10-8-2015

 

 

Diogo Correia do Vale e seu filho Luis Miguel, relaxados pela Inquisição em 1732

 

 

 

O médico Diogo Correia do Vale, nascido por volta de 1670, viveu toda a vida com o desgosto de ser cristão novo e no terror da Inquisição. Contava ele uma história dizendo que não era filho biológico dos pais com quem tinha sido criado, mas que havia sido por eles adoptado e por isso se considerava cristão velho. Em face do processo, constata-se que a Inquisição não ligou nenhuma a isto.

Pertencia ele aos Vales de Vila Real, uma extensa família de cristãos novos, bastante fechada, pois encontram-se muitos casamentos entre primos direitos e entre tios e sobrinhas. Por isso, o médico nunca quis viver em Vila Real e só lá esteve com a família uma vez, durante um ano e pouco, mas regressou logo ao Porto. Manteve sempre alguma distância dos seus familiares.

Também na profissão sofria por ser cristão novo, porque, quando conseguia alguma nomeação pública como médico de partido ou de um Hospital, logo havia alguém que o acusasse da impureza do seu sangue que não lhe permitia ocupar o lugar.

A esposa terá morrido cedo, depois de lhe dar quatro filhos, dos quais uma menina morreu criança. Criou ele os dois filhos e entregou a sua filha a parentes de Vila Real, onde ela esteve mais ou menos até aos 18 anos. Foi buscá-la depois, quando faleceu sua irmã Rosa Maria, a quem ela estava então entregue. Quando foi para o Brasil, confiou-a a um Convento, onde a Inquisição a foi buscar para ser penitenciada.

Não terá sido fácil para ele educar os dois rapazes. O Luis Miguel, que foi relaxado pela Inquisição, fez os estudos preparatórios no Porto e estudou Medicina em Coimbra durante dois anos, mas depois desistiu. O outro, Manuel, deveria ser certamente um jovem rebelde, que a certa altura pôs arsénio num copo de leite que deu ao pai, que esteve muito doente por isso cerca de um ano. A justiça prendeu o Luís Miguel, mas depois soltou-o. O Manuel fugiu e embarcou como soldado para a Índia e não mais deu notícias. Segundo alguns testemunhos, o médico intentou a certa altura contrair casamento com uma mulata, o que deixou os dois filhos furiosos e teria levado o Manuel àquele crime contra seu pai.

Sempre acossado pelo medo da Inquisição, decidiu então o médico partir para o Brasil com seu filho Luís Miguel. E, de facto, ainda ele não tinha embarcado em 1725, já um tal Francisco Gabriel Ferreira estava a denunciá-lo.  Também a Inquisição tinha agora atentado naquela extensa família de cristãos novos, excelente material para deles se ocupar. A máquina pôs-se em movimento, prenderam-se uns poucos que denunciaram muitos mais da família e assim deram cerca de quarenta processos, conforme mapa a seguir. A maior parte seguiu as regras, desempenhando o papel que deles era esperado: confessaram ser crentes judeus e acusaram disso os parentes e umas dezenas de pessoas conhecidas. Quatro não quiseram representar essa peça e foram relaxados. Embora os processos fossem de Coimbra, vieram ao auto da fé em Lisboa e, talvez por isso, perderam-se dois processos (Simão Mendes do Vale e Lourenço do Vale de Leão).

Como sempre acontecia, os parentes do médico acusaram-no a ele e a seu filho de judaísmo. Assim, quando foram passados os mandados de prisão contra eles, já se tinham acumulado na Inquisição várias dezenas de denúncias contra eles. Desde o início do séc. XVIII, a Inquisição vinha a prender cristãos novos no Brasil com abundância, pois ali era terreno ainda algo virgem. E não faltavam lá comissários e familiares para levar a efeito as prisões. O tráfego de navios de mercadorias era muito intenso e não era muito difícil arranjar lugar para alguns passageiros mais.

Como muitos outros, o médico e seu filho tiveram a ilusão de que era possível defenderem-se: afinal chamava-se Tribunal da Inquisição. Era pura ilusão. Nesta altura, tornava-se já impossível qualquer defesa no processo inquisitorial. A contestação por negação nunca foi aceite como tal. No processo do médico, ele indica umas dezenas de testemunhas, mas nem metade foram ouvidas.  Quanto às coarctadas e contraditas. o procurador escreveu todas as que o médico lhe disse, gastaram-se rios de tinta a ouvir as testemunhas, mas a Mesa limita-se a dizer no assento: “Não provou”.

Só quando se viu de mãos atadas, 48 horas antes do auto, é que o médico se lembrou de fazer uma confissão e denúncias um pouco desajeitadas, que os inquisidores já não estavam dispostos a aceitar.

O filho seguiu o mesmo caminho. Aliás ele sempre quisera demonstrar que era bom católico e quereria era ser clérigo, mas não o deixavam pela impureza do seu sangue.

Estou convencido que o procurador em ambos os processos, o Licenciado José Rodrigues Leal, era contraproducente para estes Réus. Com uma letra óptima, redigindo muito bem, dava a ilusão de que estava a fazer uma boa defesa, eficiente e proveitosa. Ora, como sabemos, no processo da Inquisição, não havia defesa possível, mas ele estava a mostrar o contrário.

Para completar a peça teatral, as testemunhas eram nesta altura reperguntadas. Mas nem o procurador assistia aos interrogatórios, nem lhe era dado conhecimento do resultado deles. E. mesmo que as testemunhas se desdissessem ou modificassem datas ou lugares, nada disso aproveitava ao pobre do Réu. Além disso, ao serem reperguntadas, era lido às testemunhas o primeiro depoimento, para evitar ou diminuir as contradições.

 

 

GENEALOGIA

 

Diogo do Vale casou com Branca de Leão e tiveram oito filhos:

 

1-José do Vale de Leão foi casado com Catarina da Fonseca, falecida  e teve

                 Manuel do Vale, já defunto, casado com Leonor do Vale, de quem teve um filho chamado José Rafael do Vale (não aparece o processo; é o n.º 23 do AdF de 29—5-1729), casado com Mariana do Vale (não aparece o processo; é o n.º 27 do AdF de 29-5-1729) e não tiveram filhos.

                 Mariana da Fonseca (Pr. n.º 9079, de Coimbra), solteira

                 Ana da Fonseca, RELAXADA foi a AdF em Lisboa em 16-10-1729 (Pr. n.º 8267, de Coimbra), casou com seu primo Duarte Cordeiro e tiveram

                                               Luis Cordeiro do Vale, advogado – (pr. n.º 9971 e 9971-1, da Inq. de Lisboa), que casou com Maria Madalena sua prima

                 Branca da Fonseca ou Branca de Leão (Pr. n.º 8178, de Coimbra) , solteira

                 Madalena da Fonseca ou Madalena de Leão, falecida, foi casada com Simão Mendes do Vale, advogado, de quem teve um filho chamado Rafael Mendes de Leão (Pr. n.º 4856, de Coimbra) , advogado, solteiro

 

2-Pascoal do Vale foi casado com Isabel Mendes de quem teve:

                 Gaspar Cardoso de Lima (Pr. n.º 6238-1, de Coimbra), advogado

                 Baptista não sabe de quê e é já defunto

                 Arcângela do Vale (Pr. n.º 4699, de Coimbra) , solteira

                 Guiomar Henriques (não aparece o processo; é o n.º 43 do AdF de 9-5-1728), idem

                 Francisca Cordeira (não aparece o processo; é o n.º 47 do AdF de 9-5-1728), idem

                 Mariana, casada com seu primo José Rafael acima nomeado

                              Teve dois filhos bastardos

                                                            Pascoal Cardoso (não aparece o processo; é o n.º 20 do AdF de 29-5-1729), solteiro, sem filhos

                                                            Manuel de Leão, já defunto, foi casado com Maria da Silva, de que teve:

                                                                                          João Baptista (Pr. n.º 8021, de Coimbra), solteiro

                                                                                          Joana Maria (não aparece o processo – é o n.º 28 do AdF de 25-5-1727), solteira, sem filhos

 

3-Isabel do Vale foi casada com António Mendes, o “Pitel” e não tiveram filhos

 

4- Ângela de Mesquita, já defunta, foi casada com Diogo Lopes ou Diogo Lopes Dias e tiveram:

               Diogo Lopes, morreu solteiro, sem filhos

               Pedro, que se ausentou para a Índia

               Manuel, idem

               José foi para Castela

               Branca vive em Trujillo – España, casada com José de Contreira, não sabe se tem filhos

               Mariana, idem

               Luisa do Vale, solteira – Pr. n.º 3077 - Coimbra

               Luis do Vale, solteiro – Pr. n.º 5861 - Coimbra

               Brites Henriques, solteira – Pr. n.º 7344 - Coimbra

               Filipa do Vale, solteira, RELAXADA – Pr. n.º 8827 – Coimbra, foi a AdF em Lisboa em 16-10-1729

               António do Vale de Mesquita, falecido (Pr. n.º 4440, da Inq. de Lisboa),  casado com Helena do Vale,

 

5- Catarina de Leão, foi casada com Pascoal Cordeiro Lima teve:       

                Diogo do Vale Cordeiro – Pr. n.º 8881 e 8881-1, da Inq. de Lisboa , que casou com Violante Henriques, já falecida,  e tiveram:

                              Pascoal do Vale, solteiro – Pr. n.º 8887, de Coimbra

                              João Mendes do Vale – Pr. n.º 5467, de Coimbra

                Antes o marido fora casado com Branca de Leão e tivera

                             Isabel do Vale (Pr. n.º 3226, de Coimbra), viúva de António Mendes

                             Lourenço do Vale de Leão, solteiro,  (não aparece o processo; foi RELAXADO no AdF de 16-10-1729, em Lisboa)

                             Bernardo do Vale (não aparece o processo; é o n.º 21 do AdF de 9-5-1728)

                             Manuel Jerónimo, falecido em pequeno

                 .           Duarte, falecido em pequeno

                Bastardo do marido:

                Sebastião Ferreira (não aparece o processo – é o n.º 37 do AdF de Lisboa de 17-6-1731), casado com Maria de Figueiredo, de quem não tem filhos

                Rafael Mendes do Vale (pr. n.º 2643 e 2643-1, de Lisboa), viúvo de  Rosa Maria  ou Rosa  de Mesquita que tiveram

                                Leonor Maria, solteira – Pr. n.º 9763, de Coimbra

                                Violante Maria, solteira – pr. n.º 4703, de Coimbra

                                Ana Bernarda, solteira – Pr. n.º 5138, de Coimbra

                                Maria Madalena ( pr. n.º 6340, de Coimbra), que casou com seu primo Luis Cordeiro do Vale (Pr. n.º 9971 e 9971-1, de Lisboa)

                                Duarte

                                Diogo

                                Isabel Josefa (não aparece o processo; é o n.º 47 do AdF de 9-5-1728)

                                Josefa

                                Josefa Caetano (não aparece o processo; é o n.º 39 do AdF de 9-5-1728)

                                Mariana Josefa, a mais nova com cerca de 9 anos.

                Duarte Cordeiro do Vale, que casou com Ana da Fonseca e tiveram:

                              Luis Cordeiro do Vale, advogado – pr. n.º 9971 e 9971-1, da Inq. de Lisboa, que casou com Maria Madalena sua prima e têm três filhas de pouca idade, Clara, Antónia e Engrácia.

                mais um irmão bastardo, filho de Pascoal Cordeiro Lima, António Cordeiro Lima, viúvo de Maria Fernandes, de quem teve Diogo Cordeiro e Violante (Pr. n.º 8272, de Coimbra) , ambos solteiros.

 

6 – Maria de Leão, que casou com Rafael Mendes e tiveram

                              Simão Mendes Vale (não aparece o processo; foi RELAXADO no AdF de 16-10-1729, em Lisboa), advogado, viúvo de Madalena de Leão

                              Violante Henriques, falecida, que foi casada com Diogo do Vale Cordeiro

                              Leonor do Vale, que foi casada com Manuel do Vale

                              António Mendes do Vale (Pr. n.º 7463, de Coimbra) viúvo de Leonor Mendes, que teve entre outros filhos

                                                                            Heitor Mendes do Vale (Pr. n.º 7318, de Coimbra)

                                                                            Josefa Teresa (não aparece o processo; é o n.º 21 do AdF de 29-5-1729)

                                                                            Maria Teresa de Leão (Pr. n.º 9783, de Coimbra)

                                                                            Teresa Bernarda (Pr. n.º 6285, de Coimbra)

                               Bernarda de Leão, solteira – Pr. n.º 7001, de Coimbra

                               Brites do Vale, que morreu solteira

                               Isabel Henriques, que vive na Beira, casada com Francisco Nunes de Carvalho

7 – Manuel do Vale, falecido, deixando viúva Ana da Fonseca e filhos de que não sabe o nome e ausentaram-se todos para Trujillo no reino de Castela

 

8-Violante de Mesquita casou com Luis Correia e tiveram:

                Diogo Correia do Vale (Pr. n.º 821, de Lisboa), RELAXADO,  é viúvo de Isabel Mendes, de quem teve quatro filhos:

                                Violante, que morreu de 3 ou 4 anos

                                Brites Caetana (Pr. n.º 3069, de Coimbra)

                                Luis Miguel Correia (Pr. n.º 9249, de Lisboa), RELAXADO

                                Manuel Luis, foi para a Índia, onde teve a notícia que falecera

                Francisco Correia, defunto

                José Correia, foi casado não sabe com quem e não teve filhos, ausente do Reino

                Manuel Correia, faleceu de pouca idade

                Rosa Maria de Mesquita, que foi casada com Rafael Mendes do Vale, acima mencionado

                Isabel de Mesquita (Belica), faleceu solteira e sem filhos

 

 

irmão de Pascoal Cordeiro Lima, casado com Catarina de Leão:

-Gaspar Mendes, casado com Fulana de Vargas, ou Vergas, de quem teve dois filhos e uma filha:

               Rafael Mendes foi casado com Maria de Leão de quem teve dois filhos e 5 filhas, referidos supra

               José Mendes, que morreu solteiro e sem filhos

               Isabel Mendes, já defunta, foi casada com Pascoal do Vale

 

 

 

Processo n.º 821, da Inquisição de Lisboa, contra Diogo Correia do Vale, de 56 anos, viúvo de Isabel Mendes, natural da cidade de Sevilha, em Espanha e morador nas Minas de Ouro Preto – Brasil,

 

fls. 5 img. 9 – 1-9-1729 – Mandado de prisão

fls. 6  img 11 . 1-5-1730 –Em Vila Rica – Brasil, uma autoridade com o nome qualquer coisa Lourenço de Almeida informa por carta que, cumprindo mandados da Inquisição de Lisboa, mandou prender Diogo Correia do Vale e seu filho, Luis Miguel Correia. Este último, ao ser preso, disse: “Dizem que o Santo Ofício é recto, agora vejo que não, porque prende aos homens inocentes”.  Foi mandado calar. Ficaram presos à espera de transporte e embarque para Lisboa.

fls. 9 img. 17 – 12-10-1730 – Entrega do Réu nos cárceres dos Estaus.

fls. 9 v img. 18 – 12-10-1730 – Ficou na cela segunda do Pátio Novo.

CULPAS

fls. 10 img. 19 – 26-4-1725 – Depoimento de Francisco Gabriel Ferreira (Pr. n.º 9669, de Coimbra) – Disse que o Réu quer fugir para o Brasil e presume que é por seguir a Lei de Moisés, tal como ouviu dizer que o faz.

fls. 11 v img. 22 – 28-11-1725 – Dep. de Gabriel d’Estrada (não aparece o processo – é o n.º 38 do AdF de 30-6-1726) – Declaração de judaísmo em forma há 5 anos na cidade do Porto

NB. No início de 1727, já o Réu tinha ido para o Brasil.

fls. 13 v img. 26 – 27-3-1727 – Dep. de Joana Maria, solteira, filha de Manuel de Leão (não aparece o processo – é o n.º 28 do AdF de 25-5-1727) - Declaração de judaísmo em forma há 10 anos na cidade de Vila Real.

fls. 15 img. 29 – 7-6-1727 – Dep. de Luisa do Vale (pr. n.º 3077, de Coimbra), filha de Diogo Lopes - Declaração de judaísmo em forma há 15 anos na cidade de Vila Real, em casa da deponente.

fls. 17 img. 33 – 6-6-1727 – Dep. de João Mendes do Vale (Pr. n.º 5467, de Coimbra), solteiro, filho de Diogo do Vale - Declaração de judaísmo em forma há 14 anos na cidade do Porto, em casa do Réu.

fls. 19 img. 37 – 7-6-1727 – Dep. de Branca de Leão (Pr. n.º 8178, de Coimbra). solteira, filha de José do Vale - Declaração de judaísmo em forma há 15 anos na cidade de Vila Real, em casa da deponente.

fls. 21 img. 41 – 24-5-1727 – Dep. de Maria Madalena (Pr. n.º 6340, de Coimbra), casada com Luis Cordeiro do Vale, Advogado - Declaração de judaísmo em forma há 10 anos na cidade de Vila Real, em casa de Rafael Mendes do Vale, pai da deponente.

fls. 22 v img. 44 – 7-6-1727 – Dep. de Mariana da Fonseca (Pr. n.º 9079, de Coimbra), solteira, filha de José do Vale - Declaração de judaísmo em forma há 13 anos na cidade de Vila Real, em casa da deponente.

fls. 24 v img. 48 – 26-6-1727 – Dep. de Josefa Caetano (não aparece o processo – é o n.º 39 do AdF de 9-5-1728), solteira, filha de Rafael Mendes do Vale - - Declaração de judaísmo em forma há 3 anos na cidade de Vila Real, em casa da deponente.

fls. 26 img. 51 – 6-8-1727 – Dep. de Josefa Teresa (não aparece o processo – é o n.º 21 do AdF de 29-5-1729), solteira, filha de António Mendes do Vale - Declaração de judaísmo em forma há 9 anos e 8 meses na cidade de Vila Real, em casa da deponente.

fls. 27 v img. 54 – 5-9-1727 – Dep. de António Mendes do Vale (Pr. n.º 7643, de Coimbra), viúvo de Leonor Mendes . - Declaração de judaísmo em forma há 15 anos na cidade de Vila Real, em casa do deponente.

fls. 29 v img. 58 – 6-6-1727 – Dep. da filha do Réu, Brites Caetana (Pr. n.º 3069, de Coimbra) - Declaração de judaísmo em forma há 9 anos e meio na cidade do Porto, em casa do pai da deponente, o Réu.

fls. 32 img. 63 – 26-9-1727 – Dep. de Rafael Mendes de Leão (Pr. n.º 4856, de Coimbra), solteiro, filho de Simão Mendes do Vale - Declaração de judaísmo em forma há 12 anos na cidade de Vila Real, em casa do Réu.

fls. 36 img. 71 – 5-4-1727 – Dep. de Gaspar Cardoso de Lima (Pr. n.º 6238-1, de Coimbra), solteiro, advogado - Declaração de judaísmo em forma há 25 anos na cidade de Vila Real, em casa de sua tia, Isabel do Vale.

fls. 37 img. 74 – 15-7-1727 – Dep. de Bernardo do Vale (não aparece o processo – é o n.º 21 do AdF de 9-5-1728), solteiro, estudante, filho de Diogo do Vale Cordeiro – refere os seus parentes ausentes no Brasil, dos quais lhe têm dito que seguem a Lei de Moisés.

fls. 39 img. 77 – Repete o depoimento de Luísa do Vale que já estava a fls. 13 v img. 26.

fls. 40 img. 79 – 7-10-1727 – Dep. de Guiomar Henriques  (não aparece o processo – é o n.º 43 do AdF de 9-5-1728), solteira, filha de Pascoal do Vale - Declaração de judaísmo em forma há 14 anos na cidade de Vila Real, em casa do Réu.

fls. 41 img. 81 – 10-9-1727 – Dep. de Luis do Vale (Pr. n.º 5861, de Coimbra), solteiro, filho de Diogo Lopes Dias e de Ângela de Mesquita - - Declaração de judaísmo em forma há 30 anos na cidade de Vila Real, em casa dele deponente.

fls. 42 v img. 84 – 25-9-1727 – Dep. de Francisca Cordeira (não aparece o processo – é o n.º 47 do AdF de 9-5-1728), solteira, filha de Pascoal do Vale - - Declaração de judaísmo em forma há 15 anos na cidade de Vila Real, em casa da deponente.

fls. 43 v img. 86 – 27-8-1727 – Dep. de Isabel Josefa (não aparece o processo – é o n.º 55 do AdF de 9-5-1728), solteira, filha de Rafael Mendes do Vale - - Declaração de judaísmo em forma há 6 anos na cidade de Vila Real, em casa do pai da deponente.

fls. 44 v img. 88 – 31-7-1727 – Dep. de Violante Maria (Pr. n.º 4703, de Coimbra), solteira, filha de Rafael Mendes do Vale - - Declaração de judaísmo em forma há 6 anos na cidade de Vila Real, em casa do pai da deponente.

fls. 46 img. 91 – 21-7-1727 – Dep. de Arcângela do Vale (Pr. n.º 4699, de Coimbra), filha de Pascoal do Vale - Declaração de judaísmo em forma há 14 anos na cidade de Vila Real, em casa da deponente.

fls. 47 v img. 94 – 2-10-1727 – Dep. de Ana Bernarda (Pr. n.º 5138, de Coimbra), solteira de 13 anos, filha de Rafael Mendes do Vale. - Declaração de judaísmo em forma há ano e meio na cidade de Vila Real, em casa de seu segundo tio, José do Vale.

fls. 48 img. 96 – 20-9-1727 – Dep. de Brites Henriques (Pr. n.º 7344, de Coimbra), solteira, filha de Diogo Lopes - - Declaração de judaísmo em forma há 17 anos na cidade de Vila Real, em casa da deponente.

fls. 50 img. 99 – 10-12-1727 – Dep. de Maria Teresa de Leão (Pr. n.º 9783, de Coimbra), solteira, filha de António Mendes do Vale. - Declaração de judaísmo em forma há 9 ou 10 anos na cidade de Vila Real, em casa de Rosa Maria.

fls. 51 img. 101 – Depoimento repetido. Já está a fls. 27 v img. 54

fls. 53 img. 105 – 19-12-1727 – Dep. de Teresa Bernarda (Pr. n.º 6285, de Coimbra),solteira, filha de António Mendes do Vale. - Declaração de judaísmo em forma há 5 anos na cidade de Vila Real, em casa dela deponente.

fls. 54 img. 107 – 12-11-1727 – Dep. de Leonor Maria (Pr. n.º 9763), solteira, filha de Rafael Mendes do Vale.- Declaração de judaísmo em forma há 6 anos na cidade de Vila Real, em casa dela deponente.

fls. 55 v. img. 110 – 12-6-1727 – Dep. de Gaspar Dias Fernandes, médico (Pr. n.º 6378-1), casado, natural de Muxagata e residente na cidade do Porto.

fls. 57 v. img. 114 – 3-11-1727 – Dep. de Ana da Fonseca (Pr. n.º 8267, de Coimbra ), viúva de Duarte Cordeiro. - Declaração de judaísmo em forma há 24 para 25 anos na cidade de Vila Real, em casa do Réu.

fls. 59 img. 117 – 26-4-1728 – Dep. de Mariana do Vale (não aparece o processo – é o n.º 27 do AdF de 29-5-1729), casada com José Rafael - .- Declaração de judaísmo em forma há 14 anos na cidade de Vila Real, em casa dela deponente.

fls. 60 img. 119 – 2-9-1728 – Dep. de Pascoal Cardoso (não aparece o processo – é o n.º 20 do AdF de 29-5-1729) - Declaração de judaísmo em forma há 7 ou 8 anos na cidade de Vila Real- - não indica o local.

fls. 61 img. 121 – 28-4-1728 – Dep. de José Rafael do Vale (não aparece o processo – é o n.º 23 do AdF de 29-5-1729), casado com Mariana do Vale.- Declaração de judaísmo em forma há 6 anos em Arrifana de Sousa e Feira de S. Martinho.

fls. 62 v img. 124 – 18-5-1729 – Dep. de Gaspar Cardoso de Lima (Pr. n.º 6238 e 6238-1, de Coimbra), solteiro, filho de Pascoal do Vale de Leão - Declaração de judaísmo em forma há 20 ou 21 anos em casa de sua prima Mariana de Mesquita.

fls. 65 img. 129 – 15-10-1729 – Dep. de Simão Mendes do Vale (não aparece o processo – foi relaxado no AdF em Lisboa, de 16-10-1729) - Declaração de judaísmo em forma há 24 para 25 anos na cidade de Vila Real, em casa do Réu.

fls. 66 img. 131 – 12-10-1729 – Dep. Lourenço do Vale de Leão (não aparece o processo – foi relaxado no AdF em Lisboa, de 16-10-1729) - Declaração de judaísmo em forma há 6 para 7 anos na cidade de Vila Real, em casa do Réu.

fls. 70 img. 139 – 12-10-1730 - Inventário

Disse não ter bens de raiz e que de bens móveis, tinha os seguintes:

        - Uma mula e um cavalo; a mula custou 50 oitavas de ouro e valerá 80, ou cem mil réis; o cavalo custou 120 oitavas de ouro, mas está doente e aberto dos peitos e valerá apenas 48 mil réis.

        - Dois escravos, um que custou 180 mil réis e valerá 300 ou 400 e outro que tinha custado cem oitavas de ouro e valerá apenas o mesmo por ser doente.

       - Um leito de campanha e tamboretes que valerão 30 mil réis

       - Tem 5 ou 6 oitavas de ouro e 5 ou 6 mil réis em prata.

       -Tem alguns livros que valerão 30 000 réis

      - Deve a Francisco da Costa, do Rio de Janeiro, 50 ou 60 oitavas de ouro por ajuste de contas.

      - Devem-lhe algumas assistências como médico, que indicou ao Juiz do Fisco quando o prenderam.

fls. 72 img. 143 – 9-2-1731 – Mais inventário –

Pediu audiência para dizer que Manuel Francisco Seara, boticário do Rio de Janeiro lhe emprestara 8 moedas de ouro no valor de 4 800 réis cada uma, deixando ele na botica ingredientes  de um valor um pouco superior.

Disse que ele tinha comprado um escravo mulato chamado Manuel por 300 000 réis a pagar no tempo que constava de um crédito que ele passou a um clérigo de que não se lembra o nome.

fls. 74 img. 147 – 5-1-1731 – GENEALOGIA

Chama-se Diogo Correia do Vale, é natural de Sevilha, reside nas Minas do Ouro Preto, Bispado do Rio de Janeiro.

Genealogia como no quadro acima. Mas o Réu acrescentou que “Violante de Mesquita reputada por sua mãe lhe disse a ele declarante, que seus pais verdadeiros não eram Luís Correia, acima nomeado, como também ela dita Violante de Mesquita não era sua mãe, mas que, dando-se-lhe a ele declarante com poucos dias de idade, para se criar em sua casa e sustentar com o seu leite, em que se não buscava como de capaz para a sua criação, como neste tempo morresse um filho que ela tinha, ficou ele declarante criado por filho, e reputado por tal, dos pais acima mencionados”.

Esta deveria ser uma “história” para não ser considerado cristão novo, mas aparentemente a Inquisição não lhe ligou nenhuma importância.

Da parte de seu pai, não teve tio algum.

Formou-se em Medicina e exerceu a profissão de médico na cidade do Porto, em Pinhel e depois nas Minas de Ouro Preto.

Tem vários parentes presos, conforme processos indicados na genealogia supra.

fls. 80 img. 159 – 2-2-1731 – Sessão in genere

Respondeu negativamente a todas as questões.

fls. 84 img. 167 – 3-2-1731 – Sessão in specie

Disse que eram falsas todas as acusações.

fls. 97 img. 193 – 9-7-1731 – Admoestação antes do libelo. Libelo. Ouvida a leitura, disse o Réu que contestava tudo por negação, que tinha defesa com que vir e queria que lhe nomeassem procurador.

fls. 106 img. 211 – 27-7-1731 – Foi-lhe dado como procurador o Licenciado José Rodrigues Leal que prestou juramento.

fls. 106 v img. 212 – 27 e 28-7-1731 – Estância com o procurador

fls. 107 img. 213 – Traslado do libelo devolvido pelo procurador.

fls. 116 img. 231 – Defesa:

1 – O Réu sempre foi bom católico

2-Sempre cumpriu com todas as obrigações de católico

3-Sendo médico do Hospital do Porto sempre tratou com caridade os doente, e fora do Hospital, não levava dinheiro aos doentes pobres e até lhes pagava os remédios na botica.

4-O Réu sempre viveu como cristão velho, pois sua mãe disse-lhe que ele era filho de pais pobres que o tinham entregue a eles em pequenino.

5-Por isso, sempre se considerou como cristão velho, não conviveu com cristãos novos. E são falsas todas as acusações articuladas no libelo.

Indica testemunhas.

fls. 118 img. 235 – 28-7-1731 – Despacho recebendo a defesa e mandando interrogar as testemunhas.

fls. 119 img. 237 – 5-9-1731 – Comissão da Inquisição de Lisboa à Inquisição de Coimbra para mandar interrogar as testemunhas de defesa.

fls. 123 img. 245 – 24-10-1731 – Comissão da Inquisição de Coimbra ao Licenciado Manuel dos Reis Bernardes, Cónego da Sé do Porto e Comissário do Santo Ofício.

fls. 124 img. 247 – 29-10-1731 – Aceitação da Comissão. Audição das testemunhas

- Baptista Luísa, mulher de Manuel Peixoto, ourives, de 55 anos, natural de S.to Ildefonso – disse que não conheceu ao Réu obras que não fossem de cristão, mas não sabe se ele fez caridade com os pobres; porém que o Réu era tido no Porto como cristão novo.

- Mariana do Monte Calvário, donzela, de 55 anos, moradora em Santo Ildefonso – Conhece o Réu há mais de 12 anos, por ele ter curado uma sua sobrinha, tem em boa conta a sua cristandade. Sabe que ele se confessava, e tem o Réu por bom cristão. Sabe que ele por vezes não levava dinheiro aos pobres para os curar. Mas sempre foi tido por cristão novo na cidade do Porto.

- Manuel Peixoto, ourives, de 62 anos, morador na Porta de carros, extra muros da cidade do Porto – Tem bom conceito do Réu e considera-o bom cristão. Sabe que ele se confessava e comungava regularmente. Mas era tido por cristão novo.

- Padre Mestre José da Silva, da Congregação do Oratório, de 56 anos – Disse que o Réu era tido por bom católico e nunca lhe viu acção que demonstrasse estar apartado da fé. Frequentava regularmente os sacramentos e assistia à missa dominical. Também usava de caridade nas suas curas e por vezes fazia-as mesmo de graça. Sabe que o Réu era tido por cristão novo.

- Padre João da Costa, Conventual da Congregação do Oratório, de 42 anos -  Disse que conhecia bem o Réu, e que este tinha todos os exteriores de bom católico, nunca lhe ouviu palavras ou viu acções que provassem o contrário. Frequentava regularmente os sacramentos  Foi médico do Hospital onde cuidava bem dos enfermos. Era considerado como cristão novo, tendo vindo de Vila Real para o Porto.

fls.129 img. 257 30-10-1731

- Padre João Jácome, da mesma Congregação, de 72 anos – Depoimento idêntico aos anteriores.

- Domingos de Freiras, cirurgião morador na cidade do Porto, de 46 anos – Tem boa opinião da cristandade do Réu. Nunca lhe ouviu palavras ou viu acções que demonstrassem ser ele mau cristão. Era caridoso, tratando os pobres de graça. Era considerado como sendo cristão novo.

- Padre Luis dos Reis, Conventual da Congregação do Oratório, de 49 anos – Depoimento igual aos anteriores.

- Dona Ana Francisca, Religiosa do Convento de S. Bento, na cidade do Porto, de 40 anos – Conhece o Réu por o encontrar muitas vezes em casa de seu tio, D. Gregório Castelo Branco. Disse que sempre o teve por cristão novo, mas não se sabe se ele tinha ou não trato com pessoas de Nação. Não sabe da sua vida, mas viu-o comer carne de porco em casa do dito seu tio.

fls. 133 img. 265 – 5-11-1731

- Joana de Lima do Nascimento, viúva do Dr. António Quaresma, de 40 anos de idade – Disse ter boa opinião do Réu como católico Romano. Sabe, porém, que ele era considerado cristão novo.

- D. Rosa Maria de Samudio e Sarmento, viúva de Francisco de Sousa, de 42 anos – Depoimento igual aos anteriores.

fls. 134 v img. 268 – 6-11-1731

- Dr. António Vieira Bernardes, médico na cidade do Porto, de 45 anos – Depoimento idêntico aos anteriores.

fls. 136 v img. 272 – 8-11-1731 - Informação do Padre Manuel dos Reis Bernardes, Comissário que efectuou a diligência.

De interesse, informa que o Réu partiu para o Rio de Janeiro há cerca de 5 anos. Que é comummente tido por cristão novo. E que foi dispensado do Hospital do Porto exactamente por ser cristão novo, tendo sido acusado por outro médico de Vila Real.

fls. 138 img. 275 – 27-11-1731 – Citação ao Réu para formar interrogatórios para serem reperguntadas as testemunhas da justiça.

fls. 139 img. 277 – 6-12-1731 – Estância com o procurador.

fls. 140 img. 279 – Cópia da prova da justiça

fls. 146 img. 291 – O procurador escreve as perguntas a fazer às testemunhas. 

Este texto é uma “palhaçada”, pois o procurador não iria estar presente nos interrogatórios, nem lhe dariam conhecimento deles posteriormente. A Inquisição costumava, ao reperguntar, ler o depoimento à testemunha que, evidentemente, não se iria desdizer.

fls. 147 img. 293 – Os Inquisidores mandam reperguntar as testemunhas.

fls. 148 img. 295 – 7-2-1732 – Reperguntas

fls. 243 img. 485 – 10-3-1732 – O homem da vara do Meirinho da Inquisição informa que não conseguiu encontrar as testemunhas seguintes:

- Gabriel d’Estrada, por estar ausente na Holanda;

- Guiomar Henriques, por ter falecido;

- Ana da Fonseca, Lourenço do Vale de Leão e Simão Mendes do Vale, por terem falecido – os três relaxados, haviam sido mortos no Auto da Fé de 16-10-1729, em Lisboa.

fls. 244 img. 487 – 28-4-1732 – Aceitação de uma Comissão por Simão Pestana da Cunha, Comissário do Santo Ofício, para interrogar João Mendes do Vale em Armamar.

fls. 245 img. 489 – 1-3-1732 – Comissão da Inquisição de Lisboa à Inquisição de Coimbra para reperguntar testemunhas.

fls. 248 v img. 496 – 13-3-1732 – Comissão da Inquisição de Coimbra a Simão Pestana da Cunha, Comissário do Santo Ofício. Segue o traslado do testemunho de João Mendes do Vale.

fls. 250 img. 499 – 30-3-1732 – Reperguntado João Mendes do Vale.

fls. 253 img 505 – 20-3-1732 - Aceitação de uma Comissão por Domingos Dias Teixeira, Comissário do Santo Ofício, para interrogar Pascoal Cardoso, em Raiz do Monte

fls. 254 img. 507 – 1-3-1732 - Comissão da Inquisição de Lisboa à Inquisição de Coimbra para reperguntar uma testemunha.

fls. 257 v img. 514 – 12-3-1732 - Comissão da Inquisição de Coimbra a Domingos Dias Teixeira, Comissário do Santo Ofício. Segue o traslado do testemunho de Pascoal Cardoso.

fls. 259 img. 517 – 20-3-1732 – Reperguntado Pascoal Cardoso em Alfarela, concelho de Jales.

fls. 264 img. 527 – 3-4-1732 – Requerimento do Promotor antes da publicação da prova da justiça. Publicação da prova da justiça. Ouvida a leitura, disse o Réu que era tudo falso, que tinha contraditas e queria estar com o procurador.

fls. 272 img. 543 – Estância com o procurador a 7,8, 17, 18 e 19 de Abril de 1732.

fls. 278 img. 545 – Traslado da prova da justiça devolvido pelo procurador.

fls. 281 v img. 562 – 7-4-1732 - O procurador requer que lhe sejam ditos os lugares onde são dadas as culpas ao Réu. O Promotor informou que os testemunhos 1,2 e 3  dão a culpa na cidade do Porto, o n.º 28 em Arrifana de Sousa e todas as mais em Vila Real.

fls. 282 img. 563 – Alegação de contraditas

A 1.ª testemunha dá-lhe a culpa no Porto há 31 anos e 3 meses na cidade do Porto. Nessa data (1700) vivia o Réu em Escarigo, termo de Figueira do Castelo Rodrigo e frequentava a Universidade de Coimbra onde acabou nesse ano o curso de Medicina. Depois foi médico do partido da Câmara da Vila por um ano e mudou-se depois para Pinhel também como médico do partido da Câmara e do Hospital Real durante dois ou três anos.

São falsos os ditos das testemunhas 10.º e 24.º, porque o Réu no Porto não teve trato ou comunicação com gente de Nação. Falsa também a testemunha 31.ª, que dá a culpa em Dezembro de 1712, o que não é possível. Pois em 1712 e 1713, esteve o Réu em Vila Real e não no Porto.

O Réu foi para o Porto no ano em que se festejou a visita da Rainha de Espanha, que lhe parece ser 1709, e foi habitar uma casa numa Rua das Flores, onde esteve cerca de um ano. Foi depois para outras na Rua da Banharia, onde esteve também um ano. Foi depois para umas casas novas na Viela do Ferraz, onde esteve dois anos; dali se mudou para outras sitas no Postigo dos Banhos, onde esteve um ano e daí foi para Vila Real. Feito o cômputo geral, verifica-se que esteve no Porto 5 anos, em que se inclui o 1713 e parte de 1714. No decurso do tempo que esteve no Porto, nunca foi a Vila Real.  Por isso, os depoimentos das 3.ª, 4.ª, 15.ª e 20.ª testemunhas que lhe dão as culpas em Vila Real há 19 ou 20 anos são evidentemente falsos, porque apontam para 1712, quando o Réu estava no Porto.

Esteve em Vila Real dez meses ou um ano. Nesse tempo foi com outros cavalheiros a Braga ver as festas do Arcebispo Primaz e nessa jornada gastou mais de mês e meio. No mesmo ano veio o Réu para o Porto para assistir uma doente pelo espaço de 2 meses; e depois mandou vir de Vila Real as suas roupas, mobílias e recheio de casa (o fato) para o Porto, onde ficou até ao ano de 1725, data em que se embarcou para o Rio de Janeiro.

Vivendo o Réu no Porto, foi em Novembro de 1718, foi a Vila Real visitar sua irmã Rosa Maria, que estava doente, mas encontrou-a já falecida e esteve 6 ou 7 dias na vila em casa do viúvo, Rafael Mendes do Vale, de onde saiu a 10 de Novembro trazendo sua filha que ali vivia com sua irmã.

Só ocasionalmente foi a Vila Real, pelo espaço de horas ou poucos dias, pelo que são falsos todos os testemunhos.

E, de facto nenhuma testemunha concorda com o tempo e lugar onde se encontrava o Réu.

Sobre o crédito das testemunhas:

- As testemunhas são inimigas capitais do Réu e não se pode dar valor aos seus testemunhos.

- Gaspar Dias Fernandes, médico no Porto, era notoriamente seu inimigo

- Os seus familiares de Vila Real tinham-lhe raiva porque ele não queria morar em Vila Real.

- Os mesmos familiares instigaram os filhos do Réu a dar-lhe veneno como de facto deram rosalgar (=arsénico), de que ficou doente por cerca de um ano e ainda hoje sofre.

- No ano de 1706 ou 1707, estando o Réu em Vila Real, lhe pediu Rosa Maria que passava por sua irmã, que lhe desse um remédio para fazer abortar sua filha Maria Madalena que estava grávida (pejada). Porque ele lho negou, ficaram ambas zangadas com ele.

- Quando estava em Vila Real, adoeceu Violante Henriques, mulher de Diogo do Vale Cordeiro e foi curada por ele Réu; mas depois, por ser chamado foi assistir ao Abade de Guide, junto a Mirandela. Violante Henriques acabou por falecer e ficou toda a família contra ele.

- Na verdade, o Réu considerava-se cristão velho e fugia da companhia e convivência com os cristãos novos, em especial os da sua família.

fls. 291 img. 581 – 23-4-1732 – Nomeação de testemunhas

fls. 297 img. 593 – 23-4-1732 – Despacho do recebimento de coarctadas (quase todas) e contraditas. Mandadas ouvir as testemunhas.

fls. 298 img. 595 – 9-5-1732 – Comissão da Inquisição de Lisboa à Inquisição de Coimbra para ouvir testemunhas

fls. 300 v. img 600 – 21-5-1732 – Comissão da Inquisição de Coimbra ao Licenciado Francisco Martins, Comissário do S.to Ofício e Reitor de Carrazedo de Montenegro, para ouvir testemunhas.

fls. 301 img. 601 –16-6-1732 – Audição de testemunhas em Vilar de Perdizes

-D. Genebra de Alvim Portugal, de 30 anos, mulher de António de Sousa Pereira, moradora em Vilar de Perdizes – Disse que há 12 anos o Réu morava na cidade do Porto. Há nove anos, no mês de Dezembro, seu marido pediu ao Réu para vir a Chaves curá-lo de uma doença e de facto ali permaneceu 10 dias; regressou depois ao Porto.

fls. 301 v img. 604 – 17-6-1732

- Fernando de Sousa Pereira, de 40 anos, natural e morador em Chaves – Disse que há 7 ou 8 anos, por estar muito doente, seu irmão António de Sousa Pereira, Capitão de cavalos, mandou chamar o Réu ao Porto para vir curá-lo, como de facto veio e esteve em casa dele uns oito dias mais ou menos. Sabe que o Réu morava no Porto, donde se ausentou depois para o Rio de Janeiro.

- D. Joana Velosa, de 70 anos, viúva de Alexandre de Sousa Pereira, moradora na Quinta das Casas Novas – é mãe do anterior e prestou a mesma informação.

fls. 308 img. 615 – 8-5-1732 - – Comissão da Inquisição de Lisboa à Inquisição de Coimbra para ouvir testemunhas

fls. 313 img. 625 – 21-5-1732 – Comissão da Inquisição de Coimbra ao Licenciado Manuel dos Reis Bernardes, Cónego da Sé do Porto e Comissário do Santo Ofício para ouvir testemunhas.

fls. 314 img. 617 – 26-5-1732 – Aceitação da Comissão e nomeação do Secretário pelo Licenciado Manuel dos Reis Bernardes

fls. 314 v img. 628 – 26-5-1732 – Audição das testemunhas às coarctadas e contraditas

- Luísa Teresa de Miranda, de 43 anos, mulher de José Pereira Pinto e viúva que foi de Gaspar de Miranda, moradora na freguesia da Vitória, na cidade do Porto – Conhece o Réu por ter vivido em duas casas suas na Viela do Ferraz. Se não erra pensa que foi seu inquilino nos anos de 1711 e 1712 e não sabe se ele nesse tempo fez alguma jornada para fora do Porto.

- Marcelino Pereira Campos, de 43 anos, Cónego da Colegiada de Cedofeita, no Porto – Conhece o Réu, por ser médico, mas nada sabe das coarctadas por ele invocadas, até por não habitar nas casas de seus pais.

- Margarida Gomes, de 70 anos, solteira, moradora em Santo Ildefonso – Não sabe onde esteve o Réu nos anos de 1712 e 1713, pois nessa altura ele não era seu vizinho. Foi-o nos anos de 1718 e 1719 e lembra-se que em Agosto desse ano fez uma jornada a Lisboa em que gastou vários meses. Não o via contactar com cristãos novos a não ser com um irmão e um cunhado, que, vindos de Vila Real, estiveram em sua casa.

- Manuel Martins, de 35 anos, Alferes da Ordenança e cirurgião, morador na freguesia de S. Pedro de Avintes – Diz ser familiar do Réu. Disse que este em 1714 ou talvez antes em 1713, foi um ano para Vila Real e aí juntava-se com gente da família. Refere a ida do Réu a Vila Real em 1718 para curar a sua irmã, mulher de Rafael Mendes, que estava doente mas encontrou-a já morta e então trouxe para o Porto sua filha que vivia com a falecida.

fls. 318 img. 635 – 27-5-1732

- Francisco Mendes de Campos, de 46 anos, familiar do S.to Ofício, morador na Rua das Flores – O Réu foi seu vizinho, mas não se lembra das datas exactas, e se ele fez algumas viagens.

- Padre Manuel da Rocha Tavares, de 56 anos, Sacerdote do hábito de S. Pedro, Sacristão-mor da Misericórdia do Porto – Conhece o Réu por ter sido seu vizinho por volta de 1709, mas não sabe se ele fez algumas jornadas.

fls. 320 img. 639 – 30-5-1732 - O Secretário certifica que Manuel Pereira Campos e Gaspar de Miranda são já falecidos bastante antes de o Réu embarcar para o Rio de Janeiro. Averiguou-se também que a mulher de André de Sousa e Melo, mora em Lisboa.

fls. 321 img. 641 – 30-5-1732 – O Comissário Manuel dos Reis Bernardes foi ver os róis das desobrigas e apurou

- em 1709 e 1710, desobrigou-se o Réu na freguesia da Sé;

- em 1711 e 1712, na freguesia da Victória;

- em 1713, na freguesia de S. Nicolau.—As moradas são as declaradas pelo Réu. Depois disso, foi um ano a Vila Real.

No final de 1715, veio o Réu de novo para o Porto, tanto assim que em 6-1-1716 aparece nos registos como médico do Hospital do Porto, no que continuou alguns anos.

fls. 322 img. 643 – 31-5-1732 – O Padre António Ferreira de Abreu Bacelar, Abade de S. Pedro de Britelo, recebe na vila de Amarante a comissão da Inquisição de Coimbra para ouvir testemunhas e nomeia o Secretário.

fls. 323 img. 645 – 9-5-1732 - – Comissão da Inquisição de Lisboa à Inquisição de Coimbra para ouvir testemunhas

fls. 326 img. 651 – 21-5-1732 – Comissão da Inquisição de Coimbra ao Licenciado António Ferreira de Abreu Bacelar, Abade de S. Pedro de Britelo e Comissário do Santo Ofício para ouvir testemunhas.

fls. 327 img. 653 – 31-5-1732 – Audição das testemunhas

- Marcos Ferreira de Sousa, de 69 anos, morador em Amarante – Disse que há oito anos, nos meses de Junho ou Julho, estando o Réu em casa de Fernando de Magalhães de Menezes, lhe rogou que fosse curar sua filha religiosa no Mosteiro da vila, que estava enferma. Ele foi e depois tornou para a casa do mesmo onde estava.

- Félix António de Melo Pereira, de 34 anos, Fidalgo da Casa de Sua Majestade, natural e morador em Amarante, filho de Fernando de Magalhães – Conhece há muitos anos o Réu que curou seu pai de bexigas nas Freixedas de Pinhel. Sabe também que ele curou uma Religiosa filha de Marcos Ferreira de Sousa.

- Fernando José Pereira de Sousa, de 31 anos, Fidalgo da casa de Sua Majestade, irmão da testemunha anterior – Há 7 ou 8 anos, esteve o Réu em casa de seu pai e dali foi ao Convento de S.ta Clara curar uma Religiosa, filha de Marcos Ferreira de Sousa. Foi depois por dois dias a Vila Real e depois seguiu para o Porto.

- Fernando de Magalhães de Menezes, de 55 anos, Fidalgo da Casa de Sua Majestade – É padrinho de um filho do Réu e foi curado por ele das bexigas em Pinhel . Há 6 ou 7 anos, quando estava o Réu em casa dele testemunha, foi chamado por Marcos Ferreira de Sousa para curar sua filha, Religiosa no Convento de S.ta Clara na vila. Fez várias jornadas a Vila Real, no espaço das duas semanas em que esteve em sua casa.

- Teotónio Manuel de Sousa Menezes e Magalhães, de 34 anos, Fidalgo da casa de Sua Majestade, filho do anterior – Refere os mesmos factos que seu pai.

fls. 334 img. 667 – 1-6-1732 - O Licenciado Francisco Monteiro, Reitor da Igreja de Vilar Torpim e Comissário do Santo Ofício recebe uma comissão da Inquisição de Coimbra para ouvir testemunhas e nomeia o secretário.

fls. 335 img. 669 – 7-5-1732 - Comissão da Inquisição de Lisboa à Inquisição de Coimbra para ouvir testemunhas

fls. 338 img. 675 – 21-5-1732 - Comissão da Inquisição de Coimbra ao Licenciado Francisco Monteiro, Reitor da Igreja de Vilar Torpim e Comissário do Santo Ofício para ouvir testemunhas.

fls. 339 img. 677 –1-6-1732 -  Audição das testemunhas

- Padre Jerónimo Teixeira, de 61 anos, natural e morador em Escarigo – Conhece o Réu que foi criado em Escarigo e casou com Isabel Mendes, cristã nova, filha de Miguel Nunes de Carvalho. Lembra-se de o Réu viver em Escarigo em 1700, desde há alguns anos, mas depois de se formar foi para Figueira de Castelo Rodrigo e para Pinhel.

- Manuel Mendes, de 55 anos, lavrador, natural de Escarigo – Testemunho igual ao anterior.

- José Ferreira, de 62 anos, lavrador, natural e morador em Escarigo – Não sabe onde estava o Réu no mês de Dezembro de 1700.

- João Montanha, de 60 anos, lavrador, morador em Escarigo – Testemunho igual ao do Padre Jerónimo Teixeira.

fls. 341 v img. 682 – 2-6-1732

- Padre Manuel Carvalho da Fonseca, de 60 anos, Vigário da Vila de Castelo Rodrigo – Não se lembra do Réu.

- Salvador de Lima, de 54 anos, boticário, natural e morador na vila de Castelo Rodrigo – Conhece o Réu, mas não se lembra do ano em que ele esteve em Castelo Rodrigo.

- Manuel Ferreira, de 67 anos, ferreiro, morador em Castelo Rodrigo – Conhece o Réu e lembra-se que ele após se formar, esteve um ano na vila, mais ou menos.

fls. 343 img. 685 – 5-6-1732 –

- Padre João Garcia Lopes, de 62 anos, natural e morador na vila – Não sabe onde estava o Réu em Dezembro de 1700, mas sabe que ele, por volta de 1705 foi para Pinhel.

- Gaspar Pereira de Sampaio, de 49 anos, Juiz dos Órfãos – Conhece o Réu e sabe que por volta de 1704, veio ele morar para Pinhel.

fls. 345 img. 689 – 2-6-1739 – O Pároco de Vilar Torpim transcreve documentos que confirmam as datas em que o Réu foi médico do partido da Câmara em Castelo Rodrigo.

fls. 347 img. 693 – 1-6-1732 – O Licenciado Domingos Dias Teixeira, Reitor de S. Cristóvão de Parada de Cunhos e Comissário do Santo Ofício recebe a comissão da Inquisição de Coimbra e nomeia o Secretário.

fls. 346 img. 695 – 9-5-1732 - Comissão da Inquisição de Lisboa à Inquisição de Coimbra para ouvir testemunhas

fls. 346 v. img. 702 – 19-5-1732 - Comissão da Inquisição de Coimbra ao Licenciado Domingos Dias Teixeira, Reitor de S. Cristóvão de Parada de Cunhos e Comissário do Santo Ofício para ouvir testemunhas.

fls. 352 img. 703 – 1-6-1732 – Audição das testemunhas

- Luísa Pereira, de 50 anos, solteira, filha de Domingos Pereira, moradora na Rua das Pedrinhas- Disse que conhece o Réu e sabe que ele veio do Porto a Vila Real buscar sua filha, depois da morte de sua irmã, a quem estava confiada, mas não sabe o ano em que isso foi.

- João da Costa, de 60 anos, alfaiate, morador na Rua das Pedrinhas – Foi referindo as idas e vindas a Vila Real do Réu, mas sem indicar datas exactas.

- Maria Rodrigues, de 55 anos, casada com João da Costa, a testemunha anterior – Como o testemunho anterior.

- José Correia, de 46 anos, Sacristão da Igreja de S. Paulo – Comos os anteriores

fls. 357 img. 713 – 2-6-1732 - – O Padre António Ferreira de Abreu Bacelar, Abade de S. Pedro de Britelo, recebe na vila de Amarante a comissão da Inquisição de Coimbra para ouvir testemunhas e nomeia o Secretário.

fls. 358 img. 715 – 9-5-1732 - – Comissão da Inquisição de Lisboa à Inquisição de Coimbra para ouvir testemunhas

fls. 361 img. 721 – 31-5-1732 – Comissão da Inquisição de Coimbra ao Licenciado António Ferreira de Abreu Bacelar, Abade de S. Pedro de Britelo e Comissário do Santo Ofício para ouvir testemunhas.

fls. 362 img. 723 – 2-6-1732 – Audição das testemunhas

- Fernando de Magalhães de Menezes, de 55 anos, Fidalgo da Casa de Sua Majestade, natural e morador em Amarante- Não sabe de inimizades do Réu com os seus parentes, embora ele se queixassem de eles não quererem acolher sua filha, quando ele partiu para o Rio de Janeiro. Sabe que o réu esteve muito doente e disse-se que foram um dos filhos que lhe dera veneno.

- Diogo de Moura Coutinho, de 40 anos, Fidalgo da Casa de Sua Majestade, natural e morador na Quinta de Borba -. Não sabe que o Réu tenha inimizades com seus parentes. É bom médico e tem muita gente que o aprecia.

fls. 364 img. 727 – 3-6-1732 –

- António Luis Pinto Coelho Pereira da Silva, de 59 anos, moço fidalgo da Casa de Sua Majestade, Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo, Senhor de Felgueiras, natural e morador na Quinta de Simães – conhece o Réu e não sabe que ele tenha inimizades com seus parentes. Só sabe que o Médico era da família dos Vales de Vila Real. E veio algumas vezes a sua casa curar enfermidades.

fls. 366 img. 731 – 9-5-1732 - Comissão da Inquisição de Lisboa à Inquisição de Coimbra para ouvir testemunhas

fls. 371 img. 741 – 21-5-1732 - Comissão da Inquisição de Coimbra ao Licenciado Manuel dos Reis Bernardes, Cónego da Sé do Porto e Comissário do Santo Ofício, para ouvir testemunhas.

fls. 372 img. 743 – 28-5-1732 - Aceitação da Comissão e nomeação do Secretário pelo Licenciado Manuel dos Reis Bernardes

fls. 372 v img. 744 – 28-5-1732 – Audição das testemunhas

- António Vieira Bernardes, de 45 anos, médico na cidade do Porto – Não sabe que o Réu tenha inimizades com alguém. Teve algumas divergências com o médico Gaspar Dias Fernandes, mas apenas no campo médico e de forma civilizada. Soube que se disse que um filho lhe deu veneno, mas ele testemunha nunca teve a confirmação disso, embora tenha ouvido dizer que haviam sido os parentes a induzir o filho a fazer tal maldade.

- Tomás de Sousa Machado, de 66 anos, familiar do Santo Ofício, Cavaleiro professo da Ordem de Cristo, Cidadão das Governanças da cidade do Porto – Não sabe que o Réu tivesse inimigos. Teve discussões com Gaspar Dias Fernandes apenas sobre o exercício da Medicina. É público e notório que um dos seus filhos lhe deu veneno, ficando ele Réu em perigo de vida; mas vão sabe nem ouvir dizer, que o filho o tivesse feito por insinuação dos seus parentes.

- Domingos de Freitas Mendes, de 46 anos, cirurgião, natural da freguesia de S. Mamede de Canelas, comarca de Penafiel, morador na Rua da Feira, freguesia da Sé – Testemunho idêntico ao anterior.

- D. Josefa Francisca Pacheco, de 50 e tantos anos, filha de D. Mariana de Sousa e Cunha, natural e moradora no Porto – Não sabe que o Réu tivesse inimigos. Sabe que teve discussões com Gaspar Dias Fernandes em matéria médica, e até discutiram por causa de uma cura a aplicar a ela testemunha. Mas foi tudo com bons modos.

fls, 376 v img. 752 – 29-5-1732

- João Antunes Guimarães, de 52 anos, familiar do Santo Ofício, Cavaleiro professo da Ordem de Cristo, Cidadão das Governanças da cidade do Porto, morador na Rua das Flores – Não sabe que o Réu tivesse inimizades. É público e notório que o filho que se ausentou lhe deu veneno, de que ficou muito doente e em “estado miserável”.

- João Gomes Vieira, de 43 anos, familiar do Santo Ofício, morador na Rua das Flores – Testemunho idêntico ao anterior.

- Joana de Lima, de 40 anos, viúva do Doutor António Quaresma, moradora na Rua de S. Miguel, freguesia da Victória – Não sabe que o Réu tivesse inimizade com alguém. Somente sua filha Brites Caetano falava com pouco agrado nas pessoas da família de Gaspar Dias Fernandes.

- Manuel Martins Ferreira, de 35 anos, Alferes da Ordenança e cirurgião, morador na freguesia de S. Pedro de Avintes – Não sabe que o Réu tenha inimigos. Quando o Réu esteve muito doente, as pessoas gradas enviaram-lhe saudações e cumprimentos. Não considera que os parentes se alegrassem com a doença dele. Esses parentes apenas prefeririam que ele exercesse a profissão em Vila Real. Disse que o Réu era algo perdulário, mas que os parentes não lhe queriam mal por isso.

fls. 380 v img. 760 – O Secretário da Comissão indica os falecidos e os ausentes que não puderam ser ouvidos.

fls. 381 img. 761 – 30-5-1732 – O Padre Manuel dos Reis Bernardes faz o resumo da comissão.

fls. 382 img. 763 – O Inquisidor mais antigo representa o Ordinário

fls. 383 img. 765 – 17-6-1732 – Assento da Mesa da Inquisição

Excluindo os ausentes, os defuntos e os que testemunharam de auditu, a Mesa tem ainda 24 testemunhas “todas bem repetidas e com boa lembrança nos seus ditos e certidão de bom crédito, entrando nelas sua filha Brites Caetana, e sendo todas as mais parentes do Réu em graus tão próximos como de primos inteiros e sobrinhos, e como pelos artigos de coarctadas e contraditas nada prova o Réu coisa alguma, antes contra ele se mostra a boa correspondência e amizade que o Réu tinha com os mesmos parentes que contradita, era a prova superabundante para haver de ser julgado por convicto no crime de heresia”.  Como tal é condenado a ser relaxado.

fls. 386 img. 771 – 21-6-1732 – Assento da Mesa do Conselho Geral

Relaxado.

fls. 388 img. 775 – 22-6-1732 – Auto de notificação de estar relaxado.

fls. 389 img. 777 – 27 e 28-6-1732 – Estância com o Procurador.

fls. 390 img. 779 – 28-6-1732 – O Réu alega de novo coarctadas contra praticamente todas as testemunhas.

fls. 395 img. 789 – 29-6-1732 – O Réu nomeia testemunhas

fls. 398 v img. 796 – 29-6-1732 – Despacho recebendo os artigos de coarctadas “por informação somente para se proporem em Mesa”.

fls. 400 img. 799 – 30-6-1732 – Assento da Mesa da Inquisição

E pareceu a todos os votos que pelos novos artigos de coarctadas com que o Réu tinha vindo em nada se alterava o dito assento porque sendo a matéria deles a mesma de que se tinha tratado nos primeiros artigos, assim como neles não provou coisa alguma a seu favor, antes contra ele se provava a comunicação, e boa correspondência que tinha com os seus parentes, com que se qualificava mais a prova da justiça, não eram dignos de atenção alguma e muito menos pela contradição que em si continham convencendo-se a si mesmo no 6.º artigo das coarctadas, querendo o Réu que se julguem por falsas as testemunhas da justiça:  a 5.ª que lhe dá a culpa cometida em Vila Real há 14 anos e 9 meses, a 8.ª lha dá na mesma parte há 14 anos e cinco meses, a 21.ª lha dá na mesma Vila há 14 anos e alguns meses e como é tão clara a prova da justiça que há contra o Réu, e improvável a matéria dos novos artigos de suas coarctadas, se devia executar o dito assento do Conselho Geral na mesma forma que nele está determinado  (…)”

fls. 403 img. 805 – 1-7-1732 – O assento não está alterado. Relaxado

fls. 405 img. 809 – 4-7-1732 – Notificação de mãos atadas. Ficou com o Réu o Padre José de Andrade, da Companhia de Jesus.

fls. 407 img. 813 – 5-7-1732 – Declaração

Pediu mesa para declarar que todos os seus parentes de Vila Real vivem e são observantes da Lei de Moisés e enumera-os: seu primo Simão Mendes do Vale, advogado, Diogo do Vale Cordeiro, Ana da Fonseca, Bernarda de Leão e Rosa Maria sua irmã, casada com Rafael Mendes do Vale, já falecida. Foram estes que doutrinaram sai filha Brites Caetana, que vivia com sua irmã em Vila Real. Ela mesma lho confessou.  Também era observante da Lei de Moisés o médico Gaspar Dias Fernandes.

fls.  411 img. 821 – 6-7-1732 – Confissão de mãos atadas

Pediu audiência às 4 h. e 15m. da manhã, para explicar melhor a sua declaração do dia anterior. Repetiu os mesmos nomes de seus parentes e acrescentou outros.

fls.  416 img. 831 – 6-7-1732 – 3.º Assento da Mesa –

“O Réu “veio a esta Mesa e disse que alguns dos seus parentes de Vila Real, testemunhas da justiça que nomeou, viviam na Lei de Moisés e também vivera sua filha Brites Caetana, e vivia Gaspar Dias Fernandes, médico do Porto, e todos testemunhas contra o Réu, e agora diz que fingidamente se declarou com os seus parentes de Vila Real por crente e observante da Lei de Moisés, mas o fizera só por contemporizar com eles, e para que não o matassem com veneno, e que sempre vivera na Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo, com o que pareceu a todos os votos se achava o dito assento mais corroborado, para ser dado à sua devida e legítima execução, e nem quanto ao modo fica alterado (…)”

fls. 419 img. 837 – 6-7-1732 – Assento da Mesa do Conselho Geral

O assento não está alterado. Execute-se. Relaxado.

fls. 421 img. 841 – Sentença.

Foi publicada no Auto da Fé que se realizou em 6 de Julho de 1732, na Igreja do Convento de S. Domingos.

fls. 427 img 853 – 6-7-1732 – Na Igreja de S. Domingos, às 15.45

O Réu pediu audiência para denunciar por declarações formais de judaísmo, seus primos, José Rafael, Luís Cordeiro do Vale, casado com Maria Madalena, os irmãos João e Lourenço, filhos de Diogo do Vale e com eles se declarou como crente e observante da Lei de Moisés.

Há 14 anos, em Vila Real, em casa de Isabel, solteira, filha de Rafael Mendes do Vale se achou com eles e com Maria Madalena e todos juntos se declararam por crentes e observantes da Lei de Moisés.

Disse que há catorze anos ou mais em Vila Real, em casa de Joana, solteira, filha de Manuel de Leão e de Maria da Silva, natural e moradora em Vila Real e estando sós se declararam por crentes e observantes da Lei de Moisés.

Disse mais que, há 14 anos para cima, em casa de Maria, solteira, filha de António Mendes do Vale, sua segunda sobrinha, estando sós, se declararam crentes e observantes da Lei de Moisés.

Disse que há 7 ou 8 anos, se declarou com seu filho Luís Miguel, estudante em Coimbra, o qual foi consigo para o Brasil como crente e observante da Lei de Moisés e o seu filho também se declarou com ele.

Declara que ele confitente viveu na Lei de Moisés, de 24 ou 25 anos até ao presente, porém sempre viveu na Lei de Cristo, sem prejuízo de fazer algumas cerimónias da Lei de Moisés.

Disse mais que não está certo se se declarou como crente na Lei de Moisés com Gaspar Cardoso de Lima, advogado, filho de Pascoal do Vale e com um cunhado do mesmo chamado José Rafael, o que teria sido há nove anos, e o declara para descargo da sua consciência.

fls. 433 img. 865 – 6-7-1732 – 4.º Assento da Mesa da Inquisição

“(…) e sendo vistas as confissões que agora acaba de fazer nele (no cadafalso), em que assenta viveu na Lei de Moisés e se declarou com os seus parentes de Vila Real, mas que também juntamente vivia na Lei de Cristo Senhor nosso; pareceu a todos os votos que o dito assento só estava alterado quanto ao modo, e que ele se deve executar, declarado o Réu ficto, falso, simulado confitente diminuto e impenitente (…)”

fls. 435 img. 869 – 6-7-1732 – Assento da Mesa do Conselho Geral

Visto “o que confessou no cadafalso às três horas e três quartos do mesmo dia. E assentou-se que é bem julgado pelos Inquisidores, Ordinário e Deputados em determinarem que o dito primeiro assento do Conselho (de 21 de Junho) só estava alterado quanto ao modo; porque devia ser relaxado como convicto, ficto, falso, simulado confitente diminuto e impenitente. Confirma sua sentença por seus fundamentos e o mais dos autos. Manda que assim se cumpra e dê execução.”

fls. 438 v img. 876 – Conta de custas: 51$120 réis.

 

 

 

Processo n.º 9249, de Luis Miguel Correia, solteiro, de 26 anos, filho de Diogo Correia do Vale, natural de Pinhel e residente em Vila Rica de Minas Gerais – Brasil

 

fls. 1 img. 14 – 1-9-1729 – Mandado de prisão

fls. 2 img. 15 – 12-10-1730 – Entrega do Réu nos Estaus

fls. 2 v. img. 16 – 12-10-1730 – Planta do cárcere

 

CULPAS

fls. 3 img. 16 - 15-7-1727 - Depoimento de seu primo de 2.º grau, Bernardo do Vale (não aparece o processo – é o n.º 21 do AdF de 9-5-1728), estudante de Latim, filho de Diogo do Vale Cordeiro – Ouviu dizer que o Réu é observante da Lei de Moisés.

fls. 4 img. 17 – 6-6-1727 – Dep. de sua irmã inteira Brites Caetana (Pr. n.º 3069, de Coimbra)  - Declaração de judaísmo em forma há 3 ou 4 anos na cidade do Porto, em casa dela deponente.

fls. 5 v img. 20 – 26-6-1727 – Dep. de sua prima Josefa Caetana, de 14 anos (não aparece o processo – é o n.º 39 do AdF de 9-5-1728), filha de Rafael Mendes do Vale  - Declaração de judaísmo em forma há 4 anos no lugar de Sabrosa e quinta dela deponente.

fls. 6 v img. 22 – 6-8-1727 – Dep. de sua prima Josefa Teresa (não aparece o processo – é o n.º 21 do AdF de 29-5-1729), filha de António Mendes do Vale - Declaração de judaísmo em forma há 7 anos e 8 meses na cidade de Vila Real, em casa dela deponente.

fls. 7 v img. 24 – 22-9-1727 – Dep. de seu primo de segundo grau, Rafael Mendes de Leão, solteiro, advogado (Pr. n.º 4856, de Coimbra), filho de Simão Mendes do Vale - Declaração de judaísmo em forma há 4 anos na cidade de Vila Real, em casa dele deponente.

fls. 8 v img. 26 – 5-9-1727 – Dep. de seu tio do 2.º grau, António Mendes do Vale (Pr. n.º 7463, de Coimbra) - Declaração de judaísmo em forma há 6 ou 7 anos na cidade do Porto, em casa do pai do Réu.

fls. 9 v img. 29 – 7-10-1727 – Dep. de sua tia do 2.º grau, Guiomar Henriques, solteira (não aparece o processo – é o n.º 43 do AdF de 9-5-1728), filha de Pascoal do Vale - Declaração de judaísmo em forma há 7 anos em Vila Real, em casa do pai do Réu

fls.10 v img. 31 – 10-9-1727 – Dep. de seu tio do 2.º grau, Luis do Vale, solteiro (Pr. n.º 5861, de Coimbra), filho de Diogo Lopes Dias - Declaração de judaísmo em forma há 4 ou 5 anos na cidade de Vila Real, em casa dele deponente.

fls. 11 v img. 32 – 25-9-1727 – Dep. de sua tia do 2.º grau Francisca Cordeira, solteira (não aparece o processo – é o n.º 45 do AdF de 9-5-1728), filha de Pascoal do Vale de Leão - Declaração de judaísmo em forma há 6 anos na cidade de Vila Real, em casa dela deponente.

fls. 12 v img. 33 – 27-8-1727 – Dep. de sua prima Isabel Josefa, solteira (não aparece o processo – é o n.º 47 do AdF de 9-5-1728), filha de Rafael Mendes do Vale - Declaração de judaísmo em forma há 5 anos no lugar de Sabrosa e quinta do pai dela deponente.

fls. 14 img. 34 – 20-9-1727 - Dep. de sua prima Violante Maria, solteira (Pr. n.º 4703, de Coimbra), filha de Rafael Mendes do Vale - Declaração de judaísmo em forma há 4 anos na cidade de Vila Real em casa dela deponente.

fls. 14 v img. 35 – 21-7-1727 – Dep. de sua tia Arcângela do Vale, solteira (Pr. n.º 4699, de Coimbra), filha de Pascoal do Vale - Declaração de judaísmo em forma há 3 anos na cidade de Vila Real em casa dela deponente

fls. 16 img. 37 – 2-10-1727 – Dep. de sua prima Ana Bernarda, de 13 anos, solteira (Pr. n.º 5138, de Coimbra), filha de Rafael Mendes do Vale - Declaração de judaísmo em forma há ano e meio na cidade de Vila Real, em casa de seu tio do 2.º grau, José do Vale, viúvo de Catarina da Fonseca.

fls. 17 img. 40 – 2-10-1728 – Dep. de seu primo Heitor Mendes do Vale, solteiro (Pr. n.º 7318, de Coimbra), filho de António Mendes do Vale - Declaração de judaísmo em forma há 9 anos na cidade do Porto, em casa do pai do Réu.

fls. 18 img. 42 – 10-12-1727 – Dep. de sua prima Maria Teresa de Leão, solteira (Pr. n.º 9783), filha de António Mendes do Vale - Declaração de judaísmo em forma há 4 para 5  anos na cidade de Vila Real, em casa dela deponente.

fls. 19 v img. 45 – 20-5-1728 – Dep. de sua prima Leonor Maria, solteira (Pr. n.º 9763, de Coimbra) filha de Rafael Mendes do Vale - Declaração de judaísmo em forma há 4 anos na cidade de Vila Real, em casa dela deponente.

fls. 19 v img. 47 – 19-12-1727 – Dep. de sua prima Teresa Bernarda, solteira (Pr n.º 6285, de Coimbra), filha de António Mendes do Vale – Declaração de judaísmo em forma há 4 anos na cidade de Vila Real, em casa dela deponente.

fls. 21 v img. 49 – 17-12-1727 – Dep. de sua tia Brites Henriques, solteira (pr. n.º 7344, de Coimbra), filha de Diogo Lopes Dias - Declaração de judaísmo em forma há 6 anos na cidade de Vila Real, em casa dela deponente.

fls. 23 img. 51 – 12-7-1728 – Dep. de Gaspar Dias Fernandes, médico, natural de Muxagata e residente no Porto (Pr. n.º 6378-1, de Coimbra) - Declaração de judaísmo em forma há 10 anos na cidade do Porto, em casa do pai do Réu, mas não sabe o nome deste, identifica-o como filho do Réu, e estudante de Medicina em Coimbra.

fls. 25 img. 54 – 14-10-1728 – Dep. de sua prima Maria Madalena, (Pr. n.º 6340, de Coimbra), casada com Luis Cordeiro do Vale, advogado - Declaração de judaísmo em forma há 10 anos na cidade do Porto, em casa do pai do Réu.

fls. 26 img. 56 – 28-4-1728 – Dep. de seu primo José Rafael do Vale (não aparece o processo – é o n.º 23 do AdF de 29-5-1729), casado com Mariana do Vale - Declaração de judaísmo em forma há 4 ou 5 anos na cidade de Vila Real, em casa dele deponente.

fls. 27 img. 58 – 8-5-1728 – Dep. de seu primo do 2.º grau, Luis Cordeiro do Vale (Pr. n.º 9971 e 9971-1, de Coimbra) - Declaração de judaísmo em forma há 5 anos no lugar de Sabrosa.

fls. 29 img. 62 – 10-6-1729 – Dep. de Mariana do Vale (não aparece o processo – é o n.º 27 do AdF de 29-5-1729) - Declaração de judaísmo em forma há 8 anos na cidade de Vila Real, em casa dela deponente.

fls. 30 img. 64 – 15-10-1729 – Dep. de sua tia do 2.º grau, Ana da Fonseca (Pr. n.º 8267-A, de Coimbra, relaxada), viúva de Duarte Cordeiro - Declaração de judaísmo em forma há 6 anos na cidade de Vila Real, em casa dela deponente.

fls. 32 img. 66 – 15-6-1731 – Dep. de Sebastião Ferreira (não aparece o processo – é o n.º 37 do AdF de Lisboa de 17-6-1731) - Declaração de judaísmo em forma há 7 anos na cidade de Vila Real, em casa de Rosa de Mesquita.

fls. 1 img. 69 – 20-10-1730 – Inventário

Disse ter uma fazenda em Cassedens, perto de Vila Rica, que tem hortaliça e uns moinhos, e lhe custou 13 000 cruzados pagos em três anos a 120 oitavas de ouro cada mês, estando ainda a dever ao credor Alexandre da Cunha, nove meses. Tinha 13 vacas que valerão 20 oitavas cada uma. Tinha 11 pretos e dois mulatos (escravos), que valerão uns por outros 170 000 réis por cabeça.  Tinha 6 cavalos que valeriam uns por outros 35 oitavas  por cabeça. Tinha três bois e seis ou sete porcas com suas crias, que valeriam em conjunto oitenta ou noventa oitavas.

Tem um relógio de prata que valerá duas moedas. Tem uma caixa de couro que valerá 22 ou 23 oitavas de ouro. Não tem mais móveis.

As suas dívidas constam de um rol que está nos seus papéis e totalizarão 80 ou 100 oitavas.

Disse que em sua casa havia vários talheres de prata, que pertencem a seu pai.

Deve a Alexandre da Cunha dois mil cruzados, mais ou menos, da compra da fazenda. Deve a António Martins 200 000 réis da compra de escravos Deve a uma pessoa cujo nome não lhe lembra 240 oitavas, da compra de uma vaca e sua cria. Deve a um criado seu chamado José, 40 oitavas de um cavalo e a outro criado chamado Manuel 50 oitavas de outro cavalo.

Descreve mais dezena e meia de dívidas que totalizam 755 oitavas de ouro e 129 400 reis (três dívidas).

fls. 6 img. 74 – 26-10-1730 – GENEALOGIA

Conforme mapa supra.

Disse ser lavrador de roça, de 26 anos, solteiro, natural de Pinhel e morador em Vila Rica de Ouro Preto de Minas Gerais, no Brasil. Sua mãe faleceu do parto dele Réu.

Por parte de sua mãe tem dois tios, Miguel Nunes, que vive em Idanha-a-Nova e Manuel Nunes que vive em Pinhel e é conhecido pelo apelido de o “Morgado”.

Soube as orações do catecismo. Disse ter estudado Filosofia no Colégio dos Padres da Companhia e dois anos de Medicina na Universidade de Coimbra.

fls. 9 img. 77 – 1-8-1731 – Sessão in genere

Respondeu negativamente a todas as perguntas

fls. 12 img. 80 – 6-8-1731 – Sessão in specie

Negou todas as acusações.

fls. 23 img. 91 – 14-9-1731 – Admoestação antes da leitura do libelo. Libelo. Contesta por negação o libelo. Tem defesa com que vir e pede lhe seja dado procurador.

fls. 30 img. 98 – 19-9-1731 – Juramento do procurador Licenciado José Rodrigues Leal

fls. 31 img. 99 – 19, 20 e 22-9-1731 – Estâncias com o procurador.

fls. 32 img.100 – Traslado do libelo devolvido pelo procurador.

fls. 39 img. 107 – Defesa – O procurador expõe a sua “contrariedade” em 19 artigos em 11,5 páginas, com óptima caligrafia. Os pontos principais são:

- O Réu foi sempre bom católico, muito devoto de Nossa Senhora

- No Brasil promoveu o ensino do catecismo aos escravos e deu um rosário a cada para eles trazerem ao pescoço. Conta prodígios que aconteceram aos escravos: “(…) e devoção que tinha do Rosário, a que atribuiu alguns prodígios que lhe sucederam, como foi que, caindo um seu escravo por nome Miguel, de um buraco ou subcavão de terra da altura de 60, ou 70 palmos, saiu ileso, sem perigo algum, mais que algum moimento do corpo; como também outro escravo que se chamava José Mina, degolando-se por tentação do Demónio de que ficava sem sentido, e se julgava por morto; no outro dia falou; o que vendo o Réu lhe mandou dar uns pontos na ferida e escapou; o que o Réu atribuiu a maravilha de Nossa Senhora por virtude do Rosário, que o dito escravo tinha ao pescoço; em testemunho do que mandou o Réu pôr um quadro na Capela da Senhora do Rosário em Vila Rica, para honra e glória de Nossa Senhora e para memória do dito prodígio e fiz assentar o dito escravo na dita confraria”.

- Nasceu em Pinhel mas de pouca idade foi viver com seus pais para o Porto. Aos 8 ou 9 anos, foi com seu pai para Vila Real durante ano e meio, de onde a família era originária, mas aí sempre evitou o contacto com os cristãos novos que a compunham. Até aí, pensava que era cristão velho. Pensou na altura em ser padre, mas “o desenganou uma sua criada, Maria Moreira (já falecida) de que o não podia ser pela mácula do seu sangue e então é que o Reu veio a saber que era cristão novo, de que teve grande sentimento, que toda a vida o acompanhou.” Pensou então em ir ordenar-se em Espanha, mas entretanto, decidiu seu pai vir para o Brasil. No Brasil continuou a lutar pela ideia de ser sacerdote e chegou a ir falar com o Bispo do Rio de Janeiro, que era o franciscano Fr. António de Guadalupe, mas este disse-lhe era impossível, vista a quantidade de parentes seus que tinham sido presos pelo Santo Oficio.

- Ninguém pode duvidar da devoção do Réu. Quis ele até construir uma capela na sua fazenda e só o não fez porque o Bispo do Rio de Janeiro lho não autorizou. E termina:

- “Por que suposto se achem presos nos cárceres do Santo Ofício muitos parentes do Réu de que este possa conjecturar, que o poderiam nomear por cúmplice nas suas culpas; é totalmente falso, e contra a verdade tudo o que disserem contra o Réu, e só por emulação e inveja, ou ódio que terão ao Pai do Réu, por se desviar sempre da sua comunicação e trato, lhe levantariam testemunhos falsos. Pois

Por que o Réu vivendo na companhia de seu Pai na cidade do Porto, não tinha nela parentes alguns com quem tratasse nem teve comunicação alguma com cristãos novos; e quando assistiu em Vila Real, era de tão pouca idade, que não era capaz de tratarem com ele esta matéria: pelo que se deve julgar por falso tudo o que as testemunhas da Justiça disserem contra o Réu, o qual contesta o libelo da Justiça por negação, que se deve julgar por não provado e o Réu por absoluto.”

Indica testemunhas. 

fls. 47 v img. 116 – 22-9-1731 - Despacho recebendo a defesa e mandando ouvir as testemunhas indicadas.

fls. 48 img. 117 – 18-10-1731 – Comissão da Inquisição de Lisboa à Inquisição de Coimbra para ouvir testemunhas

fls. 54 img. 123 – 31-10-1731 – Comissão da Inquisição de Coimbra ao Licenciado Manuel dos Reis Bernardes, Cónego da Sé do Porto e Comissário do Santo Ofício para ouvir testemunhas.

fls. 56 img. 125 – 7-11-1731 – Aceitação da Comissão pelo Licenciado Manuel dos Reis Bernardes. Audição das testemunhas.

- Padre João da Costa, de 42 anos, Conventual de S. Filipe Néri, no Porto – Conheceu o Réu como pessoa de boa vida e costumes. Tinha-o por católico e via-o praticar obras de católico. Nessa altura, era o réu muito novo, de cerca de 12 anos, e não sabe da sua devoção à Virgem Maria. Sendo embora cristão novo, o Réu comportava-se com bom católico romano.

- Padre Mestre Frei Gabriel da Conceição, de 50 anos, morador no Convento de N.ª Senhora do Carmo em Santo Ildefonso, no Porto – Testemunhou como o anterior, mas acrescentou que conhecia a devoção do Réu à Virgem e que ele eram membro da Confraria de N.ª Senhora do Carmo e trazia o escapulário.

- José Gomes Costa, de 57 anos, Mestre de Latim, morador na Ferraria de Cima, freguesia de N. ª Sr.ª da Vitória, no Porto – Tinha bom conceito da cristandade do Réu, embora uma vez ele ou seu irmão  lhe haviam perguntado por que não festejava a Igreja a coroação de Nossa Senhora. Ficou ele testemunha desconfiado por ser uma pergunta de um cristão novo.  Sempre lhe viu fazer acções de bom católico, e frequentava os exercícios devotos.

fls. 60 img. 129 – 8-11-1731 –

- João Vieira Fatum, de 56 anos, Abade da Vitória – Tem boa impressão da cristandade do Réu, sempre o considerou bom católico, e sempre entendeu que vivia como bom católico, fazendo obras de católico.

fls. 62 img. 131 – 10-10-1731 – Citação ao Réu para formar interrogatórios para reperguntar as testemunhas

fls. 63 img. 132 – 12-10-1731 – Estância com o procurador

fls. 64 img. 133 – Traslado da prova da justiça devolvido pelo procurador.

fls. 70 img. 139 – Interrogatórios para reperguntar as testemunhas, redigidos pelo procurador

fls. 71 img. 141 – 12-10-1731 – Despacho mandando reperguntar 22 testemunhas, para repetir a prova.

fls. 72 img. 143 – 5-12-1731 - Reperguntas

fls. 78 vimg. 157 – 6-12-1731 – Reperguntas

fls. 81 v img. 164 – 7-12-1731 – Reperguntas

fls. 93 v img. 190 – 12-12-1731 – Reperguntas

fls. 104 v. img. 216 – 17-12-1731 – Reperguntas

fls. 111 img. 228 – 19-12-1731 – Reperguntas

fls. 118 v. img. 244 – 20-12-1731 – Reperguntas

fls. 125 img. 256 – 2-1-1732 – Reperguntas a Mariana do Vale e José Rafael

fls. 132 img. 269 – 3-1-1732 – Reperguntas a Josefa Teresa

fls. 136 img. 277 – 23-1-1732 – Reperguntas a António Mendes do Vale

fls. 139 img. 283 – 11-1-1732 – Requerimento do Promotor para a publicação da prova da justiça. Admoestação antes da publicação. Publicação da prova da justiça. Ouvida a leitura, disse o Réu que era tudo falso, que tinha contraditas com que vir e para as formar, queria estar com o procurador-

fls. 147 img. 294 – 12, 14 e 16-1-1732 – Estância com o procurador.

fls. 148 img. 295 – Traslado da prova da justiça devolvido pelo procurador.

fls. 154 img. 304 – 22-1-1732 - O procurador pede para ser informado dos lugares onde as testemunhas dão as culpas ao Réu. O Promotor informa quais as localizadas no Porto e em Vila Real.

fls. 155 img. 307 – Alegação de contraditas.

O procurador redigiu artigos de coarctada:

- As testemunhas que dão as culpas no Porto não moravam no Porto, mas sim em Vila Real, por isso não podiam estar informadas sobre a vida do Réu.

- Também é falso o testemunho das que lhe dão as culpas em Vila Real, pois na data que referem, o Réu vivia no Porto.

- Quando o Réu e seu pai estavam em Minas Gerais, tiveram conhecimento de que todos ou quase todos os seus parentes de Vila Real tinham sido presos, e, sendo tantas as testemunhas contra ele, têm de ser esses mesmos parentes. E, como no testemunho, não dizem nada ao costume, tem de se concluir que juraram falso em tudo.

fls. 157 img. 310 – 25-1-1732 – Nomeação de testemunhas.

fls. 159 v img. 316 – 25-1-1732 – Despacho recebendo os primeiros cinco artigos de coarctadas e mandando interrogar as testemunhas.

fls. 160 img. 316 – 4-4-1732 – O Licenciado Domingos Dias Teixeira, Reitor de S. Cristóvão de Parada de Cunhos, nos arredores de Vila Real, recebe a comissão da Inquisição de Coimbra para ouvir testemunhas.

fls. 161 img. 317 – 10-3-1732 – Comissão da Inquisição de Lisboa à Inquisição de Coimbra para ouvir testemunhas em Vila Real.

fls. 169 img. 325 – 6-3-1732 - Comissão da Inquisição de Lisboa à Inquisição de Coimbra para ouvir testemunhas em Pinhel.

fls. 174 img. 330 – 25-4-1732 – O Licenciado Manuel dos Reis Bernardes, recebe uma comissão da Inquisição de Coimbra para ouvir testemunhas no Porto.

fls. 174 v img. 331 – 25-4-1732 – Audição de testemunhas no Porto

- Vicência da Silva, de 52 anos, mulher de Ventura de Barros, do Porto – Disse que se recorda de o pai do Réu partir para o Brasil e com ele e o filho ia um homem que ela não conhecia. Sobre  a matéria das coarctadas e das datas indicadas nada disse e remeteu o assunto para seu marido.

- Ventura de Barros, de 45 anos, marido da anterior – Sabe que uma vez estiveram em casa do pai do Réu, no Porto, os parentes Rafael Mendes do Vale e António Mendes do Vale. Com o pai e o Réu, fora para o Brasil um tio deste último.

- João Gomes Vieira, de 43 anos, familiar do S.to Ofício, morador na Rua das Flores – Lembra-se de pai e filho partirem para o Brasil, na companhia de pessoa desconhecida a quem chamavam primo. Que o pai lhe pediu assistisse a sua filha recolhida no Convento de Corpus Christi de Vila Nova, o que ele recusou. Não sabe qual dos filhos deu o veneno ao pai, do que ele ficou doente um ano. Disse que bem poderia o Réu ter feito algumas jornadas sem ele saber.

- Manuel da Silva Campos, de 34 anos, morador na freguesia da Sé, no Porto – Conhece o Réu, mas não era propriamente seu vizinho. Não sabe se ele foi ou não visitar os seus parentes a Vila Real. Não sabe onde o Réu esteve no ano de 1721 e poderia muito bem ausentar-se do Porto sem ele testemunha o notar.

fls. 170 v img. 335 – 26-4-1732

- José de Paiva, de 47 anos, natural de Arouca e morador na Viela do Fenas – Disse que um tio do Réu chamado Francisco Correia vinha algumas vezes hospedar-se em casa do pai do Réu. Outros parentes de Vila Real vinham a sua casa por vezes, mas não sabe os nomes.

- Dionísio Vieira, de 38 anos, morador no Porto – Não tinha trato nem comércio com o Réu e apenas um pouco com o pai deste. Sabe que  o pai do Réu teve uma grande enfermidade, mas não sabe se o filho o assistiu ou não.

- Tomás Pereira de Sampaio, de 65 anos, morador na Porta de Carros, freguesia de S.to Ildefonso- Confirmou que vinham parentes do Réu e de seu pai visitá-los ao Porto. Não sabe se o Réu foi a Vila Real em 1721.

- António Vieira Bernardes, de 46 anos, médico, morador na Rua das Flores, freguesia da Sé – Disse que o Réu  e seu pai vieram de Vila Real para o Porto. Não sabe se o Réu foi a Vila Real em 1721. Sabe que o pai do Réu teve uma enfermidade muito grave, mas não sabe em que ano foi.

- Marcos da Fonseca, de 45 anos, morador no Porto – Conhece o Réu, mas não sabe as visitas de parentes de Vila Real que ele tinha; sabe que um tio do Réu vinha com frequência a casa de seu pai.

fls. 182 v. img. 339 – 28-4-1732

- Bento da Silva Campos, de 28 anos, clérigo, morador na freguesia da Aviosa – Como o anterior. Não estava a par das deslocações do Réu a Vila Real ou a Coimbra.

fls. 184 img. 340 – 14-5-1732 – O Padre Manuel dos Reis Bernardes dá por encerrada a comissão.

fls. 185 img. 341 – 31-1-1732 – Estância com o procurador

fls. 186 img. 342 – Arguição de contraditas

- Constata-se do traslado da prova da justiça que as 23 testemunhas são todas parentes do Réu, que foram presas pelo S.to Ofício. Estas testemunhas não merecem crédito pelo ódio e inveja que têm ao Réu e a seu pai. De facto, o Réu e seu pai sempre viveram afastados dos seus parentes. Quando o Réu tinha 8 ou 9 anos, seu pai abandonou Vila Real e veio viver para o Porto com os dois filhos, deixando em Vila Real uma filha, Brites Caetana, que primeiro esteve em casa de sua tia Isabel do Vale e por morte desta, em casa de sua tia Rosa Maria, irmã de seu pai. Quando esta última faleceu, foi o Réu a Vila Real buscá-la, trazendo-a para casa de seu pai, no Porto.

Quando foram para o Rio de Janeiro, não deram conhecimento aos parentes o que supõe, tê-los desagradado.

Em 1721, vieram ao Porto o parente Diogo do Vale e seu filho João Mendes e hospedaram-se em casa do pai do Réu. O João Mendes não saía de casa, e o pai do Réu temeu que ele quisesse seduzir sua irmã e repreendeu-o por estar sempre em casa. Ele respondeu que não tinha para onde ir e o pai respondeu irado que “fosse para a sua estrebaria”. Então, muito chocados, o João Mendes e o pai foram para uma estalagem. Quando depois foram às festas de Vila Real, os parentes fizeram-lhe muitas queixas, escandalizados.

Sabe o Réu que sua irmã foi também presa pelo Santo Ofício e acha muito provável que ela tenha também acusado a ele e a seu pai. A sua irmã tratava muito mal a ele e a seu irmão Manuel e o pai punha-se sempre do lado dela, tanto assim que os dois deram veneno (rosalgar=arsénico) a seu pai, do que resultou ele ficar enfermo por cerca de um ano.

Não se pode assim dar qualquer crédito ao testemunho de seus parentes, nem de sua irmã.

fls. 189 img. 348 – 1-2-1732 – Nomeação de testemunhas

fls. 191 v img. 353 – 1-2-1732 – Despacho recebendo as contraditas

fls. 192 img. 353 – 13-3-1732 – Comissão da Inquisição de Lisboa à Inquisição de Coimbra para ouvir testemunhas às contraditas

fls. 197 v img. 360 – 26-3-1732 – Comissão da Inquisição de Coimbra ao Licenciado Manuel dos Reis Bernardes para ouvir as testemunhas

fls. 198 img. 360 – 29-3-1732 - O Licenciado Manuel dos Reis Bernardes, recebe uma comissão da Inquisição de Coimbra para ouvir testemunhas no Porto.

fls. 198 v img. 361 – 29-3-1732 – Audição das testemunhas

- Ventura de Barros, de 45 anos, já identificado supra – Disse não saber que o Réu tivesse dúvidas ou diferenças com alguém. Quando eles embarcaram para o Rio de Janeiro, o pai do Réu não tinha onde deixar sua filha e pediu ajuda a ele testemunha, mas acabou por a deixar recolhida no Convento do Corpus Christi em Vila Nova, onde foi presa pelo S.to Ofício.

- João Gomes Vieira, identificado supra – Não sabe que a irmã do Réu fosse inimiga e acusadora dele junto do pai. Disse que não fora o Réu a envenenar seu pai, mas sim seu irmão, que fugiu de casa, enquanto o Réu permaneceu em casa sem problemas, cuidando de seu pai. Nunca considerou que o pai do Réu se desse mal com seus parentes de Vila Real. Não sabe porém se ele lhes comunicou a partida para o Brasil.

fls. 202 img. 364 – 30-3-1732 –

- Maria de Magalhães, casada com José de Pairea, de 40 anos, moradora no Porto – Disse ser verdade que Brites Caetana costumava acusar seus irmãos a seu pai, mas não parecia ter-lhes ódio.

- Tomás de Sousa Machado, familiar do Santo Ofício, de 66 anos – Não sabe se o pai do Réu e este mesmo se despediram dos seus parentes quando foram para o Brasil.

- Mariana do Monte Calvário, de 54 anos, moradora no Porto – Disse não saber que o Réu tivesse dúvidas ou diferenças com seus parentes. Ouvira dizer que o pai  do Réu o castigava “acerrimamente” e que a irmã era inimiga de um dos irmãos, mas não sabe se era do Réu ou do Manuel. 

- Ana Josefa do Sacramento, donzela, de 25 anos, natural de S.to Ildefonso - Disse não saber que o Réu tivesse dúvidas ou diferenças com seus parentes. Ouviu dizer a uma criada do Réu, de nome Margarida, que o pai dele castigava os filhos com muita severidade, principalmente o Manuel, e que a irmã os acusava ao pai. Parece-lhe que ela lhe disse também que Brites Caetana, às escondidas do pai e dos irmãos falava com um moço de Vila Real, que lhe parece chamar-se Francisco Lobo, o qual depois fora para frade de S. Francisco.

- Agostinho de Azevedo e Carvalho, de 32 anos, meirinho da Relação do Porto - Disse não saber que o Réu tivesse dúvidas ou diferenças com seus parentes. Não sabe que a irmã do Réu fosse inimiga dele. Sabe que o Réu foi preso por requerimento de seu pai, com o motivo de lhe ter dado veneno, do que acusava os seus dois filhos. Mas o outro irmão, Manuel fugiu, e depois o Réu foi libertado e viveu com o pai até irem para o Brasil. Ouvira que a razão porque os filhos se davam mal com o pai, fora porque ele quisera casar com uma mulata filha do irmão de D. Gregório e isto havia 7 anos.

- Margarida Gomes, solteira, de 60 anos, criada do pai do Réu – nada sabe das inimizades do Réu. Entende que sua irmã não lhe era afeiçoada, mas não lhe parece que lhe tivesse ódio. Disse que o pai do Réu o castigava mas castigava ainda mais a seu irmão Manuel. E soube também por outros criados que o pai do Réu castigou a sua filha por se corresponder com um certo moço.

- José Botelho, de 35 anos, alfaiate, natural de Vila Real e morador na Rua das Flores - Disse não saber que o Réu tivesse dúvidas ou diferenças com seus parentes. Disse que o pai castigava mais o outro seu filho Manuel, do que ao Réu. Depois disse-se que os filhos deram veneno ao pai, sem se saber qual deles o fez. Mas depois o Manuel fugiu e o Réu ficou com seu pai e foi com ele para o Brasil.

fls. 208 img. 370 – 2-5-1732

- Manuel Martins Ferreira, de 35 anos,  cirurgião e alferes da ordenança, natural de Arnelas, freguesia de Olival, comarca da Feira - Disse não saber que o Réu tivesse dúvidas ou diferenças com seus parentes. Sabe que por volta de 1721, saíram à pressa de casa do pai do Réu, onde estavam hospedados, um parente de Vila Real por nome Diogo do Vale e seus dois filhos João Mendes e Lourenço; foi dito na altura que o João Mendes estaria “inclinado” para a filha Brites Caetana e também se pôs a tocar uma viola a uma janela. Não sabe que a Brites Caetana tivesse ódio a seu irmão, o Réu. É verdade que o pai castigava muito mais o irmão Manuel do que ao Réu e os castigava aos dois mais que à irmã deles.

fls. 210 – img. 372 – 14-5-1732 – O Comissário do Santo Ofício dá por concluída a diligência. Atreve-se a escrever: “(…) parece se não conclui legalmente o que o Réu Luis Miguel Correia pretende mostrar nas contraditas (…)”

fls. 210 v img. 373 – Certidão do escrivão da comissão indicando os que não foram ouvidos por terem falecidos, estarem ausentes ou não terem sido encontrados.

fls. 211 img. 373 – 4-4-1732 - O Licenciado Domingos Dias Teixeira, Reitor de S. Cristóvão de Parada de Cunhos e Comissário do Santo Ofício, recebe uma comissão da Inquisição de Coimbra para ouvir testemunhas

fls. 212 img. 374 – 15-3-1732 – Comissão da Inquisição de Lisboa à Inquisição de Coimbra para inquirir testemunhas às contraditas.

fls. 215 v img. 378 – 24-3-1732 – Comissão da Inquisição de Coimbra ao Licenciado Domingos Dias Teixeira, de Vila Real

fls. 216 img, 378 – 4-4-1732 – Audição de testemunhas pelo Licenciado Domingos Dias Teixeira.

- Manuel Pereira de Lemos, de 45 anos, morador na Rua das Pedrinhas, da freguesia de S. Pedro – Não sabe que  o Réu tivesse inimigos. Sabe só que os parentes dele e de seu pai que foram presos pelo S.to Ofício levaram a mal que o pai do Réu quisesse casar com uma mulata, mas, não se tendo realizado tal casamento, também não subsistiu tal ódio.

- André de Morais Sarmento, Fidalgo da Casa de Sua Majestade, de 60 anos – Não sabe que o Réu tivesse inimigos entre os seus parentes. Sabe que estes intentaram evitar que o pai do Réu casasse com uma mulata. Por essa altura o Réu e seu irmão deram veneno a seu pai, do que esteve muito doente.  Mas depois o pai do Réu ilibou-o e passaram a dar-se bem.

- Caetano de Távora Cardoso e Menezes, homem principal de Vila Real, de 40 anos – Não sabe que o Réu tivesse inimigos entre os seus parentes de Vila Real.

fls. 220 img. 382  - 5-6-1732 – Assiste ao Despacho representando o Ordinário o Inquisidor mais antigo.

fls. 221 img. 383- 5-6-1732 – Assento da Mesa da Inquisição

“(…) e pareceu a todos os votos que o Réu pela prova da Justiça estava legitimamente convicto no crime de heresia e apostasia por que foi preso e acusado, por ter contra si 23 testemunhas da Justiça que lhe dão declaração formal (…) e posto que o Réu viesse com suas coarctadas, nada provou com elas, e nem com as suas contraditas, pois sendo a principal matéria delas o ódio que sua irmã Brites Caetana, 2.ª testemunha lhe tinha e o mau tratamento que lhe dava, porque ele descobrira a seu pai a inclinação amorosa, que ela tinha, esta matéria de si é pouco considerável e se não prova, , antes, que esta notícia fora dada por uma criada de casa; e que o mau tratamento da dita irmã era para o ensino do Réu; e da mesma maneira é de pouca atenção a causa do veneno, que o Réu diz, dera a seu pai, porque as testemunhas se inclinam a reputarem autor deste delito a outro irmão do Réu chamado Manuel, o que bem mostra o portamento, com que se teve o dito seu pai com estes dois filhos: pois ao Réu levou em sua companhia para o Brasil e ao outro filho Manuel, ou o mandou para a Índia, ou nem quis mais tratar com ele: donde fica a prova da Justiça com toda a sua força.”

fls. 224 img. 386 – 20-6-1732 – Assento da Mesa do Conselho Geral

Relaxado.

fls. 226 img. 389 – 22-6-1732 – Auto de notificação de que está relaxado

fls. 228 img. 393 – 30-6-1732 – O Réu pediu audiência

Disse que o demónio o tenta a levantar falsos testemunhos às pessoas que conhece para assim evitar a morte. Mas ele resiste a essa tentação. E pede então que lhe dêem reclusão perpétua, se não lhe podem dar a liberdade, mas “antes quer o cárcere perpétuo para tratar nele da sua salvação, já que não pôde ser frade como alegou em sua defesa, pela impureza do seu sangue (…)” . Mas se nem isso lhe podem conceder, então pede que lhe dêem logo “Padre Espiritual e alguns livros espirituais para melhor se confortar e poder tratar do seu bem espiritual e também pede os Sacramentos e a Bula da Santa Cruzada para ganhar o Jubileu e mais não disse”.

fls. 230 img. 397 – 4-7-1732 – Notificação de mãos atadas. Ficou com ele o Padre João Duarte da Companhia de Jesus.

fls. 232 img. 400 – Sentença. Foi publicada no Auto de Fé de 6 de Julho de 1732, na Igreja de S. Domingos.

fls. 236 img. 407 – 6-7-1732 – Na Igreja de S. Domingos, o Réu pediu audiência

Disse que está perturbado, mas quer confessar que há 14 ou 15 anos, em Vila Real, os seus parentes o quiseram convencer da verdade da Lei de Moisés “(…) mas ele só verbalmente seguia a Lei de Moisés, por contemporizar com todos os ditos seus parentes de Vila Real que eram observantes da mesma Lei de Moisés e no coração nunca deixou a Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo, antes sempre o amou muito, e quis seguir o caminho em que falou nas suas deposições na Inquisição, tomando a vida e estado de Religioso, o que lhe impediu a pureza do seu sangue e assenta que nunca largou a Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo e só por agradar aos ditos seus parentes e eram todos aqueles que há pouco tempo foram presos e penitenciados na Inquisição de Coimbra; e com nenhuma outra pessoa falou em semelhante matéria; e o seu desejo é daqui em diante viver fazendo uma grande penitência das suas culpas para o que pede se use com ele de misericórdia; e mais não disse.”

fls. 239 img. 413 – 6-7-1732 – Assento da Mesa da Inquisição na Igreja de S. Domingos

Pareceu a todos os votos que o anterior Assento não estava alterado pela confissão parcial feita pelo Réu.

fls. 242 img. 417 – 6-7-1732 – Assento da Mesa do Conselho Geral na Igreja de S. Domingos

“(…) é bem julgado pelos Inquisidores, Ordinário e Deputados em determinarem que, com o que o Réu declarou no cadafalso, se não alterava o dito assento (de 5 de Junho)”

fls. 243 img. 419 – Conta de custas: 22$350 réis