18-3-2010

 

FRANCISCO MANUEL DO NASCIMENTO - FILINTO ELÍSIO

 

1734 - 1819

 

 

 

NB. Nas citações das Obras Completas de Filinto Elísio, os algarismos a encarnado indicam o número da página da edição moderna da APPACDM, Braga; os primeiros, em cor normal, o da edição de A. Bobée, Paris, 1817-1819.

 

 

JUVENTUDE  E  FORMAÇÃO

 

Francisco Manuel do Nascimento (1734 – 1819), foi poeta de prestígio e também uma vítima da Inquisição, à qual teve de fugir para não ser preso, com as consequências previsíveis de sofrimento, humilhações, e outras penas.  Com toda a evidência, o sobrenome “do Nascimento”, foi por ele inventado, tal como a genealogia que colocou na sua obra completa (I, 263, 237). É mais conhecido por Filinto Elísio, o pseudónimo que utilizou e que lhe foi dado pela Marquesa de Alorna ou Condessa de Oeynhausen, de seu nome, D. Leonor de Almeida Portugal; em troca, ele chamou-a Alcipe.

Para compreender este escritor, a primeira observação a fazer é que, no tempo em que viveu, todo e qualquer literato tinha de escrever poesia, se queria ser considerado como tal. Não quero concluir daqui que Francisco Manuel foi um mau poeta, antes pelo contrário. Mas os temas de muitas das suas poesias ficariam bem melhor em prosa. A preocupação de fazer poesia levou a publicar versos gente que nenhum jeito para isso tinha, como, por exemplo, o Padre José Agostinho de Macedo.

A segunda observação a ter em conta antes de o ler, é que ele sempre defendeu o ponto de vista de que a rima não é indispensável à qualidade da poesia e isso mesmo praticou (VI, 260, 220, nota).

Francisco Manuel nasceu na freguesia de S. Julião em Lisboa a 23 de Dezembro de 1734; embora a certidão do baptismo (em 2-1-1735) refira a data de 21, ele sempre festejou (e fê-lo muitas vezes como veremos) o dia 23, certamente por seus pais lhe terem dito ser essa a data correcta. No registo de baptismo, figuram como seus pais Manuel Simões e mulher Maria Manuel, naturais de Ílhavo; mas era voz corrente e ele próprio considerava como pai a João Manuel, Mestre das Fragatas Reais e depois, Patrão-mor da Ribeira das Naus (III, 97, 93). Aliás, seus pais sempre viveram com o dito João Manuel.

Tudo demonstra que o seu pai tinha por ele muito afecto. Deu-lhe uma educação esmerada para a altura, proporcionando-lhe o ensino das letras, de latim e de música. Deixou-lhe bens para se sustentar, sem precisar de trabalhar; e para isso fez com que ele fosse ordenado presbítero e arranjou-lhe um rendoso lugar, o de Tesoureiro da Igreja das Chagas:

….

Deixou meu pai, com que Filinto à larga,

Vivesse independente, e ao ócio e às musas,

                    Cedesse mansos dias.  (III, 97, 93).

 

Possivelmente, João Manuel era rústico e não atingiu que melhor seria enviar o rapaz para a Universidade de Coimbra e aí ser instruído, ou enveredar por uma profissão. Ou talvez tivesse tanto afecto ao rapaz, que não o quisesse ter longe de casa. Uma reveladora nota (III, 28, 29) fala do carinho com que, aos sete anos, foi tratado por um seu antigo escravo, o cocheiro mulato José, que seu pai vendera ao Conde de Castelo Melhor.

João Manuel viveu largos anos e só faleceu em 9 de Novembro de 1775 (Prof. Fernando Moreira).

Quando do terrível terramoto de 1755, Francisco Manuel era ainda clérigo de missa e estava na Sé Patriarcal quando se deu o cataclismo. Valeu-lhe a força da juventude e as boas pernas que lhe permitiram fugir a sete pés da baixa de Lisboa.

Entretanto, cultivava amizades nos meios literários e escrevia versos que não publicava, mas apenas mostrava aos amigos. Diz ele que começou a compor versos aos 14 anos (I, 22, 23), mas só começou a publicar, bastante depois dos trinta. Como poeta, não se integrou nem fez parte do grupo oficioso dos poetas de Lisboa, a Arcádia Lusitana ou Olissiponense, fundada em 1756 pelos poetas António Dinis da Cruz e Silva, Manuel Nicolau Esteves Negrão e Teotónio Gomes de Carvalho, aos quais se juntou Pedro António Correia Garção e depois muitos outros. Rodeou-se de um conjunto de amigos, que ficou conhecido pelo grupo da Ribeira das Naus. Nasceram polémicas em poemas mais ou menos malcriados, mas nenhum tem a assinatura de Filinto. Teófilo Braga elenca uma longa lista (46) de “Filintistas”, o que é certamente um exagero, dada a total informalidade em que se relacionavam. Pelo meio, alguns que depois foram inimigos de Filinto como o Capitão Manuel de Sousa e Frei Plácido de Andrade Barroco, que depuseram contra ele na Inquisição. Entretanto, a Arcádia entrou em decadência  logo em 1759 e extinguiu-se em 1774. Renasceu em 1776 com a designação de Nova Arcádia. Acho que tem sido exagerado o contributo das polémicas e divergências poéticas para a perdição de Filinto, quando a Inquisição lhe quis deitar as garras. Filinto Elísio sempre teve muita consideração por Correia Garção e não lhe deverão ter feito grande mossa os versos que este lhe dirigiu

Padre Niceno, tu, patrão da lancha

Carregada de drogas da antigualha,

Que o Bandeirinha alvar à toa espalha.

Potro que n'outro potro se escarrancha.

(Niceno foi o primeiro pseudónimo que Filinto utilizou). Afinal os versos reconhecem a proeminência de Filinto no grupo, embora reprovando-lhe o uso de vocabulário arcaico.

Entre os poetas ou literatos, amigos de Filinto, são de destacar três estrangeiros de origem, mas já cultos em língua portuguesa; António Mathevon Curnieu e Timóteo Lecussan Verdier, franceses, e Gaspar Bertrand Pilaer, originário da Holanda; terão um papel importante mais tarde na vida de Filinto.

Note-se que Francisco Manuel era admirador de Pombal, tal como muita gente culta do seu tempo. Afinal, era preferível o despotismo esclarecido ao obscurantismo reinante em Portugal antes e depois dele. Assim, era amigo pessoal dos dois irmãos do Marquês, Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1700-1779), Secretário de Estado da Marinha e Negócios Ultramarinos e Paulo de Carvalho e Mendonça (1702-1770), que foi Inquisidor Mor. Outro amigo dele bem colocado à época foi Fr. Manuel do Cenáculo Vilas-Boas (1724-1814), Bispo de Beja e depois de Évora, que foi o primeiro Presidente da Real Mesa Censória, instituída em 1768; a ele dedica uma ode (IV, 215, 195), onde diz que foi hóspede dele no Paço Episcopal em Beja.

 

AS FILHAS DO MARQUÊS DE ALORNA

 

Não tenho dúvidas que, se Francisco Manuel do Nascimento vivesse nos dias de hoje, abandonaria certamente o sacerdócio. De facto, não tinha ele a mínima vocação para o altar, se é que tinha ainda alguma crença religiosa. Como referirei depois, isso não justifica a existência da Inquisição, mas apenas que esta agiu com base nas funções que lhe eram atribuídas.

A escolha de funções eclesiásticas fora para ele uma maneira de ter um bom rendimento com pouco trabalho, mais nada.

Vagueando pelas ruas de Lisboa, um dos destinos dele seriam certamente os conventos, pois era moda do tempo ir namoriscar as freirinhas às grades. Também elas não tinham muito que fazer, limitadas à área da clausura. Mas não tardou a encontrar entretém ainda mais agradável: as duas filhas do Marquês de Alorna, presas à ordem do Marquês de Pombal num convento em Chelas.

Em 1758, deu-se o atentado a D. José, ou a inventona de regicídio, não tomo posição sobre o que foi realmente. O Marquês de Pombal culpou a família dos Távoras e o Duque de Aveiro, que foram sumariamente executados. Acusou também de cumplicidade os parentes dos executados, entre os quais o 2.º Marquês de Alorna, D. João de Almeida Portugal (1726 – 1802), casado com D. Leonor de Lorena e Távora (1729 – 1790). O Marquês foi encerrado no Forte da Junqueira, sem qualquer tipo de processo e sem limite de tempo. A esposa com as duas filhas, Leonor de Almeida Portugal (1750 – 1839) e Maria de Almeida Portugal (1751- 1786), foram enclausuradas no Convento das Cónegas Regrantes de Santo Agostinho, de nome, Mosteiro de São Félix, no vale de Chelas, entre os Conventos da Madre de Deus e de São Francisco de Xabregas. Escapou à clausura o irmão mais novo, Pedro José de Almeida Portugal (1754 – 1813), mais tarde 3.º Marquês de Alorna, na altura ainda menino e que foi entregue a parentes seus, que o educaram e mandaram na juventude para a Universidade.

O Marquês na Junqueira, a esposa e as filhas em Chelas, ficaram prisioneiros durante mais de 18 anos, até ao final do reinado de D. José, que faleceu em 24 de Fevereiro de 1777.

A vida de Leonor de Lorena e suas filhas no Convento não era fácil, apesar de terem alguns privilégios, como serviço de criadas e lições de professores contratados para elas. Não cortaram o cabelo, nem usavam vestidos escuros, como quiseram impor-lhes. Mas, em princípio, eram sujeitas às regras da clausura. Suscitavam também as invejas das freiras, de que derivavam conflitos frequentes que eram dirimidos pela Madre Prioresa, ou então pelo Arcebispo de Lacedemónia, o Bispo Auxiliar de Lisboa que tinha autoridade sobre a vida nos conventos e, em relação às enclausuradas políticas de Chelas, recebia ordens directas de Pombal.

Parece-me importante fazer aqui uma referência aos Arcebispos de Lacedemónia em funções na segunda metade do Século XVIII, para termos uma ideia de quem estamos a falar.

José Dantas Barbosa (1703-1770), foi Arcebispo de Lacedemónia de 1744 até à morte.

António Bonifácio Coelho (1717 – 1780), foi-o de 1770 a 1779.

António Caetano Maciel Calheiros (1734 – 1819), foi Arcebispo de Lacedemónia de 1780 a 1819.

Vejamos alguns dados mais sobre António Bonifácio Coelho que, como Presidente da Mesa do Santo Ofício da Inquisição de Lisboa, foi quem dirigiu o processo de Francisco Manuel do Nascimento. Era natural da Covilhã e formado em Cânones pela Universidade de Coimbra, onde chegou a ser professor. Foi chamado a Lisboa para o cargo de Provisor e Vigário-Geral do Patriarcado, por volta de 1768. Decidiu então colocar-se ao serviço do Santo Ofício e requereu em 19 de Janeiro de 1768 a respectiva habilitação, em que depuseram testemunhas da Covilhã e de Lisboa. O pedido foi deferido a 18 de Março de 1768 e foi assim que mais tarde usou o título de Arcebispo-Inquisidor. No final de 1779 foi indigitado para Bispo de Leiria, mas faleceu antes de chegar a Portugal a Bula de nomeação.

A sucessão dos Arcebispos de Lacedemónia é importante também para corrigir um lapso no prólogo das Obras completas da Marquesa de Alorna, preparado pelas suas filhas Henriqueta e Frederica (Prof. Vanda Anastácio). No relato de um incidente de confronto das duas irmãs com as freiras, é dito que o Arcebispo de Lacedemónia era na altura António Caetano Maciel Calheiros, o que não pode ser verdade, porque teve de acontecer antes de 1777, ano em que foram libertadas.

Regressando a Filinto, começou ele a certa altura a orientar os seus passos para o convento de Chelas, onde estavam presas as duas fidalgas. Foi referido que ele teria sido professor de Latim de Leonor e de música de Maria. Se o foi, foi-o de modo informal, uma vez que oficialmente, os seus professores eram outros. José Maria da Costa e Silva diz que Filinto também as socorreu financeiramente, quando elas passavam por dificuldades. Seja como for, o que sabemos é que Filinto se apaixonou por Maria, ao mesmo tempo que ganhava a amizade e a admiração de Leonor. Esta tinha também uma paixoneca menos expansiva por um amigo de Filinto que o acompanhava nas idas à grade, o Dr. Sebastião José Ferreira Barroco, formado em Leis, que também versejava sob o nome de Albano. Diz Leonor numa carta ao pai que “Albano é criatura sua (de Filinto) em matéria de versos”.  Por volta dos seus quinze anos, encarcerada desde os nove, tivera Leonor uma crise religiosa, desejando professar como freira. Diz Teófilo Braga que  foi o seu confessor Fr. Alexandre da Silva, que poetava sob o nome de Sílvio, quem a fez desistir da ideia.

Retribuindo o nome que Leonor lhe dera, Filinto chamou-a Alcipe e a Maria, Daphne.

O namoro de Alcipe com Albano foi interrompido bruscamente quando Ferreira Barroco foi despachado para o Brasil como Juiz de Fora da Baía. Leonor sentiu o golpe, como mostram os poemas no 1.º volume da sua obra completa, pags. 175 a 185. Filinto consola-a e oferece-lhe a sua amizade, lembrando-lhe que tem também o afecto de Alceste (Dr. Inácio Tamagnini, médico da Corte) e de Almeno (Fr. José do Coração de Jesus):

 

Tu tens, Alcipe, o teu Alceste e Almeno

Com que abrandes os golpes da saudade;

Ai do triste Filinto, se o seu pranto

                   Lho não enxuga Daphne!

(Poema de Filinto Elysio em Obras da Marquesa de Alorna, Vol. 1, pag. 184)

 

O ambiente de Chelas é especialmente descrito por Filinto no Épodo “Com olhos não enxutos, caro Albano” (V, 149, 134), uma despedida a Ferreira Barroco na partida para a Baía. Uma nota neste poema refere um incidente no Convento, quando Leonor e Maria foram proibidas de vir a certa janela falar com os “seus poetas”. É minha convicção ser esse o Tirano Desconcerto a que se refere a Ode “Não queiras, Daphne, que na roda alegre” (IV, 52, 48).

A futura 4.ª Marquesa de Alorna guardou sempre uma grande consideração por Filinto. Esta é manifestada nas cartas a seu pai na prisão, cartas que ainda aguardam uma publicação sistemática. Veja-se o que ela escreveu em carta citada em 1930 por Hernâni Cidade, sem indicação da data, carta ainda não reproduzida noutro lado:

 

Filinto é de um carácter singular para a nossa terra. Conhece bem que a felicidade está em si, que lhe não vem das honras que lhe fazem os fidalgos. Não os distingue senão pela virtude e pelos talentos; é um filósofo incapaz de sujeitar-se a lisonjas. Nem de gabar-se das que receba. V. Ex.ª o conhecerá e verá que dista muito da ideia que V. Ex.ª forma.

 

É evidente que esta carta deve ter produzido exactamente o efeito contrário ao que pretendia: o Marquês ficou com um grande pó a Filinto, o pé rapado que lhe cortejava as filhas fidalgas.

Note-se no entanto, que também teve divergências com Alcipe. A maior foi que ela não aprovava a admiração que ele tinha pelo Marquês de Pombal. Quando ele escreveu a Ode à Feliz inauguração da estátua equestre do fidelíssimo rei de Portugal D. José I, no dia 6 de Junho de 1775 (V, 188, 167), Alcipe retorquiu:

Não te esqueça, Filinto, o acerbo caso...

Lateja-me no peito um fogo intenso,

Se esperdiças as jóias do Parnaso,

Dando ao tirano o teu sublime incenso.

 

(Obras poéticas, I, 233)

 

Mantiveram a consideração que tinham um pelo outro. Mais tarde, Alcipe escreveu:

Fui como tu, Filinto, arremessada

Pelas ímprobas mãos da Sorte adversa

Contra os escolhos que, num mar de angústias

                                      Acumula a desgraça.

1813.

(Obras poéticas, II, 92).

 

A relação de Filinto com Maria, ou Daphne, ou ainda Márcia, como a chamou nos seus poemas, era de outra natureza. É de admirar que alguns autores continuem a falar numa relação platónica, quando são tantos os sinais em contrário. Não: foi paixão mútua e correspondida.  Naquela época, as regras da clausura eram transgredidas com facilidade, como diz Leonor noutra carta ao pai:” … e saiu meu irmão à noite segundo o costume conventual, o qual admite aqui infinitas pessoas com qualquer pretexto”. Vejamos o que Filinto diz nalguns poemas:

  

REPENTE

 

À Senhora D. M. J. J. R. D.

 

Quando a voz solta em peregrino canto

Essa boca formosa ,

Ama chegar-se à tua a minha, ansiosa

De dar-te o galardão de prazer tanto.

  

(I, 401, 363)

 

MADRIGAL

 

Já dormias, Márcia, e eu vi Cupido ansioso,.

Já d'um , já d'outro lado

Querer furtar-te um beijo gracioso.

………………………………………………………….

………………………………….Não sabias

Como o Númen girava de alvoroço,

Escolhendo-lhe o jeito

De o dar do melhor lado. Eu vim, e dei-to

Bem na boca, e logrei o esperto Moço.

 

(IV, 61, 55)

 

 

ODE

A UMA AUSÊNCIA

…………………………………….

IV

Ao ver rodar no Céu a argêntea Lua ,

E os claros lumes marchetar a Sphera ,

Lembram-me as mansas noites

Bafejadas dos mimos saborosos,

Com que me prendou Márcia

Na quadra mais feliz da idade minha.

……………………………………………………..

 

(IV, 273, 245)

 

 

SONETO

……………………………………………………………………….

Tal desce a minha Márcia aquele outeiro,

Mais cândida, que a espuma da corrente,

Vindo a Filinto, seu amor primeiro.

 

E ora esquiva, ora meiga, me consente,

Ou nega um beijo, um furto aventureiro,

Reclinada em meus braços brandamente.

 

(IV, 343, 311)

 

 

SONETO

 

MOTE

Aquela graça, aquela formosura.

 

Glosa

 

Ouvi a Márcia. —Eu te amo.— Tão ditoso

Como eu não foi nenhum mortal ‘té ‘gòra.

Forcejam por sair pela alma fora

Largas ondas de tão sobejo gozo.

………………………………………….

(IV, 409, 369)

 

Parece que o namoro continuou, depois de Maria sair do convento. Em nota à ode “Se as nuvens de ouro rasga apavonadas,” (IV, 360, 326), refere Filinto um passeio na quinta da Senhora  D. F. J. de N. Soares, tia de Márcia, que não pode ter tido lugar no tempo da clausura. Maria de Almeida casou a seguir em 21 de Novembro de 1778 com D. Luis António José Maria da Câmara, 6º conde da Ribeira Grande, mas morreu cedo, em 19 de Novembro de 1786.

José Maria da Costa e Silva é da mesma opinião:

No meio desta vida folgada, e filosófica, o amor veio precipitá-lo em um abismo de calamidades. Rico, jovial, gentil de sua pessoa, generoso e bom poeta, não admira que rendesse o coração de uma donzela formosa, de alta nobreza, e poetisa, mas que se achava então na miséria, em razão de seu pai estar no número dos presos de Estado. O amante eternizou seu nome, acudiu às suas precisões, e ambos se engolfaram nos prazeres, que só almas novas e poéticas sabem dignamente apreciar. Eram Petrarca e Laura, mas Laura sensível e amante e Petrarca patético, sublime, natural e eloquente porque cantava venturas reais, e não sorrisos, e desejos, porque vagava coroado de rosas pelos jardins de Gnido, e não pelo mundo imaginário das afeições platónicas.

 

A vida corria pois muito bem a Francisco Manuel do Nascimento. Tinha dinheiro, bem estar, amigas e amigos. Tinha uma boa biblioteca e lia o que lhe apetecia, já que conseguia obter com facilidade livros proibidos pela censura. Certamente dava e emprestava livros às manas Leonor e Maria, que os liam com avidez.

Tinha ele um defeito grande: dizia tudo o que lhe vinha à cabeça, mesmo em matéria de religião, o que era bastante perigoso naquela época. Parecia-lhe, porém, que não havia perigo de maior, pois, no tempo de Pombal, a Inquisição estava amortecida, sobretudo porque já não podia perseguir os cristãos-novos só pelo facto de descenderem de judeus. Pelo sim, pelo não, consultou ele sobre o assunto os seus amigos mais influentes: o irmão do Marquês, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, e o Bispo de Beja, Fr. Manuel do Cenáculo, que lhe disseram podia ficar descansado.

 

A VIRADEIRA

 

Falecido D. José I, D. Maria I demitiu imediatamente o Marquês e exilou-o para Pombal. Libertou todos os presos políticos, entre os quais o Marquês de Alorna, esposa e filhas. Deu novo alento à Inquisição que começou a prender gente e passou de instrumento do Estado, como fora no tempo de Pombal, de novo para as mãos do seu enorme aparelho. Foi a “Viradeira”. Não se passou a viver melhor, como é evidente, tanto que o povo começou a dizer “Mal por mal, antes Pombal”. Mas houve de certo modo um retomar do Antigo Regime, que só veio a ser eliminado com a Revolução Liberal de 1820.

Filinto deve ter pressentido a aproximação da borrasca, mas pouco podia fazer.

Antes de resumir o tratamento que a Inquisição deu a Francisco Manuel do Nascimento, gostaria de fazer algumas observações sobre a instituição.

A Inquisição não pode ser encarada como um qualquer Tribunal, que pretende administrar a Justiça com base na Lei. A Inquisição era uma instituição essencialmente perversa, porque se baseava num atentado à Lei Natural em face da qual o pensamento humano é totalmente livre. Ninguém pode aferir as crenças do seu semelhante. Por isso, era mesmo uma missão impossível, a da Inquisição. E por isso, a Inquisição nunca tinha razão, quando queria acusar alguém de heresia. Saber se a Inquisição tinha razão ou não, é um caminho por onde se não deve seguir. A Inquisição nunca tinha razão.

Outra observação é que a história da Inquisição demonstra que o que movia os inquisidores, comissários e todo o aparelho burocrático da Inquisição nunca foi a crença ou mesmo o fanatismo religioso. Não. O que os movia, era a sede do poder sobre o seu semelhante. O poder é o maior afrodisíaco. Quando o preso negava com dignidade ter práticas judaizantes, ou crenças heréticas, recebia “tratamento” adequado para perder o seu amor próprio e confessar o que os inquisidores pretendiam, incluindo o tormento que lhe dava cabo da saúde ou lhe tirava mesmo a vida. Nenhum preso saía vivo da Inquisição de cabeça levantada. Pelo contrário, vinha caído, humilhado, sofrendo. Este ponto de vista é importante, no caso de Filinto Elísio, para saber por que não quis ele nunca regressar a Portugal, mesmo na adiantada velhice.

A teia preparada pela Inquisição para tramar Filinto Elísio não figura toda no processo n.º 14048, da Inquisição de Lisboa. Não está lá nenhuma declaração do Marquês de Alorna, que Filinto considerava o seu principal acusador. Também não admira, porque os fidalgos não gostavam de se misturar com a Inquisição, que não respeitavam. Também lá não figura nenhuma referência a sua mãe que um frade franciscano teria convencido a acusar o filho, dizendo-lhe que uma freira da Madre de Deus tivera uma visão de uma cadeira de braços, de ferro em brasa, no Inferno à espera dele. Também está por determinar o papel desempenhado na condução do processo pelo próprio Arcebispo de Lacedemónia, António Bonifácio Coelho, nome que nunca assina; afinal ele conhecia muitíssimo bem Filinto Elísio, que, durante anos a fio, tinha corrido para o Convento de Chelas, debaixo da jurisdição dele. É também estranho que não tenha sido incluído no processo o mandado de detenção.

ADENDA – 05-11-2012 – Descobri agora o processo n.º 14555, onde está a denúncia feita pelos Padres de Rilhafoles, Ambrósio Ferreira da Costa e Manuel Correa, em 22 de Julho de 1768, contra Francisco Manuel do Nascimento e Capitão Engenheiro Manuel de Sousa. Acusavam-nos de, seis meses antes, na loja do livreiro M. Rolland, terem feito afirmações blasfemas. Em 22 de Agosto seguinte, o Capitão Manuel de Sousa apresentou-se na Mesa da Inquisição e confessou o facto. Aparentemente, na altura, a denúncia não teve sequência, mas foi referida por diversas testemunhas no processo de Francisco Manuel como ausente (n.º 14048).

Quanto às peças do processo, o interesse é muito relativo. Como de costume, há testemunhos incriminatórios que os inquisidores consideram muito importantes e outros menos, que eles consideram diminutos e de pouca importância. Merecem destaque dois depoimentos:

- o do falso amigo, o Capitão Engenheiro Manuel de Sousa que, aterrorizado, disse na Mesa tudo o que os Inquisidores queriam ouvir: que Filinto era totalmente ateu, e não tinha em qualquer valor a religião.

- o dos seus amigos Joaquim José de Sousa e esposa Mariana Rosa de Amorim Sousa. O primeiro depôs logo em 1 de Julho de 1778 e os Padres Mestre Ratificantes disseram que ele tinha deposto com política e diminuição. A esposa foi interrogada a 25 de Fevereiro de 1779 na Igreja de Nossa Senhora da Conceição pelo Comissário Manuel Curado Dinis e nada disse contra o delato. Por isso, o Comissário não ratificou o depoimento, mas considerou que a testemunha depusera com sinceridade e verdade.

Contém também o processo uma descrição da fuga de Filinto, quando o familiar Manuel Caetano de Melo foi a casa dele para o prender a 4 de Julho de 1778. A descrição não é coincidente com a que Francisco Manuel fazia aos seus amigos em Paris; ele referia que fora obrigado a usar de alguma violência para fugir, ao passo que o familiar do Santo Ofício diz que ele se escapuliu por uma escada interior para o piso de baixo e daí para a rua.

Foi convicção dos esbirros da Inquisição que Francisco Manuel teria embarcado no navio que partira no dia seguinte para Inglaterra. Não foi isso que sucedeu. Refugiou-se ele em casa de seu amigo Timóteo Lecussan  Verdier, mudou de poiso várias vezes e só embarcou no navio chamado “Nicolao Roque”, destinado ao Havre no dia 15. Como disfarce, quando embarcou, carregava um cesto com laranjas. O navio zarpou de Paço de Arcos e demorou 27 dias a viagem até França. Era companheiro de viagem o botânico Félix da Silva Avelar Brotero.

 

NO EXÍLIO

 

Filinto Elísio chegou entusiasmado a Paris a 13 de Agosto de 1778. Levava algum dinheiro e pensava encontrar ali amigos portugueses, o que de facto se verificou. Possivelmente, nunca pensou que ali ficaria ainda 41 anos até à sua morte.

Escreveu um soneto entusiasta ao seu amigo Domingos Maximiano Torres (Alfeno Cynthio) “Que Paris, meu Alfeno!, Que passeios!“ (IV, 307, 277). O encanto não durou muito. Afinal, era uma terra estranha, as saudades de Portugal não perdoavam.  Em 1804, escrevia ele: “Cá estou em Paris há mais de 26 anos, e ainda me envergonho do mau francês que falo, e do que ainda pior escrevo. Creio que é por falta de engenho”. (V, 141, 127).

Passeia pelo Jardim do Luxemburgo e lembra-se do seu amigo Verdier (IV, 208, 187).

E confessa a sua desilusão e a sua tristeza: “Que tristeza aqui lavra na Thebaida!”  (III, 335, 296).

Procurando a companhia de amigos, todos os anos comemora duas datas, recebendo amigos em sua casa e escrevendo poemas: o seu aniversário natalício a 23 de Dezembro [1] e a data da fuga à Inquisição, 4 de Julho [2].  Convivas eram António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783), João Domingos Bomtempo, o pianista e compositor, Francisco José Maria de Brito, Secretário de Embaixada, Timóteo Lecussan Verdier (depois de expulso de Portugal em 1808), Alexandre Sané e outros.

Os primeiros tempos de Filinto em Paris foram menos acerbos, porque ele encontrou uma companhia feminina que lhe adoçou a vida. Chama-lhe Delmira nos seus poemas. A ela se refere uma notícia do jornal parisiense La Liberté, de 7 de Fevereiro de 1899: diz que o exílio do poeta foi  “adouci par le devouement d’une jeune religieuse qui s’était attachée à sa misère”.

No aniversário natalício dela, 20 de Julho, compôs poemas em diversos anos:

1783 - IV, 127, 116 – Ode a Delmira – Amante incurioso, que se paga

1785 - V, 255, 227 – Ode a Delmira – Para quem os nevados Lyrios teço

1786 - IV, 195, 177 - Ode a Delmira – Quem sabe se amanhã as negras Parcas 

Este último tem na primeira publicação (nos Versos) o título Ode a Marfisa.

Um outro poema sobre o mesmo aniversário não permite determinar o ano a que se refere:

III, 204, 186,  – Ode aos anos de Delmira – Contente logre as horas descuidadas

São também dedicados a Delmira estes poemas:

I, 346 , 312– Madrigal – Mariposa inconstante

IV, 346, 314  – Soneto – Tu não ouviste Amor na despedida

I, 390, 353 – Ode – Não tinha em ondas de ouro desparzidas 

III, 218, 198 – Ode a Delmira -  Nos teus olhos Delmira, noto os astros

IV, 177, 161 – Ode a Delmira – Entre os braços tranquilos de Morfeu,

IV, 37, 34 – Epigrama – Partiu Delmira tão desatentada

IV, 33, 31 – Ode ao Sr. Luis José Guido Landry, de Vieux Landry  - Sentado à mesa c’um fiel amigo

IV, 248, 223 – Soneto - Não me luz, nem me aquece o Sói dourado,/ Se não vejo em Delmira a minha Aurora:

I, 278, 250 – Sacrifício a Baco – Almo Senhor das pampinosas vinhas –

IV, 309, 279 – Epigrama - Viu-me Vénus jurar, contra Delmira

No poema Sacrifício a Baco, refere a destruição das cartas de Delmira, sinal de que o romance teria acabado. Parece poder deduzir-se que tal tenha acontecido ainda antes da sua partida para a Holanda.

De vez em quando, Filinto recebe visitas de amigos que muito preza. Foi o caso do brasileiro António de Morais e Silva, Também ele fugido à Inquisição, no seu caso, de Coimbra (mais tarde decidiu apresentar-se à Inquisição de Lisboa para se redimir). Filinto dedicou-lhe a ode "Como foge, Morais, o veloz Tempo, V, 262, 234), possivelmente agradecendo favores materiais. 

Como é fácil imaginar, estando à vontade em Paris e tendo muito tempo livre, Filinto dedicou-se à leitura dos autores e livros franceses que não pudera ler em Lisboa, Voltaire, Diderot, Rousseau e muitos outros. Ao mesmo tempo, veria na rua o borbulhar das ideias liberais e os sinais de que a revolução estava em marcha. Numa primeira fase, exulta com a rebelião (Ode: O ribeiro que nasce na montanha, I, 423, 381). Saúda a tomada da Bastilha em 14 de Julho de 1789:

Vem, Dia fausto! Dia o mais formoso

Que Apolo trouxe no vermelho carro

…………….. (III, 283, 252)

Aplaude a abolição dos privilégios dos nobres (Epigrama: Perguntei hoje a um sécio peralvilho, III, 140, 129).

Mas Filinto usará também os seus versos para censurar os excessos da revolução. Fá-lo-á mais tarde, quando regressar da Holanda.

António de Araújo de Azevedo, mais tarde Conde da Barca, foi nomeado em 1789, Ministro Plenipotenciário em Haia. Vindo de Londres, passou por Paris e ofereceu a Filinto uma estadia em Haia, dizendo-lhe que lhe pagaria uma mensalidade com que ele pudesse viver. Além disso, teria ao dispor a sua biblioteca. Araújo era poeta, estava a traduzir Horácio e usava o nome literário Olinto. Filinto só aceitou a oferta em 1792, possivelmente receoso, vendo o Terror tomar conta das ruas de Paris.

Parecia que se deveria dar bem na Holanda, sem preocupações de ordem material. Tal não aconteceu. Detestou a língua holandesa, em que nunca se conseguiu exprimir. Também não gostou dos holandeses, a quem chamou batatífagos, isto é, comedores de batatas (Ode: Vejo (mas longe) vir luzindo o dia, IV, 95, 88). Para falar português, tinha apenas os judeus descendentes de portugueses, que guardavam a língua dos seus antepassados (Nota 2, III, 307, 272). Mas depois dá conta que está a projectar na Holanda e nos holandeses o seu mal estar: “O despeito, o enojo, a solidão, a má saúde, que logrei na Holanda, foram os instigadoras desta, e doutras semelhantes baforadas poéticas, que cá ficam na gaveta…” (Nota, V, 301, 273).

Regressa a Paris no final de 1796 com o Conde da Barca, encarregado por D. João VI de ir assinar a paz com o Directório. Mas a sua missão não era conhecida em Paris, as credenciais não foram aceites e Araújo foi preso na Torre do Templo, onde ficou três meses e um dia.

Filinto tentava organizar a sua vida, mas sucessivos azares reduziram-no ainda mais à sua miséria:

- perdeu as poupanças que tinha depositado no banqueiro Jullien, numa falência fraudulenta;

- foi roubado por uma criada de nome Chicoineau;

- foi executado judicialmente por outra criada, de nome Michel, perdendo todos os seus bens, incluindo os livros.

Estes lúgubres acontecimentos são referidos em (III, 26, 27), e (III, 33, 33). Na Ode intitulada “A minha vida em França” (III, 115, 108), lamenta-se

 

Ao Mundo vim. Melhor, não ter cá vindo.

E que vim cá fazer? Papel de parvo.

 

Nos seus versos, continuou então a ocupar-se de Revolução Francesa, agora reprovando os seus excessos. Neste grupo, a Ode Ad Gallos (V,114,104):

………Poupai, magnânimos

Sangue Francês, Franceses.

 

Lamenta-se que os ventos da Revolução não cheguem a Portugal:

 

Ponde os olhos na França. Quão briosa

Derribou os altares orgulhosos,

Espantalhos erguidos por matreiros,

Para logro de néscios.

(III,295,262)

 

Na Ode “Qual no cume do Cáucaso escarpado,“ (V, 209,186), junta uma nota especialmente violenta:

“Os Astrólogos, e os Sacerdotes viveram sempre de enganar os Povos : aqueles com o futuro desta vida; estes com o futuro da outra, e com a velhacaria de entreterem os homens de coisas além do alcance humano, lhes desviam a vista da alma das coisas naturais, e interesses civis, que mais importam; entenebram-nos com a ignorância; e assim vendados, e subjugados, nos assentam o jugo, e nos governam com vara de ferro. A filosofia nos desmascarou já as velhacadas dos Astrólogos. A Assembleia Nacional nos livrará dos outros.”

 

Filinto acusa o domínio do Estado pela Igreja:

 

Cuidáveis que éreis Reis, e escravos éreis

Dos Bonzos…………….      (V,424, 377)

 

e condena o procedimentos dos Reis:

Os Reis ( a pesar seu ) lições mais rectas

Têm de beber da fonte, que hoje mana

De erguida rocha, onde se assenta em França

Briosa a Liberdade.

(III, 297, 263)

 

Anseia, no entanto, pela vinda de um Rei justo:

 

Venha, venha, em meus dias, um Rei justo

Que à valente Razão dê fausto ouvido:

Que adite o Reino, assoberbando os Monstros

Que o gastam, que o aviltam.

 

(IV, 84, 78)

 

Um episódio caricato: desde 1788, poemas de Filinto eram impressos e vendidos em Lisboa, onde eram procurados com interesse. Quando apareceu na capital portuguesa a Epístola “Em quanto punes pelos sacros foros”  (V, 424, 377), datada de 29 de Novembro de 1791, o Intendente Diogo Inácio de Pina Manique publicou um Edital que diz seria punido com 10 anos de degredo em África, quem não entregasse na Intendência o panfleto. Para tentar iludir a censura, muitos poemas dele eram assinados por heterónimos, por exemplo: Agostinho Soares de Vilhena e Silva, José Pinheiro de Castello Branco, Clemente de Oliveira e Bastos, Gregório da Silva Pinto, Marcelino da Fonseca Mine’s Noot, Inácio de Sequeira Massuelos, Lourenço da Silveira e Matos.

 

Um grande amigo que Filinto encontrou, por volta de 1805, foi Alexandre Sané, um jovem que lhe pediu lições de português, e tomou a iniciativa de traduzir um grupo de poemas para francês. Elaborou depois uma biografia do poeta, certamente a partir do que o próprio Filinto lhe havia contado. Publicou um livrinho simpático com os poemas nas duas línguas e o título Poésie lyrique portugaise ou Choix des Odes de Francisco Manuel, Paris, 1808. Filinto fingiu-se enxofrado sem razão com alguns louvores da biografia, coisas da idade (Nota, XI, 73, 68).

 

Para além de muitos outros, Filinto teve ainda o desgosto de nunca mais voltar a encontrar Leonor de Almeida, a Alcipe, embora ela tenha passado duas vezes por Paris, a primeira em 1785 e a segunda em 1814. Foi-o visitar a Condessa de Ega, filha de Alcipe e a ela dedicou a Ode, “No prazer engolfada uma alma nobre” (III, 65, 63). Em 1814, enviou a Alcipe a Ode “Era noite: e Morfeu me tinha em braços” (III, 117,110) e a poetisa respondeu com o poema “Num mar de luz os astros se sumiam” (III, 119,111). Desta vez foi o Embaixador que foi de parecer que não se encontrassem. Filinto, desiludido, escreveu a Ode “Alcipe não me ver? Ao seu Filinto” (XI, 194, 181).

 

A certa altura, Lamartine, então um jovem de 25 anos, foi ter lições de português e de literatura portuguesa com Filinto. Cheio de entusiasmo juvenil, dedicou a Filinto uma das Meditações , a XII, com o título “La gloire. À un poète exilé”. Filinto era um pedaço rabugento, com os seus 83 anos. E criticou asperamente a expressão “divin Manuel “ (nota  V,10, 11) da 4.ª estrofe. A estrofe foi substituída nas edições seguintes, embora permaneça na edição de Bobée das obras de Filinto, 1817-1819 (V, 6, 7). Do mesmo modo, Lamartine suprimiu oito estrofes no final do poema (edição citada, pag. 70) .

 

Filinto dedicou-se também bastante à tradução para português, seja a partir do Latim, seja do Francês. Destacam-se as Fábulas de La Fontaine (VI), o Elogio do Doutor Antonio Nunes Ribeiro Sanches composto em francês por M. Vicq-d'Azyr (IX), as Cartas da Freira Portuguesa (X), muitos outros textos inseridos nas Obras Completas e a Crónica “Da vida e feitos d’ElRei D. Manoel, XII livros dedicados ao Cardeal D. Henrique, seu filho, por Jeronymo Osorio, Bispo de Sylves, vertidos em Portuguez pelo Padre Francisco Manoel do Nascimento, Lisboa MDCCCIV, na Impressão Régia – 2 tomos”, publicada separadamente.

 

Os últimos anos de Filinto em Paris devem ter sido muito dolorosos, roçando pela miséria. Em nota à “Ode ao meu amigo Mathevon, em dia de Santo Antão” (IV, 23, 21), diz que não pôde ir a casa dele, “por não ter sapatos, nem com que os comprar”. Por vezes, recorre ao humor negro: “Feliz, quem rumas de Calções tem!” (III, 76, 73).

 

Ainda compôs poemas em 1819. Porém, doente com uma hidropisia do peito (T. Braga), faleceu Filinto em 25 de Fevereiro de 1819, apesar dos cuidados que com ele teve o 6.º Marquês de Marialva, Pedro José Joaquim Vito de Meneses Coutinho (1775-1823), então Embaixador em Paris.

O Embaixador suportou também o custo das exéquias, organizadas pelo Cônsul de Portugal, Bernardo Daupias. Ficou sepultado no cemitério Père Lachèse.  Ali se conservaram os seus restos até 1843, data em que foram trasladados para Lisboa, ficando até 1845 no claustro da Sé. Por iniciativa do Governo, foi construído um túmulo no Cemitério do Alto de S. João, terminado em Junho de 1856.

 

O Cônsul Bernardo Daupias enviou para Lisboa em 29 de Maio de 1819, um relatório sobre o funeral que foi publicado na Gazeta de Lisboa n.º 191, sábado, 14 de Agosto do mesmo ano, a pags. 3 e 4, que vale a pena ler:

 

 

 

   
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[1]  Aniversário natalício – 23 de Dezembro

 

Ano

Ed. 1817-1819

 Ed. APPACDM

1.ª linha

1779

1780

1781

1782

1783

1784

1785

1786

1787

1788

1789

1790

1791

1792

1793

1794

1795

1796

1797

1798

1799

1800

1801

1802

1803

1804

1805

1806

1807

1808

1809

1810

1811

1812

1813

1814

1815

1816

1817

1818

 

IV, 150

 

 

 

I, 369

V, 341

 

I, 399

III, 255

 

 

I, 115

 

IV, 347

V, 221

IV, 308

IV, 351

I, 253

IV, 418

IV, 271

V, 345

V, 421

 

III, 194

III, 276

V, 305

IV, 16

 

 

 

III, 33

 

 

XI, 238

 

 

 

 

V, 25

XI, 188

 

137

 

 

 

334

307

 

361

229

 

 

102

 

315

196

278

319

229

377

244

311

375

 

177

246

277

16

 

 

 

33

 

 

221

 

 

 

 

25

176

Maldito o Bonzo, e mais maldito o Naire

 

 

 

Empunhemos, Amigos

Quem pudera dizer co’amigo Horácio

 

Se, depois do infortúnio de nascermos

Avelar, tu não és aqui ditoso

 

 

Quanto acerta o que orgulhos e etiquetas

 

Nesta rápida via, que corremos

Que me rendeu vir cá morar na Holanda?

Já me transborda pela boca o tédio   [1]

Não quis o Fado meu inda outorgar-me

Passemos, Aguiar, em festa e riso

Quando outrora a florente Mocidade [2]

Vens hoje, triste Dia, de meus anos

Das ribeiras do Sena, tão falado

Escapei, escapei; mas não sem custo

 

Qual fora o meu prazer, se hoje sentados

Nunca eu cuidei que, piedoso, o tempo [3]

Como é grato acordar na madrugada

Vate, que mandar quer à eternidade

 

 

 

Oh Esperança, oh sonho de acordados [4]

 

 

No quarto ano do lustro sexto-décimo

 

 

 

 

No quarto ano do lustro sexto-décimo [5]

Ser-me-á feliz este ano oitenta e cinco,

  

[1] Outra poesia para a mesma data I, 297, 267 – Céus, que tirastes do encoberto Nada … Por lapso do editor, esta poesia tem no título 23 de Dezembro de 1760. É 1794: ele perfaz 60 anos, conforme estância n.º 23.

[2] Outro poema para mesma data IV, 180, 164 – Que desastres que eu vi, que desacertos… Porém o segundo verso do poema – treze lustros – sugere 1799. Para este último ano, há também outro poema.

[3] 8.º verso – entra no último ano de catorze lustros = perfaz 69 anos.

[4] 10.º verso – 15 lustros = 75 anos.

[5] A repetição do poema é lapso do Poeta ou do seu Editor. O poema pertence ao ano de 1812, quando perfez 78 anos.

NB. Há mais poemas referindo aniversários natalícios, sem indicar o ano; por ex., "Onde te foste, venturoso dia ? (III, 79, 76), "Que dif'rente que vinhas, há trinta anos" (III, 178, 162), "Que dia tão feliz me fora o de hoje," (IV, 336, 304).

 

[2] Aniversário da tentativa de prisão – 4 de Julho

 

Ano

Ed. 1817-1819

 Ed. APPACDM

1.ª linha

1779

1780

1781

1782

1783

1784

1785

1786

1787

1788

1789

1790

1791

1792

1793

1794

1795

1796

1797

1798

1799

1800

1801

1802

1803

1804

1805

1806

1807

1808

1809

1810

1811

1812

1813

1814

1815

1816

1817

1818

 

IV, 145

 

 

 

 

 

 

IV, 89

 

 

 

 

 

 

 

V, 195

 

I, 441

V, 218

 

IV, 173

III, 295

 

I, 432

I, 434

IV, 99

IV, 137

IV, 84

 

III, 97

 

 

 

 

 

 

 

III, 108

III, 556

XI, 23

133

 

 

 

 

 

 

82

 

 

 

 

 

 

 

173

 

398

194

 

157

262

 

389

391

91

125

78

 

93

 

 

 

 

 

 

 

102

492

22

Morreram os meus bens, e a minha fama

 

 

 

 

 

 

A invejadas, túmidas riquezas

 

 

 

 

 

 

 

Que me vale ter sido, em verdes anos

 

Três lustros, e três anos revolvidos

Que tenho eu que fazer, em tão chuvoso

 

E consente inda o Povo Lusitano

Quatro lustros, com duas Primaveras [1]

 

Anoso ulmeiro, que os frondentes ramos

Para que hei-de eu falar sempre ferrenho  [2]

Cinco lustros, mais uma Primavera

Despedida a Estação, que às flores dava

Num dia, qual o de hoje (há vinte e oito anos) [3]

 

Servindo ao Rei, e à Pátria, sessenta anos,

 

 

 

 

 

 

 

Quatro de Julho! Memorável dia! [4]

Quão saudosas lembranças me recordas [5]

Que mal te fiz, oh Pátria? que assim deixas [6]

  

[1] A referência ao ano (quatro lustros e duas Primaveras, isto é, 22 anos) e o tema sugerem que se trata de mais um poema de 4 de Julho, aqui, de 1800.

[2] Também é datado deste dia o poema "Se até’gora invoquei Apolo e Musas," em III, 199, 181, dedicado a D. Lourenço de Lima, 1.º Conde de Mafra, Embaixador de Portugal em Paris. No 9.º verso, “há cinco lustros”.

[3] Colocar aqui a fala de Ribeiro Sanches é uma liberdade poética, pois este tinha falecido em 1783. Mas o sentido do texto corresponde bem ao pensamento do médico, que odiava a Inquisição tanto ou mais que Francisco Manuel.

[4] Sendo um poema de aniversário do 4 de Julho, não existem elementos que permitam concluir em que ano foi escrito. Atribuí-lhe 1816, porque foi o ano da publicação de uma nova edição da Macarronea, de António Duarte Ferrão, livro mencionado numa nota ao poema.

[5] A data é dada pela nota (1) ao poema: “há 39 anos”.

[6] A data é dada na nota (1): “Hoje se completam 40 anos”.

NB. Há mais poemas deste aniversário, que não indicam o ano em que foram compostos; por ex. "Concede, oh Musa este último trabalho" (IV, 217, 197) e "Ei-los que chegam, ei-los que celebram" (III, 170, 155).