15-12-2013

Primeira página                                 

 

ainda sobre

Filipe Rodrigues Montalto (1567 - 1616)

 

O artigo abaixo citado do Dr. José Lopes Dias de 1961 pretendeu demonstrar que o avô materno do Dr. Filipe Rodrigues Montalto (1567-1616) era irmão de Amato Lusitano (1511-1568), ou seja, João Rodrigues de Castelo Branco. Chamava-se esse avô também Filipe Rodrigues e, de facto, aquele autor conseguiu demonstrar que um irmão de Amato Lusitano, o L.do Pedro Brandão, foi padrinho do filho dele,  Aires (que depois assinava Aires Gomes), na pia baptismal da paróquia de Santa Maria (Castelo Branco) em 16 de Setembro de 1547. Disso não há dúvidas e eu fui aos Arquivos ver o Assento.  Que o Licenciado Pedro Brandão era irmão de Amato Lusitano, di-lo este nas Enarrationes – Comentários a Dioscórides, a pgs. 450, da edição de Veneza em 1557, onde fala de “fratre meo Petro Brandano” o ter guiado nas muralhas de Almeida. Mas o Dr. Lopes Dias avança mais e diz que o padrinho foi o tio Pedro Brandão! Quod est demonstrandum, porque no texto não está. Diz também “Estudos genealógicos recentes que vamos explorar identificam outro irmão de Amato Lusitano (…)”, mas nada mais aparece. É possível, mas não há certezas.

A genealogia que indico é quase a mesma que figura no artigo, com pequenas diferenças. A segunda esposa de Aires Gomes não é da família que ele indicou e não foi (como ele diz) irmã de Branca Lopes, mulher de seu irmão Jorge Rodrigues,  que é filha de Pedro Lopes e de Perpétua Luis. Como todas as filhas passaram pela Inquisição, é fácil fazer a lista:

 

Filhas de Pedro Lopes e de Perpétua Luis:

 

N.º do processo

Nome

Idade à data da prisão

Data da prisão

 

     

4463

12145

12164

5100

12610

6028

Constança Lopes 

Ana Lopes   

Helena Lopes

Brites Aires  

Branca Lopes

Isabel Lopes

Faleceu no cárcere em

58   

40

38

35     

30

28-5-1584, foi RELAXADA em estátua, no auto-de-fé de 13-2-1594

15-5-1584

15-3-1584

15-3-1584

15-4-1584   (*)

10-10-1583

 

(*) Neste processo, a mãe figura como Perpétua Lopes

 

Aires Gomes casou em segundas núpcias com Brites Braceiros, que adoptou então o nome de Brites Aires,  que tinha também umas poucas de irmãs:

 

Filhas de Pedro Braceiro ou Braceiros e de Isabel Rodrigues:

 

  N.º do processo

    Nome

Idade à data da prisão

Data da prisão

       

1760

5770 

6434

493

  Brites Aires

  Grácia Guterres

  Branca Braceiros 

  Isabel Rodrigues

25

22

17 

14

15-3-1584

25-11-1583

25-11-1583

10-3-1587

 

No processo n.º 5659, de Maria Aires, a filha natural de Paulo Aires e de Catarina Fernandes, o Dr. Lopes Dias não deve ter achado a Genealogia, que vem escondida no meio de declarações da ré e que permite esclarecer que é ela essa filha.

Interessante é a certidão do baptismo do Dr. Filipe Rodrigues Montalto a 6 de Outubro de 1567, o que fixa o seu nascimento no mês de Setembro do mesmo ano.

Para não plagiar, limito-me a transcrever a aventura de Aires Gomes, quando ficou desnorteado com a prisão de sua mulher e que está no processo n.º 13263, de apenas 7 páginas:

Em segundas núpcias, casou Aires Gomes com Brites Lopes, também cristã nova, presa por culpas de judaísmo, na quaresma de1584.  Ele, receando ser preso, retirou-se  de Castelo Branco na primeira oitava da Páscoa, com a intenção de seguir para Castelo Rodrigo, levando consigo a filha mais velha e deixando os mais novos aos cuidados da cunhada Isabel. Dirigiu-se ao Castelejo (Fundão), em que permaneceu uns dias em casa de seu irmão, Jorge Rodrigues, casado com Branca Lopes e, dali, partiu para Monfortinho, onde chegou a um meio dia daquele mês de Abril e se lhe foi juntar à noite, seu irmão, com a mulher e filhos. Na manhã seguinte, porém, o juiz  da terra prendeu-os aos três. Levou-os para a cadeia de Salvaterra do Extremo, onde os foi buscar o meirinho da correição de Castelo Branco, Pero Martins, e daqui transferidos para Lisboa, sob prisão, deram entrada nos cárceres da Inquisição, nos Estaus. Compareceu perante o Inquisidor, Diogo de Sousa, a 27 de Abril, mas no dia seguinte, achando-se que não havia suficientes provas, foi mandado em liberdade, sob condição de se não ausentar do Reino. Surpreenderá menos esta inesperada e rápida decisão do conspícuo Tribunal, se atentarmos que subscrevem o despacho, além do citado Inquisidor, o Dr. Frei Bartolomeu da Fonseca, natural de Castelo Branco, patrício e amigo do réu. “

Diz o Assento da Mesa de 28 de Abril de 1584, que decidiu libertá-lo, “havendo respeito a ser sua mulher Brites Aires e duas cunhadas e outras pessoas conjuntas presas no cárcere”.  Para além destas irmãs de sua mulher, também  a sua cunhada Branca Lopes, mulher de seu irmão,  ficou presa nesta altura (Abril de 1584).

 

 

GENEALOGIAS

 

Descendentes de Filipe Rodrigues e mulher Brízida Gomes

 

Filipe Rodrigues casou com Brízida Gomes e tiveram três filhos:

A - Aires Gomes (Pr. n.º 13263), que nasceu em Castelo Branco e foi baptizado em 16-9-1547; entre os padrinhos, o Licenciado Pedro Brandão, irmão de Amato Lusitano. Casou a 1.ª vez com Isabel Rodrigues, filha de Manuel Rodrigues e Brites de Santilhana, de quem teve:

                          - Filipe Rodrigues e

                          - Gaspar Gomes, que faleceram solteiros, sem filhos

                          - Beatriz de Santilhana (Pr. n.º 3394), que casou com Salvador Mendes e não tiveram filhos.

Casou 2.ª vez com Brites Aires (Pr. n.º 1760), filha de Pedro Braceiro ou Braceiros e de Isabel Rodrigues, não se sabendo se tiveram filhos. No processo n.º 13263, está Brites Lopes, por lapso evidente.

B - Jorge Rodrigues, que casou com  Branca Lopes (Pr. n.º 12610), filha de Pedro Lopes e de Perpétua Lopes que tiveram:

                          - Margarida Rodrigues, que casou e viveu em Alcains;

                          - Simão,

                          - Perpétua Luis, que casou com Manuel Lopes Ruivo

                          - Beatriz

                          - Isabel Rodrigues, que casou o L.do Manuel João Castelhano, com que viveu em Alpedrinha.

C – Catarina Aires, que casou com o boticário António Aires e tiveram:

                         - Pedro, que terá falecido menino

                         - Isabel Aires, que casou a 1.ª vez com Estácio Coelho, de quem teve:

                                                   - Catarina, que morreu jovem;

Casou a 2.ª vez com Pedro Lopes de Lucena, de quem teve:

                                                   - Marquesa da Luna

                                                   - Catarina Aires, que saíram do Reino

                          - Filipe Rodrigues Montalto, que casou com Jerónima (lá fora, mudou para Raquel) da Fonseca   e tiveram:

                                                  Rafael

                                                  António, que terá mudado o nome para Isaac

                                                  Moisés, nascido fora do Reino

                                                  Gémeos, que faleceram jovens

                         - Paulo Aires, que casou com Ana Lopes e tiveram:

                                                  - António

                                                  - Catarina

Saiu do Reino e foi viver com a família para Utrera.

Antes do casamento, teve de Catarina Fernandes, cristã velha, uma filha:

                                                    Maria Aires (Pr. n.º 5659), que casou com Baltasar Lopes (Pr. n.º 5994) e tiveram:

                                                                           - Inês

                                                                           - L.do Manuel Lopes Aires, médico

                                                                            -Paulo

                                                                           - Francisco de Luna

                                                                           - Isabel

                         - Francisco de Luna (Pr. n.º 3747), médico, que casou com Inês Correia e tiveram:

                                                 -António Aires

                                                 -Simão

                                                 - Filipe

                                                 - Diogo

                                                 - Isabel

                                                 - Serafina, que morreu menina.

                         - Diogo de Luna, advogado, que por volta de 1616 foi para Antuérpia com Jerónima da Fonseca, sua cunhada e ali terá casado.

                         - Marquesa de Luna, que casou com Gomes Fernandes Correia e tiveram:

                                                  - Manuel

                                                  - Garcia

                                                  - Francisco

                                                  - António Correia

 

 

 

Família de Tomás da Fonseca

 

 

Pr. n.º 1355 Tomás da Fonseca, médico, de 47 anos, da Covilhã—preso em 21-11-1609:

 

PAI: Lopo da Fonseca, natural de Viseu,  médico, morreu na Covilhã

MÃE: Beatriz Henriques, natural de Pinhel, morreu na Covilhã

Avô paterno: Duarte da Fonseca, de Viseu, onde morreu. Nada sabe dos avós maternos.

Sabe de um tio paterno, de Viseu chamado António da Fonseca, que deixou um filho,

                                         Duarte da Fonseca, cirurgião na Covilhã

e de uma tia paterna, chamada Genebra Nunes, moradora em Sevilha.

Da parte da MÃE tem uma tia

Maria Leonor Henriques (Pr. n.º 5076), viúva de Miguel da Fonseca, mora na Guarda, tem um filho

                                          Diogo da Fonseca (Pr. n.º 5968), letrado

 

Tem 3 irmãs:

A-Maria da Fonseca (1575 - Pr. n.º 3844, tinha 14 anos), que ficou viúva de Jerónimo Nunes, mora na Covilhã – Outubro de 1611 em Madrid – faleceu em França em 18-2-1614.

                                   filhos: Duarte Nunes  e

                                   Lopo da Fonseca, que estão em Madrid

                                   filhas:  Guiomar da Costa (Pr. n.º 13069), que casou com Duarte Nunes Vitória (Pr. n. 6172)

                                   Catarina da Fonseca (Pr. n.º 6182), mulher de Henrique de Horta (Pr. n.º 13067)

                                   Luisa da Fonseca (Pr. n.º 2316), casada com António de Cárceres

                                   Beatriz Henriques casada com Duarte Rodrigues Lamego, que vivem em Madrid

                                   Isabel, de 9 anos

B-Isabel da Fonseca, casada com Pedro Rodrigues, advogado na Corte e está agora em Madrid

Ela partiu para Madrid há pouco.

C-Jerónima da Fonseca, casada com Filipe Rodrigues Montalto, ele natural de Castelo Branco, estão ambos em Itália, mas não sabe onde residem.

Teve uma meia irmã, Genebra da Fonseca (Pr. n.º 4380), filha de seu pai Lopo da Fonseca e de Guiomar Dias, casada com Gaspar Dias, que morou na Covilhã. Presa em 8-11-1580, foi relaxada no auto da fé de 1-4-1582

Ele é casado com D. Isabel Coronel, castelhana, casou com ela há 25 anos. Ela estava recolhida no Mosteiro do Santíssimo Sacramento de Valladolid – não têm filhos

Mais ninguém da família passou pela Inquisição, disse ele.

 

Além de outros e da família toda, Tomás da Fonseca denunciou ainda:

- Afonso  Dias Rosado (Pr. n.º 13021), irmão de Duarte Nunes Vitória, casado com Isabel Gomes (Pr. n.º 7418)

- L.do Simão Barbosa de Castro  (Pr. n.º 1359)

 

* * * * * *

 

Destes personagens, três merecem menção especial:

 

L.do Francisco de Luna, médico

 

Nasceu em Castelo Branco, foi filho de António Aires e de Catarina Aires, neto materno de Filipe Rodrigues e de Brízida Gomes.  Estudou Filosofia em Coimbra e depois, Medicina em Salamanca, onde disse ter estudado também um pouco de Astrologia.

Ficou a exercer a profissão em Castelo Branco, onde tinha algum prestígio, embora todos soubessem que era cristão novo, tal como seus pais e avós e também a mulher com quem casou, Inês Correia. Uma irmã desta, Maria Lopes, residente no Fundão, havia sido relaxada pela Inquisição em 5 de Abril de 1620, um transe doloroso para ambas as famílias.

Vemos no seu processo que em Julho de 1623, andava ele pelos 47 anos, foi denunciado na Inquisição de Lisboa por só “mandar” dar a extrema unção aos doentes quando eles já estavam quase a morrer, quando “corria” com eles já há muito tempo. Referiu o caso do P.e Manuel  Brandão, a quem o médico “mandou” dar a comunhão à meia noite, quando o estava curando há mês e meio e estava o doente já “com a alma no papo”, tanto que nem pôde comungar e morreu no outro dia. O denunciante sublinhou que havia dois irmãos do médico fugidos à Inquisição, Filipe Rodrigues Montalto e Diogo de Luna  e também que a cunhada tinha sido condenada à morte.

A Inquisição não viu matéria suficiente para proceder e aguardou por mais prova.  Esta chegou em 6 de Junho de 1626. Francisco Rodrigues (Pr. n.º 5654) fez denúncia de declaração de judaísmo em forma, reportada a Maio de 1624. Na mesma data, Fernão Rodrigues Picapeixe declarou que na casa do médico estivera escondido Pedro Rodrigues, o Bandaio (Pr. n.º 5524), advogado,  fugido da cadeia da Covilhã onde estava preso, “por lhe acharem na algibeira um papel mau”. O foragido era filho de Perpétua Lopes, a Bandaia (Pr. n.º 3298), a qual era irmã de Pedro Lopes Aires, o Boi (Pr. n.º 5288).

A Inquisição achou que as denúncias eram já suficientes para emitir o decreto da prisão e ele deu entrada nos Estaus em 16 de Julho de 1626.

O réu permaneceu negativo muito tempo, enquanto se acumulavam as denúncias contra ele, como era habitual, depois da prisão. No início de 1629, também lhe deram culpas sua sobrinha Maria Aires e o marido Baltasar Lopes, depois de presos. Aproximava-se a data do auto da fé e o médico foi muito pressionado para confessar. Possivelmente sopraram-lhe também as denúncias da sobrinha e do marido. Aliás, estava já relaxado pelo Assento do Conselho Geral de 18 de Maio de 1629. Iniciou a “confissão” em 22 de Agosto de 1629; não tinha outra solução,  se não queria morrer. O processo foi acelerado para o réu ir ao auto da fé de 2 de Setembro seguinte, em que foi reconciliado.

Pediu para ficar em Lisboa, pois já nada tinha em Castelo Branco, onde a Inquisição lhe tinha vendido tudo.

 

Tomás da Fonseca

 

Depois das denúncias de Margarida Quaresma  e de Inês Correia, a 17 de Novembro e de Beatriz Barbosa a 20 do mesmo mês, apressaram-se os Inquisidores a decretar a prisão de Tomás da Fonseca, que foi levada a cabo a 21 de Novembro de 1609.

Permaneceu ele negativo até 2 de Maio de 1611, data em que começou a confessar. O Assento da Mesa de 6 de Junho de 1611 considerou-o diminuto por não denunciar seus cunhados Jerónimo Nunes e Pedro Rodrigues. Ambos já se encontravam no estrangeiro e possivelmente, ele julgaria que, por isso, não era obrigado a denunciá-los. Por isso, foi mandado a tormento, apenas para ser começado a atar.

Denunciou mais gente, mas deixou de fora de novo seu cunhado Pedro Rodrigues, pelo que o Assento da Mesa de 15 de Junho o mandou ir de novo a tormento e aí ser atado com a primeira correia. Não deu o nome do cunhado mas mesmo assim o Assento da Mesa de 16 de Junho permitiu a reconciliação com hábito penitencial perpétuo. Foi ao auto da fé de 31 de Julho de 1611.

 

 

Filipe Rodrigues Montalto

 

Já dediquei outra página a este personagem. Por isso, aqui, vou dar apenas dois pequenos apontamentos que julgo terem interesse.  O primeiro respeita a uma carta dele dirigida a seu cunhado Tomás da Fonseca (fls. 29 do seu processo), que já foi publicada por H.P. Salomon num artigo que saiu em França, com tradução para francês, que cito no final. Retoquei a redacção para se tornar mais compreensível nos tempos de hoje. A Inquisição ficou indignada com esta prosa e utilizou a carta como peça da acusação do cunhado:

 

É coisa injusta que se passe a vida em perpétuo silêncio, e que nem V. Mercê queira saber de mim, nem eu o obrigue a dar-me novas de si; se me constasse que as minhas cartas não lhe seriam prejudiciais, prosseguiria esta amável comunicação, na falta da pessoal. A pena é dobrada quando, além da ausência, são negadas ao homem novas de quem ama, e se V. Mercê conspira com os demais, direi de todo  extraneus factus sum fratribus meis. [1].  Eis-nos em estado que não sabemos de V. Mercês, e se alguma nova temos de alguma parte, é imperfeita e incerta, e inquieta-nos muito in diluvio aquarum multarum [2], como por aqui se diz. Gostaria de poder mandar uma viva repreensão, e que com eficácia soubesse exprimir a pouca razão que V. Mercê tem de estar tão afeiçoado a essa terra, pois sendo certo que cadent a latere tuo mille, et decem millia a dextris tuis, [3] grande favor do céu é necessário para assegurar ad te autem non appropinquabit [4], tanto mais que demonstra ser pouco sensível quem tem coragem para ver semelhantes espectáculos. Dos nossos corações, posso testemunhar que a ausência, ainda que longa, não diminui, antes aumenta o amor, cujo primeiro efeito é desejar sumamente ver a V. Mercê, não para remédio de nossas penosas saudades, porque isso seria interesse pessoal, mas para que V. Mercês gozem da quietude da alma e dos mais bens que Nosso Senhor dá a quem ama, fora dessa estância. E não só desejamos mas também pedimos ao Autor de todos os bens que conceda a V. Mercês essa felicidade.

Do senhor Doutor constou ter vindo para Madrid, com intenção de vir para Antuérpia ou para Florença. Esta notícia, ainda que incerta, nos alegrou muito principalmente por nos parecer que não viria sozinho. Porém, nesta incerteza estamos solícitos e V. Mercês até a comunicação das suas intenções nos negam. esperamos que se emendem.

Minha esposa encomenda-se em V. Mercês com muita saudade; o mesmo fazem os meninos.  Rafael esteve doente de uma gravíssima enfermidade, da qual foi Nosso Senhor servido por sua misericórdia que ele escapasse; seja para o Seu serviço, mas ficou-lhe um cirro no ventre que não o deixa recuperar perfeita saúde há muitos meses, e ainda nos inquieta.

Nosso Senhor guarde e prospere a V. Mercê em companhia da Sr.ª D. Isabel. Querendo V. Mercê fazer-me a mercê de me escrever, seja com envelope para Ruy Lopez e Diogo Rodrigues.

 

[1] Salmo 68,9 – tornei-me num estranho para os meus irmãos.

[2] Salmo 32,6 – no dilúvio de grandes águas

[3] Salmo 91,7 – caem mil a teu lado e dez mil à tua direita

[4] Idem, - que tu não serás atingido

 

 

É pouco conhecido entre nós um livrinho de Bento de Castro, filho de Rodrigo de Castro, com o título

Philotheo Castello ou Bento de Castro, Flagellum Calumniantium seu apologia in qua anonymi cujusdam calumniae refutantur ejusdem mentiendi libido detegitur, clarissimorum Lusitanorum medicorum legitima methodus commendatur, empiricorum inscitia ac temeritas tamquam perniciosa reipublicae damnatur,auctore Philotheo Castello, Dulce bello inexpertis, Amstelrodami, 1631.

  

Como é normal, Bento de Castro faz um elogio entusiasta de seu pai (pags. 66 e ss.), mas refere depois elogiosamente também outros médicos judeus:

Henrique Rodrigues, Tomás Rodrigues da Veiga, Luis de Mercado, Pedro de Peramato, Estêvão Rodrigues de Castro, Rodrigo da Fonseca, Ambrósio Nunes, Luiz de Lemos, Manuel Nunes, Pedro Vaz de Castela, Elias Montalto, Amato Lusitano, Abraão Nehemias e Zacuto Lusitano. 

O livro tem interesse quanto mais não seja para identificar como judeus os médicos que refere.

O autor usava o nome  Baruch Nahamyas de Castro. Faleceu em 31 de Janeiro de 1684.

Pois Bento de Castro dedica ao Dr. Filipe Rodrigues Montalto, estes parágrafos:

 

 

Ostentat sese in limine Elianus Montalto totius naturæ interpres mirabilis, secretioris philosophiæ præstantissimus alumnus, et sacrosanctæ theologiæ solertisimus magíster. Hic postquam de visu absolutam theoriam euulgavit, et Archipathologiam, morte præventus est, sin minus admirabile habebat opus de fabrica mundi, de animæ immortalitate, de febribus ad Galeni mentem et alia. Hic vir præfuit saluti Mariæ Galliarum et Navaræ Reginæ et Christianissimo Regi, quorum fuit intimus consiliarius, diligens, acutus, gravis, imo inculpatæ vitæ perfectissimum exemplar.

 

Logo de início, apresenta-se-nos Eliano Montalto admirável intérprete de toda a Natureza, estudioso excelentíssimo da filosofia  mais profunda e mestre competentíssimo da sacrossanta teologia. Depois de publicar a teoria completa do rosto e a Arquipatologia, foi apanhado pela morte, caso contrário, tinha (que maravilha!) uma obra sobre a origem do mundo, outra sobre a imortalidade da alma, outra sobre as febres segundo Galeno e outras.  Este homem cuidou da saúde de Maria, Rainha das Gálias e de Navarra e do Rei Cristianíssimo, dos quais foi íntimo Conselheiro, diligente, agudo, grave, mesmo um perfeitíssimo exemplo de uma vida sem mácula.

 

 

 

 

TEXTOS CONSULTADOS

 

José Lopes Dias - Laços familiares de Amato Lusitano e Filipe Montalto (novas investigações) - Colóquio de História da Medicina,, Lisboa, 1961, 31 pgs.- Separata da Imprensa Médica A 25, Fev. 1961

 

H. P. Salomon - Une lettre jusqu'ici inédite du docteur Felipe Rodrigues Montalto (Castelo Branco, 1567 - Tours, 1616), Paris, Fund. Calouste Gulbenkian, Centre Culturel Portugais, 1983, pgs. 151-169

 

Amati Lusitani Medici ac philosophi celeberrimi In Dioscoridis Anazarbei de medica materia libros quinque enarrationes eruditissimae, quibus etiam tum simplicium medicamentorum nomenclaturae graecae, latinae, italicae, germanicae, et gallicae proponuntur (...)
Venetiis: ex officina Iordani Zilleti, 1557

online: http://web2.bium.univ-paris5.fr/livanc/?cote=07759&do=chapitre

 

António Manuel Lopes AndradeAs tribulações de Mestre João Rodrigues de Castelo Branco (Amato Lusitano) à chegada a Antuérpia, em 1534, em representação do mercador Henrique Pires, seu tio materno, Medicina na Beira Interior. Da Pré-História ao Sec. XX – Cadernos de Cultura N.º 23

online: www.historiadamedicina.ubi.pt/cadernos_medicina/vol23.pdf

 

Philotheo Castello ou Bento de Castro, Flagellum Calumniantium seu apologia in qua anonymi cujusdam calumniae refutantur ejusdem mentiendi libido detegitur, clarissimorum usitanorum medicorum legitima methodus commendatur, empiricorum inscitia ac temeritas tamquam perniciosa reipublicae damnatur,auctore Philotheo Castello, Dulce bello inexpertis, Amstelrodami, 1631

Online: http://dibiki.ub.uni-kiel.de/viewer/toc/PPN49585297X/1/