muita humildade, que não os deixasse, e que me reconheciam por seu Vigário Geral, e que governava bem a sua Igreja, etc., como eles lá imaginavam, e que relativamente ao que eu clamava, que, coroado o Rei, este junto comigo como Vigário, logo faziam por deitar fora o mau negócio, e no mais que os ensinasse como fazia, etc., para o que, além de me falarem, me escreveram uma carta com estas rogativas, em conhecimento do bem, que eles diziam, lhe fazia.

Nestes termos, que faria eu? O mesmo que tenho feito, sacrificar-me de novo ao bem das almas, ainda que por outra parte, depois de me segurarem das suas promessas, que todas eram para o seu bem, e eu nada pedia para mim, mas sempre na presença deles em nossa casa, aonde se ajuntaram, e na Igreja lhe propus, que eu ficava pelo bem das suas almas, mas debaixo de três condições, a primeira de deitarem fora o iníquo negócio das vendas dos escravos Cristãos aos hereges; a segunda, de se tirarem as mancebias, de que muito claudicam; e os que não fossem [casados], viessem tomar o Santo Matrimónio, ain/ p. 288 / da que me não dessem o que é costume de suas pequenas ofertas; terceira, que se havia [de] fazer rol de todo o Povo para por ele obrigá-los a confessarem-se anualmente e virem à missa todos os Domingos, e dias santos, no que são remissos; e fazendo-se assim, que não só ficaria, mas daria a vida pelas suas almas, se não, que tirava a minha culpa, que a todo o tempo que pudesse, sem lho dizer,  os desamparava, e todos os Padres; a tudo prometeram, mas debalde, ainda que mais vezes os tenho avisado, o que se dirá adiante.

Pela nova determinação de ficar ainda na Corte, coroei o Rei; e o Padre Dr. seguiu a sua jornada para Bamba para mandar a gente, e eu fiquei, e o companheiro P.e Fr. José de Torres; mas não em descuido, em fazer logo executar a primeira condição, no que não tem faltado trabalho e perigos, mas sempre clamando sem temor dos homens e só de Deus, que a alma, e corpo me pode meter no inferno.

Pelo que, tendo notícia  que os gentios negociantes dos escravos Cristãos, para os tornarem a vender aos hereges ainda estavam na Corte, e que o Rei, e mais conselheiros se descuidavam, falei mesmo ao Rei, e com força na presença de todos os que podiam impedir, / p. 289 / não só pela voz do Intérprete, mas com pedaços de língua do Congo, que posso falar; porque de todo a não podemos tomar, pela sua dificuldade, o que ele, e todos muito bem entendiam, e conheciam a razão, e não deixam de se convencer, mas a sua conveniência, ou mais a sua cegueira, e talvez,  que mesmo castigo de Deus, mais os cega, porque conhecem o extermínio do Povo, os roubos por esta causa; vêem ir os seus parentes, muitos inocentes, etc., e ficam muito sossegados, e aprovam o negócio pela ambição de receberem os seus baculamentos ou direitos, os que lhes pertencem, e os mais por andarem vestidos dos seus panos baratos; postos em ociosidade, sem fábrica, ou algum meio de passarem, e assim cada ano lhes saem muitos milhares, e os vêem ir e ficam muito calados, e o mais é com certa quase perdição de suas almas, o que eles não sentem, mas sentimos nós, e pelo que gritamos sempre, mas com pouco remédio.

Tornei pelo motivo dito a mandar avisar o Rei, dando o recado na Igreja depois da Missa, com grande fervor e que eu o não mandava, mas meu Senhor Jesus Cristo: foi o recado, e o Rei mandou ajuntar os seus Conselheiros sobre este ponto: e assentaram que os Padres tinham razão, e que logo mandava proibir o negócio pelos seus bandos, e deitar fora os negociantes; e esta foi a resposta / p. 290 / que me veio, que logo um dos Conselheiros, que a trouxe, vinha pedindo de alvíssaras alguma coisa pelo bom concerto, a que eu respondi, que agradecia muito em nome de Jesus Cristo; e que, quanto ao convite, sabendo eu de certo se finava de todo este tropeço, Deus me daria alguma coisa para dar em agradecimento, mas que antes queria ver o êxito das ordens do Rei.

No dia seguinte, fui confessar o Rei, o que antes não queria fazer sem determinar o que se lhe propunha, imaginando que se cumpriria, e o mais que manda Deus, no que não faltou que sofrer, por eu fazer o que devia, o que não refiro por ser vergonhoso para eles, ainda que eles o não sentem, ou por sua dureza, ou por sua rusticidade, nem de falar nisto se envergonham; mas eu sempre respondi com constância, sem temor; e sobre o ponto do negócio, agradeci ao Rei o bom conselho, e preguei sobre o ponto na sua presença, ainda que não deixei de advertir enfado em um dos seus Grandes, que estava presente, e me fez desconfiar, que nada fazia, e que levavam a mal outros meus procedimentos que devia ter, e não temia deles, e só de Deus.

Com efeito, vim para casa e daí a poucos dias soube que a Corte esta/ p. 291 / va cheia dos sobreditos negociantes; e que, no mesmo dia que fui ao Rei, tinham entrado quarenta ou mais Mobires carregados de fazendas para comprarem os escravos Cristãos, e que cada mês não saíam desta Corte menos de setenta destes pobres miseráveis; e muitos apanhados nos caminhos, sendo livres, sem culpa, os faziam escravos, e os mandavam para o seio da heresia a perderem-se, o que era lástima ver ir estes pobres gritando, e logo enviados sem darem tempo a os seus mesmos parentes os resgatarem.

Isto me causou tal pena, furor, mágoa e zelo que logo em uma sexta-feira,  22 de Julho, depois de consultar o caso com o Padre companheiro, Fr. José, porque era o que estava somente, e muito mais com Deus, depois de celebrar o Santo Sacrifício da missa; com intrépida resolução vesti a sobrepeliz, e estola, e peguei em uma imagem de um Santo Cristo grande, que me era preciso levá-la às costas, saí da Igreja sem esperar mais recados, eu mesmo acompanhado do dito Padre, e alguns Intérpretes, disse, que já [que] não queriam ouvir a mim, que lá levava Jesus Cristo, para o Senhor os convencer; correram os Mestres, e mais fiéis a impedir-me por temerem algum mal, e eu não os ouvi, só convi, que não iria ao Rei, como determinava primeiro, por saber que o Rei / p. 292 / é um tal velho, que nem levantar se pode, e que não poderia ser ouvido e seria debalde a determinação; e por saber, que o tal como velho não é ouvido: os de fora é que fazem o que querem, clame ou não o Rei, ou mande.

Pelo que me determinei  deixar o Rei, e ir ao Quilombo de um pequeno Infante, chamado por apelido Bua Lau, que na nossa língua é cachorro doido, o mais pertinaz e caixa universal dos Mobires, e como Infante menos obediente ao Rei, e aos Padres, já avisado e sabendo que com ele falava o Edital da Igreja, e era o principal objecto, a que se encaminhava o meu zelo: fui com a comitiva sobredita, ainda que fica o seu Quilombo alguma coisa distante da Sé, e me expunha a perigo, mas considerava que era o meio único pela novidade, de fazer algum proveito.

Entrei eu primeiro no seu Quilombo com o meu Santo Cristo, e tanto que o homem nos viu, como o demónio, assim se enfureceu saltando de roda de mim, escorvando a sua espingarda,  apontando não sei, gritando como louco, enchendo-nos de injúrias, ele com a sua gente, levantado contra os Mestres, que levavam o Padre para o matar, que nós éramos feiticeiros, que tínhamos matado os Reis, e olhando para mim / p. 293 / com muita raiva, me chamou seu feiticeiro, que no Congo é uma grande injúria, pelo que se perdem famílias inteiras. Nós lhe dizíamos que os Mestres não tinham culpa, e nem dava lugar a dizer-lhe uma só palavra; eu não fazia outra coisa que estar com o meu Santo Cristo muito constante, e sem medo; pasmado de ver o que via; e com a mesma cruz lhe escrevi no seu terreiro a excomunhão, e lho disse, e me vim com os mais, e nas nossas costas nos deram uma grande vaia, e algazarra, e dispararam muitos tiros; e nós vínhamos dando graças a Deus por sofrermos por seu nome tantas injúrias e nos encaminhámos a outro Quilombo onde havia outros Mobires, não sem temor, que nos sucedesse pior, mas o dono daquele Quilombo se veio lançar aos meus pés, que estava com o meu Santo Cristo, e dando a sua escusa, e prometendo a emenda, como o fez. Mas o outro ainda depois do que fez, vinha com sua gente determinado a roubar o nosso Hospício, mas no caminho o impediram, e nós nos recolhemos para a nossa casa, conformando-nos com as disposições do Senhor prontos e expostos para tudo.

Em todo o dia não apareceu alguém em nossa casa e só no dia seguinte vieram os Mestres, envergonhados do que sucedia na Corte, dizendo que era coisa nova, mas o Rei nem satisfação nos deu, / p. 294 / nem remédio, ou talvez o não soube por sua velhice; mas o que sabemos é que se mandou dar bando para cada um dos Quilombos ter Mobires, estes poderem vir quantos quiserem, tudo contrário ao nosso intento.

Se isto saía do Rei, não sabemos, mas se suspeita que um seu Irmão, que governa tudo, é o que faz tudo isto. Nós contudo, para mostrarmos o nosso sentimento, e para ver se por este meio aproveitávamos alguma coisa, fechámos a Igreja, cobrimos as Imagens, e só nos Domingos e dias Santos dizíamos Missa particularmente, mas nem isto os moveu; e só o Rei, depois de oito dias, sem fazer mais caso do que se passava, nos mandou pedir uma mortalha para um seu filho, a que nós respondemos que não tínhamos, e que estamos com sentimento dele não fazer caso das injúrias que nos fazia a sua gente, e muito mais da falta da execução das determinações da Igreja, e cumprimento mesmo da sua palavra; ao que ele respondeu que não nos atendia, porque também eu, quando o fui confessar, não fiz como ele queria, e era costume (ou mentira dele); mas eu tinha feito o que devia, como já disse, sem me explicar mais; e que estava pronto para dar a minha vida pelo que tenho de obrigação / p. 295 / em consciência; o que tudo lhe pus em carta, com toda a clareza, que se leu diante de todos, mas ainda não deram resposta: e nós vendo que nada aproveitava das nossas invectivas, parece que boas, tornámos a abrir a Igreja, vindo a Festa da Assunção de Nossa Senhora, e continuando sempre a clamar.

Este procedimento do Infante estranharam muito os Príncipes de Sonho criticando o novo Reinado, principalmente um dos Grandes, que pretendeu o Reino, no tempo da vacancia, nos mandou dar satisfação, e pedir-nos que não os desamparássemos por isso, nem deixássemos os serviços de Deus, pelo que sofríamos nestes tempos, e tivéssemos paciência: os Príncipes e Infantes de Quibango, parte principal e raiz deste Reino, quiseram, diziam eles, vir a esta Corte armados para tirarem os Padres, e levarem para as suas terras, estranhando muito o que se havia passado, que era coisa nova quererem matar os Padres; mas hoje tudo se tem composto: eu mesmo mandei logo oferecer o perdão ao agressor Infante, e que não queria dele mais satisfação que obedecer às leis da Igreja, lançando fora os Mobires, o que não ouviu por então, e nós sempre clamando contra o iníquo negócio, sem temor dos apaixonados poderosos.

Nos fins de Setembro me man/ p. 296 / daram rogar de Quibando quisesse eu ir àquele monte por ocasião da morte do maior Príncipe, e Senhor daquelas terras, que era meu afilhado, e o tinha casado, e ensinado, e diziam na Corte que me escreveram, que já que não tinha tido a consolação de morrer com os Sacramentos da Igreja pela distância, ao menos o Padre fosse benzer o seu corpo. A isto resisti ao princípio pela minha moléstia. Mas o Embaixador se demorou bastantes dias, junto com um grande Infante, que me rogavam sem cessar que foi preciso condescender pela consideração do merecimento daquela boa gente, e minha missão antiga, e amigos da Igreja, e dos Padres, e que podia por esta ocasião aproveitar a outros, como sucedeu em menos de quinze dias, indo e vindo, e estando, e ali administrei o Matrimónio a uma filha da Princesa do Monte, instruindo-a e ao marido, e trabalhando bem pelo devido estado isento dos costumes concubinários do Congo; e administrei mais Sacramentos, pois há ali pessoas de boa vida e Cristandade: ali mesmo me ofereceram lugar para fazer Hospício com grandes demonstrações de alegria, só de eu totalmente lhe não perder as esperanças, e com a comodidade de se fazer caminho breve pelo Presídio das Pedras de / p. 297 / Encoge, que pertence à nossa Soberana, mas já me não acho em termos de novas edificações e muito falto de forças para tudo.

Recolhi-me para a Corte continuando os nossos clamores; ainda que sei que os enfado, hei-de clamar sem cessar; e o sobredito Infante rebelde já pretendia à força o ser absolvido, sem fazer o que devia, ao que sempre intrépido resisto. Neste tempo, vieram três Infantes da outra parcialidade para o Rei lhe dar o hábito de Cristo, como eles cá cuidam, o Rei tinha grande empenho nisto, por serem da outra parte, a quem pelo receio queria agradar, e por se darem por seus parentes, mas como o Rei para dar o hábito há-de ser junto com o Padre, vestindo-o ambos, e dando-lhe a espada, que não tem mais nada, nós, vendo que por esta ocasião podíamos lançar fora o negócio, negámos sempre assistir a tal função, sem se lançarem fora primeiro os Mobires, e dar-se bando para não tornarem mais a este Reino, com as penas costumadas. Custou muito; os Infantes estiveram bastantes dias; as rogativas corriam, e nós sempre firmes. Com efeito, houve de obedecer o Rei, e mandar logo lançar fora todos, e dar o bando, pelo que eu, ainda / p. 298 / temendo o seu engano, não quis ir por ter feito juramento de tal hábito não dar, enquanto houvesse Mobires, e segurando-nos todos ser tudo verdade, o Padre Doutor foi; mas não faltaram suspeitas de que ficaram alguns escondidos, mas agora não há fama deles.

O sobredito Infante rebelde, por estes procedimentos, e por ver, que não fazíamos caso das suas ameaças, e pelo respeito de algumas temporais calamidades, que ia padecendo, que ele atribuía à pena de seu castigo, e culpa, se principiou a humilhar, e se valeu dos Mestres, ou Intérpretes, e me mandava alguma dádiva para lhe perdoar, e absolver, e admitir na Igreja. Eu não recebi a sua dádiva, respondendo-lhe que não queria dele mais que o seu arrependimento, e obediência às leis da Igreja, e que, sabendo de certo que as observava, logo  o recebia; fi-lo vir a rogar mais vezes, e que viesse clamar às portas da Igreja, para que todos conhecessem a sua emenda; ultimamente vindo, o mandei primeiro confessar para ali particularmente lhe dar os documentos, ainda que sabia, o que eu devia fazer; a tudo obedeceu; e constando ter executado o que se lhe mandava, / p. 299 / o mandei vir no Domingo seguinte à Igreja com todo o Povo, e foi absolvido publicamente com todas as cerimónias da Igreja, e humildade sua, de que eu dei graças a Deus, pois não pretendia outra coisa; e lhe fiz a ele conhecer o mal que fazia, e os mais sobre o ponto, e recebendo-o com amor, lhe tenho feito alguns favores; e ele e toda a sua gente muito alegre, e esta Corte. Permita o Senhor que persevere, ainda que nos não faltam receios da sua reincidência, e dos mais, que também se têm humilhado, e obedecido, por causa do seu interesse, e pouca firmeza nas suas palavras, e por mais temerem as penas da Igreja no temporal, do que no espiritual; mas da nossa parte, sempre se há-de clamar ou deixar de todo o Reino; ainda que eu sempre quero, que me mande quem pode, e por meu arbítrio não quero o desamparo destas almas, que sem dúvida se perde tudo, a não haver quem acuda pela causa de Deus, ainda que parece se perde o tempo, a saúde e a vida.

Quanto à minha, eu confesso, que a vejo quase acabada, pelas moléstias que padeço, e me é preciso valer-me de alguns poucos de alívios para escrever esta, por cumprir com a obediência, antes de morrer. Não me enfado com uma moléstia perigosa, vai / p. 300 / em três anos de contínua diarreia, e outras, eu me conformo com a vontade de meu Deus, a quem clamo com Santo Agostinho: hic ure, hic seca dum modo in aeternum parcas, este é todo o meu temor: perder ao meu Deus para sempre; mas tenho minha esperança na sua misericórdia. Sinto ver-me defraudado do meu desejo de derramar o meu sangue, e vida por quem por mim a deu; ou ir morrer no meio de meus Irmãos, como sempre desejei, mas consolo-me que um Boi, que morre debaixo do jugo do seu amo, lavrando a sua terra, tem seu louvor: eu quero morrer debaixo deste sagrado jugo, não espero louvor, se não misericórdia. Sou servo inútil, se fiz, fiz o que me manda o meu Senhor. Meus Irmãos, roguem por mim ao Senhor, pois talvez, quando esta for à sua mão, eu já tenha dado contas a Deus, e rogo-lhe, que quem tiver vocação, venha também à seara, ou a morrer, ou a viver, ou ao que Deus quiser. Vejam que eu, sendo o que sou, que nunca tive préstimo na Santa Província, vim e sempre o Senhor me tem ajudado mais do que eu lhe mereço, que fará um Religioso mais santo, e mais zeloso, em tudo mais digno do que eu pecador; nem se faça algum conceito do que vai escrito em todas as relações: isto é / p. 301 / dizer simplesmente, o que se tem passado. Se acaso há alguma coisa boa, é de Deus: todo o mal é meu, como de quem é tudo, tudo é miséria, como disse no princípio; mas a obediência sempre é meritória, e se há trabalhos, doenças, etc., são pelos meus pecados; Deis os aceite em satisfação, como espero da sua divina piedade, e misericórdia.

Esta relação se acabou até aqui ainda em o Reino do Congo em o mês de Dezembro de 1787, para se enviar no seguinte Janeiro; mas, faltando os portadores, ficou reservada até ao mês de Junho, tempo mais apto para jornadas, em que haveria alguns dos escravos da Igreja para a trazerem para Angola; pelo decurso dela, se verá o estado em que eu me achava, sem esperanças de vida; mas ainda para o adiante se aumentaram as moléstias, cheio de dores, e sem descanso de dia, e de noite, que a cada passo me parecia morrer, e até aos companheiros, em grande cuidado, mas ainda assim, quando podia, vinha à Igreja ensinar o Povo, principalmente na Quaresma, para receberem dignamente os Sacramentos, a que então eram obrigados, que eles não fogem de receber, mas sem disposição de vida, / p. 302 / ficando sempre nas suas ocasiões, e sobre isto debatia fortemente que andavam aturdidos, parecendo-lhe por uma parte que eu lhe falava a verdade, por outra lhe faltava o ânimo de deixarem as suas concubinas, que é o em que mais pecam, e sobre que eu mais clamava, negando os Sacramentos a todos os que sabia ter aquele vício, sem me embaraçar com o Rei, Príncipe, Fidalgos, etc., padecendo algumas injúrias, que me faziam, clamores contra mim; mas sempre com intrépida resolução lhe respondia que eu estava morrendo, e que teria grande gosto, que antes eles me matassem pela causa do meu Senhor, que era o que desejava, e que eu sempre havia de clamar pela sua honra, não só neste ponto, mas em todos os vícios reinantes e iníqua venda, como vai dito atrás.

Contudo, não obstante este meu aperto e falta de piedade, como eles diziam, para com os pecadores, falar-lhe que os havia de deixar, lhes custava muito, de sorte, que me queriam, e não queriam, se não que os deixasse viver a seu modo; e não faltaram neste tempo mortificações que sofrer fora das / p. 303 / moléstias, e estas cada vez se aumentavam, e me obrigaram querer vir a Angola para fazer algum remédio que ali não havia, como me haviam mandado o Ex.mo Senhor Bispo e General, e tendo melhoras, tornar para o Congo, segundo o que a obediência me mandasse. Mas, temendo que a carne e sangue me enganasse, pedi muito ao Senhor manifestasse a sua vontade. Chegou o tempo de poder partir na companhia de meu companheiro o Padre André, em quem já tenho falado, por não poder vir só pela minha moléstia, mas esta se aumentou quase ao ponto de partir, e não tendo gente que me acompanhasse no caminho, porque o Padre só iria até o meio, me determinei a ficar, e Padre ir acompanhando  os escravos da Igreja por causa dos ladrões até o caminho; mas Deus determinou outra coisa porque o Padre se tornou outra vez para casa depois de alguns dias de viagem por medo de alguns pretos armados que o esperavam no caminho para fazerem mal à sua gente; e sendo o Padre bem intrépido, se tornou; e seria talvez Providência de / p. 304 / Deus como nós julgámos, porque eu já tinha gente, e ânimo de empreender a jornada, não obstante os temores do caminho, o que tudo atribuí a determinação do Senhor, pelo que tenho experimentado.

Principiei a jornada para Angola no dia 28 de Junho de 88, acompanhado do Padre Fr. José da Ordem de Santo Agostinho a fim de me assistir na minha moléstia, ficando o Padre André só, e bem desconsolado na minha despedida, e eu não menos, e empreendi a jornada, no princípio bem debilitado, e padecendo  ainda no caminho muito incómodo, e moléstias; mas sempre ocupado no meu santo ministério, e não nos faltaram temores de algum assalto no caminho e permitindo o Rei o meu egresso pela minha doença, ainda que com a esperança que tornaria; que de outra sorte, me não deixaria, nem os mais moradores, e os maiores daquele Reino, nem eu bem sabia o que sucederia, e só me conformava em tudo na vontade do Senhor, e na obediência dos que me governavam.

/ p. 305 / Chegámos a Angola com quarenta dias de viagem, e aí achámos a novidade do Senhor Bispo D. Fr. Alexandre se ter retirado para Portugal por alguns motivos, sendo então Bispo Governador, e futuro sucessor daquele Bispado, pela ausência do Senhor Bispo D. Fr. Luis da Anunciação, da Ordem de S. Domingos, que, pelas suas moléstias, e com licença da Soberana, se havia retirado para Portugal.

O Ex.mo Senhor General me recebeu com todo o agrado, e logo principiei a sentir os incómodos da jornada, adoecendo mais, e perigosamente, para receber os Santos Sacramentos, me levaram para o hospital como pobre, aonde me curei pelo espaço de um mês, mas ficando sempre com pouco alívio, de sorte que obrigou ao médico, e ao mesmo General pela sua caridade a mandarem que embarcasse para Portugal a fim de que o clima me curasse, sem mais poder viver em aquele com vida.

Embarquei no dia 4 de Outubro do mesmo ano, e sendo dia de N.P.S. Francisco, não pude dizer Missa, e me confessei para morrer, e comunguei por modo de viático, pela moléstia em / p. 306 / que vinha, e não faltou quem me julgasse morto no mar; mas pela bondade de Deus, ainda padecendo sempre muito, além dos incómodos do Navio. Cheguei a Pernambuco a 11 de Novembro, aonde agora me acho em o Convento de N.P. S. Francisco de Religiosos Reformados da Província de Santo António do Brasil, assistido com muita caridade, mas ainda pouco forte para empreender outra jornada maior para Portugal; a minha doença antiga permanece, e inchaços, e só tenho a consolação, se aqui morrer, que será entre meus Irmãos, como sempre desejei, mas sempre suspiro pela minha Mãe, a Santa Província da Piedade, e dando-me o Senhor algum alívio, espero de me recolher, visto o Senhor assim o determinar, e não se cumprirem os meus desejos. Na minha companhia vão nove pretinhos para os entregar à Rainha Nossa Senhora, a fim de que, sendo filhos daquele Reino, se possam educar e instruir, e algum dia servir naquela Igreja. Espero as orações dos meus irmãos, para que o Senhor me faça a graça de ir morrer nos braços de minha Santa Mãe, já que não tive, e / p. 307 / não mereci a dita de derramar o meu sangue pelo meu Senhor.

 

Esta é a quarta relação que fiz dos meus trabalhos, e permita o Senhor seja tudo para honra, e glória sua, e disponha de mim seu servo inútil, o que mais lhe agradar, e vai adiante para ter a felicidade das orações dos Santos, e obrar em tudo a obediência.

Pernambuco, quinze de Dezembro do ano de 1788

Fr. Rafael de Castello de Vide

Missionário e filho da Santa Província da Piedade.

 

 

/ p. 308 / Ao M. R. P. Vigário Geral do Congo, Fr. Rafael de Castello de Vide, a quem Deus guarde, m. a.

Faço este meu escrito para mandar saber a sua saúde; sendo boa, eu folgarei muito, enquanto da minha estou bem pela misericórdia de Deus, ainda que misturado com muitas mortes da gente de Deus por esta grande peste, mas encomendamos a Deus todo poderoso, por ouvir a sua chegada a V.P. deste cume do Monte do Quibango, não posso calado assim sem mandar buscar a Sagrada Pessoa de V. P. pela vir, e nos dar os Santos documentos, porque esta Igreja de Quibango  é a vossa verdadeira Igreja, que edificou: os defuntos Padres eram seus irmãos; não posso fartar a seu, e amor desta Igreja: não largo mais: hoje, dia de Santo António de 1787, o seu filho espiritual, Dom Pedro agora R. da Sardónia, Príncipe de Quibango.

 

 

O seu afilhado, Mestre, Secretário, D. Francisco de Vasconcellos mando beijar mil vezes as mãos de V.P., ainda que eu não estou bem, por causa de minha doença antiga, também fico com grande nojamento por tantas mortes de meus parentes e filhos, e irmãos e sobrinhos, neste mesmo mês passado de Maio, mas tudo isto encomendei a Deus Nosso Senhor, porque tudo e quanto faz a Deus, é por nosso bem.

 

 

/ p. 309 / Copiei este MSS do original que veio de Braga para se entregar ao Sr. Bispo de S. Thomé, em 1794.

Fr. Vicente Salgado.

 

 

 

V.J.M.J.

 

Rev.mo Senhor,

 

Desejo a V.ª Rev.ma a mais feliz Saúde na Divina graça, e todas as felicidades que pode apetecer em o governo dessa Sagrada Congregação, em que V.ª Rev.ma se acha dignamente ocupado; e disponha da minha Saúde graças ao Senhor, e de mim o que for do seu agrado.

Não tem sido descuido em dar a V.ª Rev.ma as notícias que me pede do P.e M.e Fr. João Gualberto de Miranda, dessa Congregação, antigamente meu amabilíssimo companheiro em as Missões de Angola e Congo, a quem já o Senhor, como primeiramente creio, terá em sua glória, recebendo o prémio das suas fadigas Apostólicas, a que livremente se ofereceu pela glória do Senhor e salvação das Almas; mas a demora tem sido por haver de ver a relação que eu fiz de nossas Missões, que agora se achava nas mãos do meu Rev.mo P.e M.e Provincial desta Província da Piedade, do que nela achei, e do que sei darei a V.ª Rev.ma uma exacta e verídica conta, só a fim que do Senhor seja louvado e engrandecido, para sua glória e honra da Congregação de quem ele foi digno Filho, e como Irmão, que somos todos filhos do mesmo Pai.

O sobredito Padre foi um dos que se ofereceram para as Missões de Angola, quando a Sereníssima e Fidelíssima Rainha N.ª Senhora convidou as Corporações Religiosas para este fim, e ainda os Padres Seculares, mas destes foi um só, o P.e André de Couto Godinho, clérigo preto, mas de alma bem branca pelas suas virtudes = três Cónegos Regrantes de S. Agostinho = 4 Religiosos Franciscanos de Xabregas =5 Reformados a saber: três da Província da Piedade, um da Conceição e um da Soledade = um religioso de S. Paulo, outro Agostinho descalço, um da Ordem de S. Bento, entre eles o mesmo Rev.º P.e João Gualberto de Miranda, desta Sagrada Congregação da Terceira Ordem de N.P. S. Francisco, um dos mais perfeitos Religiosos que nos acompanharam, além de três Religiosos Carmelitas descalços, e dois Barbadinhos Capuchinhos italianos que iam para as suas Missões, que todos transportávamos em Nau de Sua Magestade, da invocação de Nossa Senhora de Belém, bem assistidos por Sua Majestade Fidelíssima.

Saímos do Porto de Lisboa no dia 2 de Julho de 1779. Logo no mar, principiou o sobredito P.e Fr. João Gualberto a mostrar o seu bom espírito pregando de Missão, e um Religioso Carmelita descalço e eu, o mais indigno, a toda a equipagem, que se ajuntava em a tolda do navio. E ali o mesmo Padre era estimado do Comandante e mais oficiais da Marinha pelas excelentes virtudes. E depois de muitos trabalhos e perigos do mar, principalmente em 31 º ao sul da linha, chegámos a Angola a 3 de Dezembro do mesmo ano, onde o mesmo Padre foi atacado de graves moléstias que lhe impediam o desafogo do seu espírito; e, acabando estas, principiava novo trabalho em a Missão que lhe foi destinada, para os sertões daquela vasta seara.

Porque, levando o General que ia connosco, o Ill.mo e Ex.mo Sr. D. José da Câmara, particulares recomendações da Rainha Nossa Senhora, a fim de escolher com o Ex.mo e Rev.mo Sr. Bispo de Angola, D. Fr. Luis da Anunciação, da Ordem de S. Domingos, alguns dos Missionários para o dilatado Reino do Congo, para onde mais se estendia o zelo da nossa Soberana, por ter sido aquele Reino criado no Cristianismo pelos Portugueses, mandados pelos seus Augustos predecessores, e então se achava em a maior necessidade de operários zelosos, e donde se podia esperar uma grande aliança e utilidade para o Estado, e tendo chegado ao mesmo tempo uma embaixada do Rei do Congo pedindo Missionários, foram escolhidos o mesmo P.e Fr. João Gualberto, o Padre Mestre Frei Libório da Graça, da Ordem de S. Bento, o P. André de Couto Godinho, presbítero do hábito de S.Pedro, e eu, Fr. Rafael de Castello de Vide, da Província da Piedade, da Ordem de N.P. S. Francisco, de todos o mais indigno.

Depois de repartidos os mais Missionários pelas Missões de Angola e Benguela, os que fomos destinados para o Congo, saímos de Luanda ou S. Paulo da Assunção, como se intitula a capital de Angola, no dia 2 de Agosto de 1780, e deixando as comodidades com que nos enviaram os Ex.mos Snrs. do Governo espiritual e temporal, falemos dos trabalhos que logo principiámos a padecer, que não foi tanto em terras que ainda são do domínio de Nossa Soberana, e em o Marquesado de Mossul, e do Bumba, que já pertence ao Rei do Congo; em todo este caminho, o P.e Fr. João queria ser sempre um dos primeiros que se lançava ao trabalho, não de viajar, mas baptizando, confessando e administrando o Matrimónio, catequizando e assistindo a todos os exercícios da piedade, como pedia o seu zelo e bom espírito.

Passadas estas terras mais próximas a Angola, entrámos em o Grão Ducado de Bamba, e em os nossos grandes trabalhos, dormindo muitas noites pelos sertões, sem povoação, expostos às feras, faltos de todo o necessário, até adoecermos todos gravemente sem remédios, sem médico, sem alinho, deixando-nos os pretos no desamparo e não ter outro alívio senão do Céu. Estes trabalhos nos fizeram adoecer e morrer logo no princípio da viagem o Religioso de S. Bento e ficámos os mais quase nomes em estudo; mas não desfalecíamos, nem nos descuidávamos do nosso Ministério e o P.e Frei João, não obstante a sua moléstia se ocupava ardentemente em o seu Ministério, e é indizível o que se padeceu, seria preciso fazer uma grande relação do que se padeceu, desde Agosto de 80 até Outubro de 81, em que chegámos à Corte do Congo, em que pretendíamos fazer a nossa residência, estando neste tempo todo aquele Reino alvoroçado em civis guerras, partidos mortíficos.

Chegámos enfim aonde se pôde fazer alguma casa de palha para habitarmos os três Padres que restámos, que sempre vivemos até que o Senhor permitiu, pela morte do nosso amado Companheiro, a custosa divisão.

Logo depois que chegámos à Corte, o Rei novamente eleito pediu que o P.e João  fosse ao Monte de Quibango, lugar principal daquele Reino, habitado pelos maiores Príncipes do Reino, que o havia pedido a fim de restabelecer a Religião quase descaída. Saiu o Padre da Corte nos princípios de Janeiro do seguinte ano de 82, e por muitos dias que gastou na viagem até àquele monte, passando por muitas povoações todas de pretos, que por todo aquele Reino não há outra qualidade de gente, se ocupou bastantemente  em o seu Ministério, catequizando e administrando os Sacramentos; e chegando ao sobredito Monte, é inexplicável o seu trabalho em um mês ou mais que ali se deteve, concorrendo de todas as partes os pretos com os seus filhos, para receber a Doutrina Evangélica, que lhe anunciava, baptizando [...], instruindo-os horas e horas inteiras, exposto aos rigores do Sol, e trazendo para o grémio da Igreja povos inteiros, tirando-os dos seus erros, e mancebias, baptizando muitos adultos, trabalhando incessantemente, como eu o soube, indo no seguinte ano àqueles povos. Depois de passar ali o tempo necessário, e quanto podiam as suas forças, se tornou para a Corte, virando por estas terras, trabalhando da mesma sorte, sem perdoar a trabalho e muito consolado por lhe parecer que com a graça do Senhor teria aproveitado as suas almas que havia muito tempo não viam um Padre, que lhe dissesse uma palavra de salvação.

Pelos fins deste ano de 82, principiou o P.e Fr. João, a experimentar grandes moléstias, que aumentaram mais e mais, levando-as com muita paciência, e trabalhando sempre pelo bem das almas, até [...] No princípio do ano de 83, já se não podia levantar, e ainda a miúdo na cama não deixava de aproveitar aos fiéis administrando a alguns a Penitência e não podendo dizer Missa, ia muitas vezes à Igreja comungar, e já antes ele havia feito comigo uma confissão geral com grande edificação, sobrevindo-lhe em Fevereiro do mesmo ano um grande fluxo de sangue pela boca, recebeu o Sagrado Viático com grande devoção. Mas o Senhor ainda lhe concedeu mais algum tempo de vida, mas já impossibilitado de se levantar, de sorte [que] em a Páscoa desse ano lhe administrei a Comunhão em casa, por não poder levantar-se. Depois cada vez mais se agravou a moléstia, nos princípios de Maio lhe sobreveio o fluxo de sangue; e pondo-se em estado perigoso, lhe administrei o Sagrado Viático, neste segundo ataque, que ele recebeu com muita devoção, e o pediu renunciando tudo, com um verdadeiro conhecimento como filho de N. P. S. Francisco. No seguinte dia lhe administrei a Santa Unção, recebendo-a com conhecimento e devoção, e verdadeiro desengano, que costumam os bons Religiosos naquela hora, respondendo ele as Graças em tom [de] edificação, e sem os soçobros daquela hora. No terceiro dia, deu a alma a Deus, depois de ele mesmo invocar o auxílio de todos os Santos, e muitas vezes os SS.mos Nomes de Jesus e Maria, depois de eu dizer Missa pela sua agonia, e assistindo-lhe nós os dois Padres que restávamos. Com todo o sossego e quietação, deu o último suspiro no dia 8 de Maio de 1783, dia da Aparição de S. Miguel, dizendo-lhe eu no dia antecedente: “Amanhã, é bom dia para morrer” , o que ele queria, e se conformava com a vontade do Senhor.

No mesmo dia de tarde fomos depositar o seu corpo na Igreja que era uma Igreja antiga, que nós já tínhamos coberto, não tendo se não as paredes quando ali chegámos e havia sido Sé noutro tempo; e os pretos já baptizados daquele Povo lhe assistiram toda a noite, cantando os seus rosários, e no dia seguinte lhe cantámos o Ofício de Corpo presente, e o da sepultura como se costuma aos Religiosos, e o enterrámos na Capela Mor da dita Sé da Corte chamada S. Salvador do Reino do Congo aonde morreu. E fica naquele lugar já antes destinado para sepultura dos Sacerdotes.

A este seu funeral assistiu imenso Povo dos pretos, e o Rei por ser doente mandou  os seus Vassalos maiores, Conselheiros, e grandes do Reino, sentindo todos amargamente a morte de seu (como eles diziam) Pai Espiritual e muito mais sentíamos nós, e chorávamos a falta de um companheiro amável pelas suas belas qualidades e virtudes com que nos edificava e de um Missionário  [...] do Senhor, com quem mais suavemente levávamos os trabalhos e pela sua falta em um Reino tão necessitado de obreiros, não ficando se não dois em um tão vasto trabalho. Mas nos consolávamos na esperança que o Senhor o teria em sua glória.

 

Estas são, Rev.mo Senhor, as notícias, que em resumo, e bem sucinto, posso dar a V. Rev.ma do meu amabilíssimo companheiro. Certifico a V.ª Rev.ma me deixou edificado e ainda vivo disso saudoso. Eu aqui estou já em Portugal, julgo que por uma especial providência do Senhor. Eu me vi no mesmo estado quase como ele; ele pretendia vir a Angola para se curar; mas o tempo em que principiou a agravar-se mais a sua moléstia não era apto para uma jornada talvez de 200 léguas. Eu vim em melhor estação necessitado de um companheiro para me assistir, e chegando a Angola se agravou mais a minha doença, que obrigou ao Médico, e  General a mandarem-me para Portugal, pelo estado em que estava, e não faltava quem me julgava morrer em o mar até o Brasil, e dali para Lisboa ainda padeci. Agora me vejo, graças ao Senhor, restabelecido e totalmente resignado na vontade do meu Senhor. Desejo fazer alguma coisa pelo meu Deus, eu me tenho sacrificado no púlpito e confessionário, e ainda me dói o coração de não ter então a saúde que agora possuo; eu me conformo com a vontade de Deus. Peçamos a este Senhor que mande operários para a Sua Seara, e eu Lhe peço também guarde a V. Rev.ma 

 

Como sou

De V.ª Rev.ma

indigno Servo e Sub.º

 

Fr. Rafael de Castello de Vide

 

Convento de N. Sr.ª da Consolação do Bosque da

Vila de Borba, 16 de Janeiro de 90.

F   I   M

 

INDICE

 

1.ª parte

 

2.ª parte

 

3.ª parte

 

4.ª parte