20-12-2010

 

 

Luis Nunes, de Antuérpia (1553 - 1645) ou Ludovicus Nonnius

 

 

 

Ao longo do Sec. XVI, há diversos médicos de ascendência judaica com o nome de Luis Nunes. O Prof. Américo da Costa Ramalho sentiu a necessidade de os destrinçar e por isso escreveu duas entradas com o mesmo nome na Enciclopédia Verbo. A primeira refere-se ao que se designa comummente por Luis Nunes de Santarém e a segunda a Luis Nunes de Antuérpia, geralmente designado pelo nome latino Ludovicus Nonnius. Hans Pohl, seguindo talvez Nicolau António (e Barbosa Machado?),  avança a ideia de que o primeiro seria avô do segundo, hipótese que parece não se confirmar.

Luis Nunes nasceu em Antuérpia em 1553, sendo filho do médico Álvaro Nunes, que veio a falecer em 1603. Dizem os autores que Álvaro Nunes era natural de Frarinala, em Espanha, mas ninguém conseguiu identificar a situação de tal localidade. O primeiro que a indicou parece ter sido o enciclopedista e historiador de Medicina, Nicolas-François-Joseph Eloy (1714-1788), errando a ortografia. Álvaro Nunes frequentou a Universidade de Lovaina, tal como, mais tarde, seu filho. Não se confirmam as indicações de Barbosa Machado, de Santarém, como o local e o ano de 1560, como sendo os do nascimento.

Ludovicus Nonnius, de Rubens

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Em 1574, Álvaro Nunes aparece a anotar um livro escrito por Francisco Arceo, com o título  De recta curandorum vulnerum ratione et aliis ejus artis præceptis libri duo Francisco Arcæo Fraxinalense, doctore medico et chirurgo, ejusdem De febrium curandarum ratione. Antuerpiæ, Platinus, 1574. Com toda a evidência, Álvaro Nunes financiou a impressão, juntando-lhe então as suas anotações. O livro foi muito apreciado na altura e traduzido para alemão, inglês e holandês, mais tarde para francês e ainda em 2009, para espanhol. A terra da naturalidade de Francisco Arceo, Fraxinalensis, permite resolver o enigma por detrás do nome Frarinala, pois refere-se a Fregenal de la Sierra, pequena Vila da província de Badajoz, a 30 km. da Portuguesa Barrancos.  Ao ler a indicação latina Fraxinalensis, fizeram um lapso escrevendo Frarinala, que depois foi repetido muitas vezes.  Porém, a ascendência portuguesa é atestada por Valerius Andreas, autor da Bibliotheca Belgica, que, logo na 1.ª edição de 1623, escreveu a pgs. 548 : "Ludovicus Nonnius Alvari Medici Lusitani Fil. Antuerp. Medicus & ipse excellens, Historicus, Poëta".

O que não se pode confirmar é que a data do nascimento de Álvaro Nunes tenha sido 1543, como referem alguns textos.  Já a indicação no seu monumento funerário (Barbosa Machado) de que o seu pai se chamava Luis parece ser de confirmar.  Havia em Antuérpia um poeta chamado Jan Van der Noot (1539-1595) que a certa altura, com dificuldades financeiras, começou a escrever poemas dedicados a quem o gratificava. Há assim uma Ode dedicada ao Médico, Dr. Álvaro Nunes, Doutor em Medicina, em que ele o louva muito, bem como a seu pai, Luis.  Também a poeta (e filha de poeta) Anna Roemers Visscher (1584-1651) lhe dedicou um poema em que lhe agradece tê-la curado em 1645 e lhe pede que aceite como presente um cavalo; transcrevo o poema no Anexo 2.

O filho de Álvaro Nunes, Luis Nunes, licenciou-se em Medicina em Lovaina em 1573 (alguns autores dizem 1577). Deveria ter-se preparado bem, pois a sua obra, toda escrita em Latim, demonstra muita erudição.

Em matéria de Medicina, estudou sobretudo a Dietética, como referirei, ao elencar os seus livros. Em 2 de Dezembro de 1995, a Academia Real da Saúde, da Bélgica, realizou o seu 3.º Simpósio dobre a História da Medicina, dedicado ao tema “Nonnius e a Dietética”, onde ele foi considerado o precursor desta ciência.

Foi um médico muito reputado em Antuérpia, contando, entre os seus clientes, celebridades como o pintor Peter Paul Rubens e o humanista Justus Lipsius (em holandês, Joost Lips). 

Possivelmente já em idade avançada, casou com Francisca Godines, filha do rico comerciante Francisco Godines, também de origem Portuguesa; sua esposa comprou em 1623 a casa “Schilde van Spagne”, isto é, Escudo de Espanha, que ainda hoje existe em Antuérpia, na Lange Gasthuisstraat, n.º 18. Tendo sido reconstruída, foi ali colocada uma placa recordando o médico em 24 de Novembro de 1984, com os seguintes dizeres: "Op deze plaats stond het woonhuis "DEN SCHILT VAN SPAENGIEN" van Dr. LUDOVICUS NONNIUS (1553 - 1645) Humanistische Geneesheer Grondlegger van de Medische Diëtetiek".

A amizade com Peter Paul Rubens é documentada não apenas por cartas deste, mas também e sobretudo pelo retrato que dele pintou, que hoje se encontra na National Gallery (sala 29) em Londres. Que o personagem retratado era Luis Nunes, só foi descoberto em 1950 pelo crítico Ludwig Burchard, a partir de uma cópia do retrato de Rubens, executada por Erasmus Quellinus para o tipógrafo Balthasar Moretus em 1647 (está no Museu Plantin, de Antuérpia). É uma pintura a óleo sobre madeira com as dimensões 124.4 x 92.2 cm, e deverá ter sido executado por volta de 1627. Alguns autores tendem a referir 1635, quando Luis Nunes teve muitos contactos com Rubens, para a execução da Pompa Introitus Ferdinandi. As cores do rosto e a abundância de cabelo apontariam, na minha opinião, para a primeira data. No quadro, o busto de Hipócrates, à esquerda, indica a profissão do personagem; o livro na mão, a sua qualidade de escritor; a estante com livros, a sua erudição.

É muito provável que, dispondo de fundos para isso, Luis Nunes fosse também um antiquário como o era o próprio Rubens.

A amizade com Justus Lipsius (1547-1606) está documentada com uma carta que chegou até nós e está publicada na correspondência deste (Anexo 1). Para além disso, Luis Nunes escreveu um epicédio à morte dele com o título In Lipsii obitum (pag. 695 de Delitiæ Poetarum Belgicorum).

Em 1620, foi um dos fundadores do Collegium Medicum Antverpiense (hoje Royal Medical Society of Antwerp ), uma das mais antigas associações médicas do Mundo e a primeira a surgir nos Países Baixos do Sul.

Como veremos ao descrever os seus livros, os conhecimentos de Luis Nunes não se limitavam à Medicina. Ele estudou História e Geografia, sobretudo no que respeita à Península Ibérica e dedicou-se também à numismática, possivelmente também na qualidade de coleccionador.

O seu nome aparece ainda destacado em 1635, aquando dos festejos efectuados em Antuérpia na recepção ao Cardeal-Infante D. Fernando de Áustria (1609-1641), Príncipe de Espanha, filho de Filipe III de Espanha e de Margarida de Áustria, Governador em nome de Espanha, dos Países Baixos. Os arcos, as decorações, os cortejos na sua entrada em Antuérpia em 15 de Maio de 1635 estão descritos no livro chamado Pompa introitus honori Ferdinandi Austriaci Hispaniarum Infantis S. R. E. Card. Belgarum et Burgundionum gubernatoris, etc. A S. P. Q. Antwerp. Decreta et adornata; cum mox a nobillisima ad Norlingam parta Victoria, Antwerpiam auspicatissimo aduentu suo bearet, XV. Kal. Maii... Arcus, pegmata, iconesq; a Pet Paulo Rubenio, Equite, inuentas & delineatas inscriptionibus & elogiis ornabat, libroq; commentario illustrabat Casperius Gevartius I. C. & Archigrammateus Antuerpianus. Accesit Laurea Calloana, eodem auctore descripta. (Antwerp, 1641) e pode ser visto aqui. Os arcos principais foram desenhados por Rubens e ainda hoje são estudados e mesmo objecto de teses de doutoramento. Luis Nunes desenhou o Arco Português, muito mais modesto que os de Rubens, o que não admira, pois ele não era desenhador nem pintor e também já tinha 82 anos nessa altura. Ainda assim, diz Elizabeth McGrath, no artigo citado: “Of these the Portuguese Arch, designed by a learned Antwerp doctor and dietician of Portuguese descent, Ludovicus Nonnius (Nuñez), was a worthy, but impoverished version of Rubensian forms and imagery”.

Uma importante referência aparece no Diário do cientista, irlandês de nascimento,  Robert Boyle (1627 - 1691), que no caderno n.º 22, que os estudiosos dizem ser da década de 1660, escreveu esta nota com o n.º 62:  "Doctor Ludovicus Nonnius Medicus Antuerpiensis celeberrimus, hanc historiam, aliâ non ineleganti mihi communicatâ confirmavit. Puella trium annorum diuturnâ Doctor Ludovicus Nonnius Medicus Antuerpiensis celeberrimus hanc historiam, aliâ non ineleganti mihi communicatâ confirmavit. Puella trium annorum diuturnâ quartanâ laborans, subito exstincta. aperto corpore, visi sunt pulmones adeo contabuisse, ut nullum illorum vestigium appareret, sed tantum membrana plena purulentâ materiâ, cum tamen nunquam vel de tussi (mirabile dictu) conquesta fuisset, nec plus expuisset". (Ver aqui).

Luis Nunes faleceu em 1645, com a provecta idade de 92 anos.

  

 

OBRAS:

 

Ichthyophagia, sive de Piscium esus Commentarius, Antverpiæ, 1616.8, Peter and John Bellerus.

 

A obra médica de Luis Nunes gira toda em torno da Dietética. Baseou-se nos antigos Gregos, nomeadamente em Hipócrates e depois nos conhecimentos empíricos e no bom senso da época. Não era possível à época o estudo científico da alimentação, já que conceitos como os de vitaminas, proteínas, açúcares e gorduras eram completamente desconhecidos no Sec. XVI.

O primeiro livro trata do consumo de peixe. Dedica-o ao Presidente da Câmara de Antuérpia, Nicolaus Roccox (1560-1640).

Na época, o consumo de peixe era muito desvalorizado e considerado muito menos saudável do que o de carne. Costuma-se referir que terá sido a Igreja Católica a promover o consumo dos peixes (especialmente dos mais baratos) com a proibição de comer carne nos dias de abstinência, nomeadamente na Quaresma. Outra consequência da mesma proibição, foi o aumento da procura dos peixes mais apetitosos, como os moluscos e os hoje chamados frutos de mar que não faltavam na mesa dos mais abastados.

Nos mercados de Antuérpia, aparecia muito bom peixe; vejam-se os quadros pintados por Frans Snijders ou Snyders (1579-1657), nomeadamente O Vendedor de Peixe e o Mercado do Peixe.

Luis Nunes inicia o livro elencando 37 espécies de peixes, certamente os que ele considera melhores, do mar, dos rios e de lagos. Indica os seus nomes latinos e gregos (grego antigo), com a tradução em italiano, espanhol, francês e holandês. Combate o preconceito de que os peixes são alimentos não benéficos para a saúde. Concede, porém, que aos atletas e aos que fazem trabalhos pesados, pode ser mais útil, comer carne. Já as pessoas que puxam menos pelo corpo, os advogados, os estudiosos, os que trabalham em casa (e os ociosos) podem com proveito alimentar-se de peixe. Segue, pois, o que já Galeno referia na Antiguidade sobre o mesmo assunto.

Refere depois os diversos modos de preparar o peixe: frito, grelhado, cozido e guisado. Peixe cozido é melhor para os doentes e assinala o costume Português da época de adicionar açafrão e pimenta.

Louva o costume de salgar ou secar o peixe, de que resultam pratos saborosos, referindo expressamente o bacalhau:

Similiter etiam Asellorum immensa copia partim sale conditur, partim vento et Sole duratur, ex quibus lauta Salsamenta parantur, qua universæ Germaniæ in usu sunt”(Pag. 161).

Termina o livro, falando da salmoura, muria, em latim.

 

 

Diæteticon, sive de re cibaria libri IV, ex Officina Petri Belleri, 1626.8, ibidem 1646.

 

Como na Ichtyophagia, também neste livro, Luis Nunes, baseia-se nos antigos Gregos e Romanos, apoiando-se também na sua experiência.

No início, expõe alguns princípios gerais de uma boa alimentação: pequenas porções, simples, variadas, e refeições espalhadas ao longo do dia, o mais possível. O pão deve ser sempre o alimento fundamental.

A primeira parte do livro termina com uma referência ao sal, então usado sobretudo como conservante.

A segunda parte trata da carne, seja fresca, seja conservada por qualquer meio. O seu consumo deve ser moderado.

Na terceira parte, refere-se aos peixes e retoma o que havia dito na Ichtyophagia, fazendo alguns acrescentos. Recomenda especialmente o peixe para os idosos.

No Livro quarto, trata das bebidas. Descreve o vinho de uvas, o vinho de palma e a cidra. Desaconselha as misturas. Naturalmente, recomenda que o vinho seja bebido com moderação. A bem da saúde, o vinho deve ser misturado com água quando é demasiado alcoólico. Com Anacársis, ele nota que “o primeiro copo é bom para a saúde, o segundo dá prazer, o terceiro é prejudicial e o último dá asneira” – “primum copulum sanitatis esse dixit, secundum voluptatis, tertium contumaliæ, ultima insaniae” (pag. 464).

 

 

Calculorum curatio. Diureticorum usus. Aquæ Spadanæ præstantia, et utendi modus. Chymicorum remediorum in calculosis inefficacia. Joh. Beverovicio, Lvdovicvs Nonnivs s. d.

Luis Nunes deixou-nos uma carta que escreveu ao seu colega o Doutor Jan Van Beverwyck, sobre o tratamento das pedras nos rins.

De Calculo renum et vesicae liber singularis: Cum epistolis et consultationibus magnorum virorum, Leyde, Elsevier, 1638, é o título do livro onde foi publicada essa carta de 31 de Julho de 1635, abaixo transcrita com que Luis Nunes respondeu a outra do seu correspondente, de 12 de Julho do mesmo ano, em que este se queixava fortes dores provocadas por cálculos nos rins.  Luis Nunes recomenda as mezinhas da época, mas aconselha o doente, seu amigo, a beber muita água de Spa, umas termas da Bélgica que ainda hoje estão em actividade. O ideal seria beber a água nas Termas mas, como na época assolava toda a Bélgica a Guerra dos 30 Anos, ele aceita que a mande buscar e a beba em casa. Note-se que o mesmo livro há pelo menos mais outra carta de Luis Nunes.

 

 

Calculorum curatio. Diureticorum usus. Aquæ Spadanæ præstantia, et utendi modus. Chymicorum remediorum in calculosis inefficacia.

 

JOH. BEVEROVICIO,

 

LVDOVICVS NONNIVS S. D.

 

Quas ad me dedisti, XII. hujus, Clarissime vir, lubens vidi, quod memoriam apud te vigere adhuc mei intelligam; sed cum ex iis percepi, te Nephriticis doloribus gravissime excruciaturn, duosque calculos excrevisse; summopere indolui hanc tibi calamitatem obtigisse. Scio enim, quam molestum hoc symptoma, præsertim cum calculus excernitur. faxit Deus, ne deinceps recurrat, atque Hygieia benignis oculis te respiciat, et molestissimum hoc malum abigat. Urinam præsens essem, conarer tibi impendere omne officium, quod ab amico præstari posset: sed cum temporum iniquitas hoc non patiatur fungetur epistola meo munere, non ut aliquid in medium producam, quod accuratissimam tuam doctrinam fugiat sed ut morem petenti geram. Longa me experientia docuit, a validioribus diureticis abstinendurn, nisi cum calculi excretio promoveri debet, alias crudos .humores in Renes pellunt atque obstructiones augent; temperatis tantum utendum ut sunt Malvarum et Violarum, Cerefolii cum Parietaria decocta, Syrupus de Althea Fernelii placet mihi summopere Petri Forestii decoctum, quod describit lib. XXIV, Observ. XXIX, illud enim temperatum est, et humores ex parte ad alvum deducit, quod tuttissimum in renum affectibus esse judico, siquidem contra Artis pæcepta est, purgare corpus per partem affectam, qua de causa etiam abstineo a Rhabarbari et Cassiæ usu in his affectibus, quia movent per Renes, ut viri docti jam pridem observarunt. Lubens utor floribus Malvarum conditarum; mulcent enim fervorem Renum et urinæ ardorem mitigant.

 

Sed nullum remedium Aqua Spadana præstantius, quam velim bibas ad XL aut L dies, et nisi belli tempestas universam Belgicam nunc occuparet suaderem ipsos fontes adires; sed quia non expedit te periculo committere, domi bibas, ita tamen, ne ambulando rnultum te defatiges; nimius enim motus Renes calefacit. Soleo ægrorum plurimis illas in lecto exhibere magno emolumento; blando enim lecti calore facile penetrant. quod si non facile excernantur, levi motu illarum operatio promovenda hoc tutissimum et longe eficacissimum huic malo remedium frequenter expertus sum.

 

Chymici magnifice extollunt sua remedia, et salutem spondent; ego speciosa dicta, rei inania esse comperi. sunt enim calidiora et, nisi corpus nacta sint excrementorum expers, in majus discrimen ægrotos præcipitant. Sed manum de tabula, ne, quod ajunt ώς τήν Αθήνάν. .Interim si quid apud nos sit, quod tibi usui fore judicas, jure amicitiæ non solum monere, sed imperare potes; adeo enim me tibi devinctum habes humanissimis tuis officiis, ut nulla dies me illis exsolvet. Deus Opt. Max. te, Clarissime et Doctissime Domine, bono publico incolumen servet.

Vale, Antverpiæ XXXI Julii M DC XXXV

 

Tratamento dos cálculos renais. Uso de diuréticos. Excelência das águas de Spa e modo de as utilizar. Ineficácia dos remédios químicos nos pacientes que sofrem de cálculos.

 

 

Ludovicus Nonnius envia saudações a Johannes Beverovicius.

 

A carta que tu me enviaste no dia 12 deste mês, ilustríssimo Senhor, li-a com prazer pois constatei que em ti a lembrança da minha pessoa permanece ainda viva; mas, como dei conta ao lê-la que tu estás gravemente atormentado por dores nefríticas e tinhas expulso dois cálculos, fiquei muito sentido que esta calamidade te tenha atingido. Com efeito, sei como é dolorosa esta dor, sobretudo quando o cálculo e expulso. Deus queira que não tenhas uma recaída e que Higia volte para ti o seu olhar benfazejo e elimine este mal tão doloroso. Ah, se eu estivesse a teu lado, faria para ti todos os deveres que pudessem ser levados a cabo por um amigo! Mas, uma vez que a injustiça do tempo o não permite, é uma carta que se ocupará da minha obrigação, não para trazer a pleno dia o que escaparia ao teu saber tão escrupuloso, mas para satisfazer o teu pedido. Uma longa experiência ensinou-me que são de evitar os diuréticos demasiado fortes, salvo quando se deve provocar a expulsão do cálculo. Nos outros casos, eles põem em movimento humores crus em direcção aos rins e agravam as obstruções. Devem utilizar-se os moderados, como as decocções de malvas e de violetas, de cerefólio com parietária, o xarope de alteia de Fernelius. A decocção de Petrus Forestius que ele descreve no Livro XXIV, Observação XXIX, agrada-me muito. Com efeito, ela é temperada e faz descer os humores da parte em direcção ao ventre, o que eu julgo muito seguro nas doenças dos rins. Se, todavia, é contra os preceitos da Arte purgar o corpo pela parte doente, também por essa razão eu me abstenho de usar o ruibarbo e a cássia nestas doenças, porque eles provocam um movimento através dos rins, como observaram já há muito tempo os homens sábios. Eu utilizo de boa vontade folhas de malva em conserva, porque elas apaziguam o calor dos rins e contrariam o ardor da urina.

 

Mas nenhum remédio é superior às águas de Spa, as quais eu queria que tu bebesses durante mais ou menos 40 ou 50 dias e, se a calamidade da guerra não ocupasse agora toda a Bélgica, eu aconselhar-te-ia a ir às próprias fontes. Mas, porque não há necessidade de te expores ao perigo, bebe-a em tua casa, mas de maneira a não te fatigares caminhando muito. De facto, o excesso de movimento aquece os rins. Tenho o hábito de mostrar a muitos doentes que estas águas fazem grande proveito quando se permanece na cama, porque elas penetram com facilidade, graças ao calor acariciante da cama. E se a expulsão não for fácil, o seu trabalho deve ser favorecido por um movimento ligeiro. É o remédio mais seguro e de longe o mais eficaz para este mal. Disso fiz muitas vezes a experiência.

 

Os químicos, pomposamente erguem às nuvens os seus remédios, garantindo a cura. Por mim, descobri que eram declarações ilusórias, sem consistência alguma. Com efeito, estes remédios são demasiado quentes e salvo se encontram um corpo sem matérias residuais, eles fazem cair os doentes numa situação mais crítica. Mas levanto a mão da mesa, para não ser como se costuma dizer um porquinho dando lições a Athena. Entretanto, se tivermos aqui alguma coisa que tu julgues te possa ser útil, pelo direito da amizade, tu podes não somente fazer-mo saber, mas mesmo exigi-lo. É que tu tens-me preso a ti por obrigações tão amáveis de que eu jamais poderei desobrigar-me. Que o Bom Deus, Ser Supremo, te guarde são e salvo para o bem público, muito ilustre e muito sábio Mestre! Adeus.

Antuérpia, 31 de Julho de 1635.

 

 

 

 

 

HISPANIA, sive Populorum, Urbium, Insularum, ac Fluminum in ea accuratior descriptio, Antverpiæ, 1607.8, ex Officina Hieronymi Verdussi, republicada no volume IV da Hispaniæ Illustratæ sev. Rervm. vrbivmq. Hispaniæ, Lvsitaniæ, Æthiopiæ et Indiæ scriptores varii. Partim editi nunc primum, partim aucti atque emendati ... Opera et studio doctorvm hominvm. Accessit rerum memorabilium & verborum index copiosissimus,  apud C. Marnium, & hæredes Iohannis Aubrij in Francofvrti, 1608, pags. 373-479.

 

É uma obra que descreve a geografia da Península Ibérica, então unida sob o reinado de Filipe III de Espanha, 2.º de Portugal, acrescentando alguma história. Tem 95 capítulos.

Assinalo o capítulo XXV, com a descrição de Lisboa, a pgs. 119 e o capitulo XXIX, com a descrição da ponte de Alcântara e as suas inscrições, a pgs. 133.

 

 

NUMISMÁTICA

 

Luis Nunes comentou ainda vários livros de numismática de Hubert Goltzius (1526-1583), possivelmente suportando também as despesas da edição:

C. Iulii Caesaris, Augusti & Tiberii Numismata, Ludovici Nonnii Medici Antverpiani Commentariis illustrata (primera edición del Julius Caesar 1563, del Augustus 1574, y del Tiberius 1620) 

Graecia, eiusque Insularum & Asiae minoris Numismata, cum eiusdem Nonnii Commentariis (primera edición 1576)  Antverpiæ, Prostant apud Hieronymum Verdussium, 1620.

 

POESIA

 

Como quase todos os eruditos da sua época que sabiam Latim, também Luis Nunes escreveu poesia. Estão publicados dois poemas a pags. 693 e 695 da colectânea Delitiae poetarum belgicorum: huius superiorisque ævi illustrium a Rhanutio Ghero (Anagrama de Janus Gruterus), Francofurti, Typis Nicolai Hoffmanni, Sumptibus Jacobi Fischeri, Anno 1614, com os títulos:

Poema in nuptias Ion. Wouerii

In Lipsis obitum (também em Justi Lipsii, ... fama posthuma, pags. 47-50)

 Escreveu também um poema latino dedicado ao médico Rodrigo de Castro, certamente seu amigo, que aparece no início do livro De universa muliebrium morborum medicina, e foi transcrito na Bibliotheca Lusitana.

 

 

Anexo 1

 

EPIST. LIII                                         Antuerpiam

LUDOVICO NONIO    Doctore Medico

Divam nostrum placuisse tibi, pietatis tuæ in illam est, fortasse et in me affectus. Nam a stilo aut ingenio meo leviter accessit, quod commendaret. Gaudeo tamen grata hæc esse (nam et ab aliis sic accipio) et excitor ad similes scriptiones. Similes dico, id est Historicas: et tu me eo vocas valde inclinatum. Itaque iam nunc edo Monita et exempla Politica, in quibus quid nisi florem historiarum excerpo, et huic scriptioni velut proludo? Deus si vitam mihi servat, illuc ibo: firmior sim modo; nam iam a tribus mensibus, mi Noni, valde virium et vigoris interni vacuus sum factus. Te in Hispania illustranda pergere, gaudeo: et in Marciani Capellæ loco (inspexi et inquisivi) a tua correctione nihil muto. Vera et necessaria est: etsi tentabam illud universa invertere, sed non successit. Quæris super Strabonis loco de Balearium laticlavia tunica: et meretur quæri. ego autem simpliciter ita accipio, usos primum  πλατυσήμοις χτωσι   quas Romani senatores usurparunt, sed paulo aliter. Nam Baleares, opinor, in lino, non in lana; et ab ijs haud dubio Hispani sumsperunt sic propinqui. Sane de istis in Livio est Lib. XXI. ubi de pugna Cannensi: Hispani linteis, prætextis purpura tunicis constiterant atque in eadem re Polybius dixerat  χτωνίσκος περιπορφύρος quid eæ aliud sunt quam tunicæ laticlaviæ: si tamen purpura ea in clavos distincta? Hæc ad Livium olim notabam, et Strabonis locum adiungebam: tu iudicabis. Publica valde me suspensum habent, et video certamen omne in Flandria cernendum. Hostis copias auxisse, instruxisse dicitur, et recta ad novam expeditionem ire nos quid? quod tu sctitissime a tua arte, in Veterno aut Lethargo sumus, nec excitati excitamur. Ades o Deus; et patriam, aut certe religionem tuam, vindica et tuere. Vale, mi Noni. Louanii, XI. Ka1. Octobris  M DC IIII.

 

Anexo 2

 

AEN DEN

hoogh Geleerden wel Eervaren Docktor

NONNIUS. 

      Is daer wel een Schat op Aerdt

      Meerder als Gesontheijt waerdt?

Watmen heeft dat soumen geven,

Alsmen van de Coorts moet beeven,

      Alsmen krijt door groote pijn,

      Van het schromlijck flerecijn,

Mach oock Croesus Rijckdom baten?

Can hem helpen groote staten?

      Heeft de Eer Of Princen gunst

      Of vermaertheijt wel de Cunst ?

Neen! maer naerstich gaet men soecken

Die bedreeven jn de boecken,

      Van Galenus en sijn Maet,

      D'oorsaeck van de Sieckt verstaet.

Die uijt Cruyden, Droogen, Gommen,

Vruchten, Saeden, blaen, en blommen ,

      Weet te trecken dat gewis

      Goet tot ijder quale is.

Is dan niet wel waert te loven

Dat de Rijckdom gaet te boven?

      Wijse Nonni, waerde Man,

      Die de Cunst ten vollen Can,

Soo Geleert, en soo Eervaeren,

Die van Jong, tot grijse haeren,

      Met opmereking hebt gelet,

      Watter menich hiel jn t'bedt.

0 wat Oordel moeter weesen,

Om de Crancken te Geneesen

      Dat ick aen mij self bevondt,

      Doe jck wert van sieck Gesont.

Met wat goet Can jck V loonen ?

Met wat Croon, can ick V Croonen ?

      Neemt jn danck een dancbaer pert

      Dat V Op Geoffert wert.

 

van ANNA ROEMERS.

Ao. 1645.

 

en sin Meet, waarschijnlijk Hippocrates, ofschoon eigenlijk zijn voorganger, maar steeds in eenen adem met Galenus genoemd als de twee beroemdste artsen der oudheid.

Droogen (waarvan drogist), drogerijen ; 't fransche drogues.

Op Gedffert, toegewijd, opgedragen.

 

(De: Anna Roemers Visscher, Alle de gedichten van Anna Roemers Visscher. Deel 2., Ed. Nicolaas Beets, Utrecht, 1881, pags. 296 a 299)

 

 

TEXTOS CONSULTADOS

 

 

Nonnius en de 'Diëtetiek'. Derde Symposium Geschiedenis der Geneeskundige Wetenschappen, 2 december 1995, Koninklijke Academie voor Genneeskunde van België,  VERHANDELINGEN, LVIII, n.º 3, 1996, pag. 197 - 337

  

1. J. HUYGHE, Openingstoespraak - Opening address -  Nonnius and Dietetics 197-199—Dutch

 

2.  E. LACROIX, Van empirische “diëtetiek” naar rationele diëtetiek - From empirical 'dietetics' to rational dietetics – 201 – 237 Dutch

 

3. AMÉLIA RICON FERRAZ, The Portuguese background of Ludovicus Nonnius – 239 – 250 ENG

 

4. J.- P TRICOT, Nonnius, marraanse arts te Antwerpen, auteur van het “Diaeteticon” - Ludovicus Nonnius (1553-1645) Marrano physician in Antwerp, author of the 'Diaeteticon'  - 251 – 269 – Dutch

 

5. R. VAN HEE, Wijzigingen in voedingsgewoonten en ziekteverschijnselen in de 16e en 17e eeuw - Changes in eating habits and disease symptoms in the 16th and 17th centuries- 271- 283 – Dutch

 

6. R. JANSEN – SIEBEN, De “diëtetiek” in 16e-eeuwse kookboeken - Dietetics in 16th-century cookbooks – 285 – 300 – Dutch

 

7. J. VAN LAERE, Over Nonnius, “diëtetiek”en oenologie -  Nonnius, 'dietetics' and oenology – 301 – 317  - Dutch

 

8. MARGANNE, Marie-Hélène [Université de Liège], MÉLARD, Marc, LECOMTE, Jean, LEMLY, Jean,  Nonnius et la cure de Spa – 319 – 337  - Français

 

 

Ethnic Sephardic Jews in the Medical Literature,  edited by Shelomo Alfassa, ISBN 0976322609, 2008

 

Kenneth Albala, Ludovicus Nonnius and the elegance of fish, in La noblesse à table. Des Ducs de Bourgogne aux Rois des Belges. The Dining Nobility: From the Burgundian Dukes to the Belgian Royalty, by Paul Janssens, Siger Zeischka, ASP Vub Press, Bruxelles,  2008, ISBN 9789054874690,pag. 38-43

 

Hispaniae illustratae seu Vrbium rerumque Hispanicarum, academiarum, bibliothecarum, clarorum denique in omni disciplinarum genere scriptorum auctores varii chronologi, historici / Andreae Schotti... Societatis Iesu ; tomus IIII Francofurti : Apud Claudium Marnium & Heredes Ioan. Aubrii, 1608

Online: http://www.bizkaia.net/foruliburutegia/index_foruliburutegia.htm

 

Ivsti Lipsi[i] Epistolarvm Selectarvm Centvria Qvinta Miscellanea Postvma, Antverpiae : Moretus, 1607
Online:
http://diglib.hab.de/drucke/alv-kd-63-2s/start.htm

 

Quadros de Frans Snijders ou Snyders

Online: http://www.wga.hu/frames-e.html?/html/s/snyders/index.html

 

Valerius Andreas, Bibliotheca Belgica, Lovanii, apud Henricum Hastenium, 1623

Online: http://books.google.com

 

Valerius Andreas, Bibliotheca Belgica, vol. II, Bruxellis, Petrum Fopens, 1739

Online: http://books.google.com

 

Dictionnaire encyclopédique des Sciences Médicales, Directeur A. Dechambre, G. Masson et P. Asselin, Paris, 1873

Tome Sixième

Online: http://www.bium.univ-paris5.fr/histmed/debut.htm

 

Eloy, Dictionnaire Historique de la Médicine, Tome Second, J. F. Bassompierre, 1755, à Liège et à Francfort

Online: http://books.google.com

 

Eloy, Dictionnaire Historique de la Médicine, Tome Troisième, 1778

Online: http://www.bium.univ-paris5.fr/histmed/debut.htm

 

Hans Pohl, Die Portugiesen in Antwerpen, 1567-1648: zur geschichte einer Minderheit, Wiesbaden, Franz Steiner, 1977.

 

Delitiæ c. poetarum belgicorum, huius superiorisque aevi illustrium, collectore Ranutio Ghero,( Janus Gruterus), Francofvrti, typis N. Hoffmanni, sumptibus I. Fischeri, 1614

Online: http://books.google.com

 

Francisco Arceo, De recta curandorum vulnerum ratione et aliis eius artis praeceptis libri II, 1574:

Online: http://digital.ub.uni-duesseldorf.de/vester/content/pageview/1710721

http://alfama.sim.ucm.es/dioscorides/consulta_libro.asp?ref=X532773097&idioma=0

Justi Lipsii Sapientiæ et Litterarum Antistitis Fama Posthuma, Antverpiæ, ex Officina Plantiniana, apus Viduam et Filios Joannis Moreti, 1613

Online: http://books.google.com

 

Pompa Introitus Ferdinand

Online: http://special-1.bl.uk/treasures/festivalbooks/BookDetails.aspx?strFest=0152

 

Alexandra de Brito Mariano, PhD, Salus maris ou peixe no menu: notas sobre duas obras latinas seiscentistas da BMT, 13.º Congresso do Algarve, 2007, Lagos

Online: http://w3.ualg.pt/~amariano/bin/AMariano-SalusMaris.pdf

  

Bruce-Chwatt, R. M. (1984) “Ludovicus Nonnius, M.D., 1553-1645”, Bulletin of the New York, Academy of Medicine: a journal of urban health 60(9), 938-43.

Online: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1911802/pdf/bullnyacadmed00075-0086.pdf

 

J.P. TRICOT, Marraanse geneesheren te Antwerpen

Online: http://www.ulb.ac.be/facs/medecine/sbhm/documents/geneesheren.pdf

 

Jan Van der Noot, Gedichten, Scheltema en Holkema's Boekhandel, 1895.

Online: www.archive.org

 

Melissa Brys, De Ichtyophagia van Ludovicus Nonnius (1553-1645): het vis-diaeteticon van een literair-humanistisch medicus uit de Nederlanden. - Tese de Mestrado - Orientador: Prof. Doutor J. Papy – Faculdade de Letras – Sub-Faculdade de Linguística  - Universidade Católica de Lovaina – Lovaina, 2008

 

Francisco Arceo de Fregenal, Método verdadero de curar las heridas : método de curar las fiebres, Edição literária de José María Cobos Bueno e Andrés Oyola Fabián, Universidade de Huelva, 2009, 502 pags, ISBN: 8492679409 ISBN-13: 9788492679409

 

Elizabeth McGrath, Rubens's Arch of the Mint, in Journal of the Warburg and Courtauld Institutes, Vol. 37 (1974), pp. 191-217 

 

Marco Romano, Rubens e l’erma ritratto di Ippocrate, La memoria dell’antico in un ritratto di Ludovicus Nonnius, in Journal of the History of Collections vol. 22 no. 1 (2010) pp. 15–27

 

Christopher Norris, Rubens in Retrospect, in The Burlington Magazine, Vol. 93, No. 574 (Jan., 1951), pp. 2+4-9+11

 

Ludovicus Nonnius Antuerpiensis. Floruit a. 1620, in P. Hoffmani Peerlkamp, Liber de vita, doctrina et facultate Nederlandorum qui carmina Latina composuerunt. Harlemi, M DCCC XXX VIII, pag. 266.

Online: http://books.google.com

 

Christophori Saxi, Onomasticon literarium sive Nomenclator historico criticus, Pars Quarta, Traiecti ad Rhenum, M DCC LXXX II.

Online: http://books.google.com

 

Wikipedia – Ludovicus Nonnius

Online: http://nl.wikipedia.org/wiki/Ludovicus_Nonnius

 

NOTA: Os livros de Luis Nunes estão todos no Google Books, embora nem sempre estejam acessíveis.

 

 

Bibliotheca Lusitana, de Barbosa Machado

 

LUIZ NUNES nasceu na Cidade de Anveres Corte dos Principes de Flandes sendo filho do Doutor Alvaro Nunes Physico mór do Serenissimo Cardial Alberto Archiduque de Austria de quem se fez larga memoria em seu lugar, o qual por assistir a este Principe quando governava os Estados de Flandres lhe servio de patria tão nobre Cidade a seu filho Luiz Nunes. Não sómente competio, mas excedeo a tão grande pai na sciencia medica, intelligencia das linguas Latina, e Grega, investigação das Antiguidades Romanas, e erudição historica, e affluencia poetica por cujos dotes scientificos mereceo os elogios de famosos Escritores como foram Zacuto Hist. ,liv. 2. hist. 21. Quaest. 21. intitulando-o clarissimus & expertissimus;  &  hist. 34. dub. 34. ingeniosissimus.  & hist. 95. & hist. 109. eruditisimus & hist. 5. medicus praestantissimus & in Praef. Progn. Hypoc. clarissimus.  Gaspar dos Reys Franco  Camp. Elys. Quaest.  Quaest. 63. n. 34. doctissimus  Beyerlinck Opus Chronol.  ad an. Christi 1602. p. 272. “Qui patris vestigiis inhaerens eruditionis merito Medicinae etiam lauream consecutus varios aliarum insuper scientiarum thesauros sibi comparavit.  Val And. Dressel. Bib. Belgica  p. 636. Medicus excellens, Historicus, Poeta. In singulis ostendit ingenij praestantiam variam doctrinam, antiquitatis notitiam non vulgarem.  Cardozo Agiol. Lusit.  Tom. 2. p. 247. no Comment. de 20. de Março letr. A. doctissmo.  Franc. Swertius Athen. Belgica  fol. 519. e 520. Medicus elegans, poeta clarus, antiquarius  ' solers, utriusque linguae peritissmus  Dalmasses Dissert. Hist. de la patr. de Paul. Oros.  cap. 31. doctissimo e eruditissimo.  Pellicer Syncel. desagrav.  fol. 36. n. 39. con igual felicidad, que erudicion dexò illustradas las Antiguidades de España y que con justa razon goza el aplauzo y credito, que le han dado las naciones. Ustarroz Disc.2. de las Medallas.  Dormer ‑Progres. de la Hist. de AragCliv. 3. cap. 21. n. 22.

Na Universidade de Lovaina recebeo as insignias doutoraes na Faculdade Medica que exercitou na sua patria com grande aplauzo alcançando o mayor, e mais perduravel pelos partos da sua penna onde depozitou os thezouros da sua profunda litteratura, sendo os que lograrão da luz publica os seguintes

 

Huberti Goltzij Graeciae, ejusque insularum, & Asiae Minoris Nummismata commentario illustrata.  Antuerpiae  apud Verdussen.  1620   fol.& ibi 1644   fol.

 

Commentaria ad Secundum, & Tertium Tomum Goltzij de Nummis Julij Cesaris, & Numis Graecis.  Antuerpiaeapud eumdem Typog.1620   fol.& ibi 1644   fol.

 

Hispania, sive Populorum, Urbium, Insularum, ac Fluminum in ea accuratior descriptio.  Antuerpiaeapud eumd. Typog.1607.8. & Francofurti  apud Claudium Marnium  1608,  no 4.º Tomo Hisp. Illustrat.  a pag. 373.

 

Ichthyophagia, sive de piscium esu commentarius. Antuerpiae  apud Belleros  1616   8.

 

Diaeteticon, sive de re cibaria libri IV.Antuerpiae  apud Petrum Bellerum  1627   8.& ibi  apud eumdem 1646  . 4.   Nesta edição da qual conservo hum exemplar, que he dedicada a D. Thomaz Lopes de Ulhoa Barão do Limale, Cavalleiro da Ordem militar de Alcantara, e Conselheiro de guerra em Flandes acaba o author a Dedicatoria com a data de Pridie Idus Maij 1645 em o qual ainda vivia.

 

Epistola ad Joannem Beverocium .

Sahio no Tratado de Calculo  composto pelo Medico João Beverocio a quem foy escrita. Lugd. Batau.  apud Elsevirium  1638   12.  ; He muito douta, e comprehende varias doutrinas Medicas.

 

Poema in Nuptiis Joannis Weverij.  

Começa

Urania, qua matre satus, Bromioque parente.

Huc facilis vendes  &c.

 

Poema in obitu Justi Lypsij.  

Começa

Magna anima aethereum quam supra evexit Olympum.  

Aeternus Genitor.  &c.

 

Uma, e outra Poesia saíram impressas in Deliciis Poet. Belgicor.  Part. 3. A primeira a fol. 693. e a 2. a fol. 695. at. 698.

 

 

 

 

ALVARO NUNES, natural de Villa de Santarem, Pay não menos pela sciencia que natureza de Luiz Nunes de quem em seu lugar se fará menção. A opinião que corria da sua profunda capacidade o fez ser venerado por hum dos mayores professores da Medicina, de tal sorte, que quando o Serenissimo Alberto Archiduque de Austria entrou em Lisboa para governar esta Monarchia em nome de Filippe II. não sómente o elegeo por Medico da sua Camara, mas lhe persuadio com largos partidos que o acompanhasse a Flandes com o titulo de seu Physico môr na occazião que hia governar aquelles Estados. Obedeceo promptamente à insinuação deste Principe, e entrando em Anveres Corte dos Principes de Flandes não he facil de explicar a universal estimação, que mereceo assim da Nobreza, como do povo pelo admiravel methodo, e singular arte, com que curava as infermidades mais perigozas, e rebeldes, por cuja causa o respeitavam os Professores da sua Arte por hum novo Hypocrates, ou Galeno. Toda esta acclamação conciliava a suavidade do seu genio, e urbanidade da sua pessoa sempre inimiga da vangloria, e unicamente amante da moderação. Além destes amaveis dotes resplandecia nelle sobre a profunda sciencia da Medicina a perfeita noticia da lingua Romana, e Grega, e a vasta comprehensão da Filosofia, Cirurgia, Mathematica, e Historia por cujas partes lhe dedicou ao seu merecimento este Elogio o insigne Varão Lourenço Beyerlinck in Oper. Cronol.  ad. ann. Christi 1602 Venio ad Alvarum Nonium Medicorum sui saeculi, & soli lumen qui graece, et Latine eruditus ingentes opes subtilis ingenii ab ineunte aetate ad illustranda Medicinae abdita conservaverat. Quo factum, ut nihil inter Graeca primorum Medicinae antistitum volumina occurreret, quod non otius enodaret interpretando. Memoria vero adeo tenaci, ac vegeta praeter alias naturae, & fortunae dotes, praeditus erat, ut non nisi eum summa voluptate audires de rebus summis quaeque proxime hominem contingebant disserentem, & arcana quaevis veterum, & scriptis certa fide de promentem. Quare magno in praetio apud magnos semper est habitus, & Principum nostrorum Archiater assiduus fuit. Bibliothecam habuit divite librorum supellectile instructam, quam Ludovico Nonio filio reliquit.

Morreo em Anveres, e foy sepultado na Igreja de São Tiago, em cuja Sepultura lhe gravaram sua mulher, e filhos este honorifico epitáfio:

Alvaro Nonio Lud. Fil.

Nato an. 60. denato 5. Idus. Decembris  1603

Philosopho, & Archiatro

Doctrina. & virtute claro:

Principibus charo

Prolixa in omnes comitate

Cui in vita nil charius quam aliis eam dare;

Nil in morte jucundius, quam ad meliorem

transire.

         Uxor marito, liberi parenti.

         MM. PP.

 Das obras de tão grande Author unicamente chegou à nossa noticia a seguinte:

Annotationes ad libros duos Francisci Arcaei de recta curandorum vulnerum ratione cum eisdem excusaeAntuerp. apud Christophorum Plantinum 1574.8 et Amstelod. apud Petrum Vande Berghe.1658. 12.

 

Desta obra, e do Author se lembraram Vander de Linden, & Georg. Abrah. Merck lino in Script. Medic.  Nicol. Anton. in Bib. His Tom. 1. pag. 48. c. 2. Zacut. in praefat. de Med. Princip. Hist., Caldeira Variar. Lection.lib. 2.cap. 5. Franc. Suvertius inAthen. Belgic.  & Val. Andr. Dessel. in Bib. Belgic.  fallando de seu filho Luiz Nunes.

 

 

 

 

Bibliotheca Hispana Nova, de Nicolau António

 

LUDOVICUS NONNIUS (vulgo NUÑEZ),  Alvari, medici Lusitani, filius, Antuerpiæ natus (Georgius autem Cardosus in schedis suis Santarenensen appellat, quod inde esse pater Alvarus, ut suspicari possumus), medicus et ipse excellens, historicus, poeta, in singulis ostendit ingenii præstantiam, variam doctrinam, antiquitatis notitiam non vulgarem. Adhæc tractabilis et comis moribus: talem certe fatentur qui præsentem absentemque norunt aliquando. Scripsit:

Hispaniam, sive de oppidis, fluminibusue veteris Hispaniæ elegantissimum (Gasparis Barthii ad lib. VI. Thebaid. v. 877. et cujus non) Commentarium. Antwerpiæ apud Verdusium 1607. in 8. Rursus edita in corpore Hispaniæ Illustratæ, volum. IV.

Ichthyophagiam, sive de esu piscium. Antuerpiæ apud Bellerum 1616. 8.

Diæteticon, sive de re cibaria libros IV. Ibidem 1626, in 8. De quo opere laudatus nuper Barthius ad lib II  Theb. V. 707. Vide, ait, elegantissimum Diæteticon Ludovici Nonnii, viri doctissimi, et multis magnorum medicinalium conditorium conditoribus prudentioris, qui humanitatem humanitis morbis curandis et sanitibus tuendis non sejunxit. Hortaturque subinde eum ad illustrandum interpretatione sua pulcherrimum Collumelæ  De cultu hortorum librum metricum, mutuam pollicitus ab observationibus a se factis operam.

Commentarium in Julium Cesarem, Augustum, Tiberiumque Hugonis Goltzii, Ibidem 1620, folio, typis Aertesii.

In ejusdem Goltzi Numismata Græciæ, seu in Tabulas Insularum Græciæ Ibidem apud eundem Lusit quoque Epicedium Justo Lipsio, editum in Fama Posthuma ejusdem Lipsii, et alia quædam carmina sparsim edita. Hæc totidem fere verbis Valerius Andreas in Bibliothteca Belgica, qui adjungit, de vivo ad hue Nonno loquens, parata editioni eum habere Elogia Hispanorum armis illustrium. Nos Valerianis nonnihil adjunximus.

 

 

 

 

ALVARUS NUÑEZ, chirurgus uti credere par est, fecit

Annotationes ad libros duos Francisci Arcei de Recta curandorum Vulnerum ratione cum iisdem excussas Antuerpiæ1574. in 8.